Metal Heart Festival – talvez um monte de lições

Metal Heart Festival – talvez um monte de lições
Sábado dia 12 de julho o SANGUE SECO tocou no Metal Heart Festival, no Martim Cererê, organizado pela Cerrado Produções. Um sábado cheio de atividades do rock independente, porque além do Metal Heart ainda teríamos o lançamento do Cd do Sweet Racers no Egg Music e uma festa retrô no charmoso Estúdio República. Algumas vozes se ergueram reclamando da riqueza de oportunidades e da quantidade conflitante de eventos, mas realmente eu prefiro que tenhamos esse problema de muitos eventos do que problemas de nenhum evento. Público se conquista, alguns organizadores podem pastar um pouco mais para garantir sua credibilidade e espaço, mas isso é da atividade. Então que bom que tínhamos tanta coisa legal acontecendo na cidade.
O Metal Heart ia contar com shows do Corja, Truco 6 9 12, WWoolloonnggaabbaass, Black Drawing Chalks, Perfect Violence, Goldfish Memories e Matzeva (fazendo cover de Black Sabbath), que era o que mais se aproximava de Metal na verdade.
O que de início já impressionava porque misturava um monte de estilos diferentes, bandas que não são tão “bombadas” ou “hypadas” assim e que poderiam animar uma noite exótica. Exótica a começar do clima, frio pra diabo especialmente pra um quase-quarentão que esquece de levar uma jaqueta ou coisa mais quente que um lenço pra gripe. Se eu não tivesse ganhado a camiseta do InBleeding, generosamente presenteada pelo meu irmão Allan Paulino, certamente teria morrido de hipotermia. Também coopera para essa sensação térmica desajustada minha gripe teimosa que não me larga e um cansaço crônico de uma semana que foi intensa de viagens, treinamentos e atividades radicais amalucadas como rapel, travessia de rio, arvorismo, túneis e trilhas de pedra. Eu estava um bagaço.
Fui para o Cererê mais tarde, por volta das 21 horas, por causa das minhas atividades de pai de gêmeos. Realmente seria impossível sair de casa mais cedo e deixar meus dois tubarões colocando fogo na casa e endoidando a mãe, então atrasei o máximo minha saída para chegar mais ou menos na hora de tocar. Estávamos agendados para as 22 horas. Claro que eu imaginava um atraso, normal nesses eventos.
Cheguei às 21 horas e a segunda banda estava tocando, assisti a última música e voltei para o frio da noite. Interessante que não vi nenhuma pessoa fazendo a direção de palco, e a banda estava totalmente livre, tocando sem pressão nem encheção de saco para interromper o show ou coisa parecida. Pode parecer pelo comentário que eu acho que a direção de palco é um peso ou uma cruz a se carregar, mas não é bem assim. Festivais que tem várias bandas (todos né?) precisam ter um cuidado com o horário realmente, para evitar que as últimas bandas toquem para a manhã nascente e para alguns gatos pingados e bêbados. Mas algumas vezes isso é um saco, como quando abrimos o show do Tequila Baby. As primeiras bandas tocaram o tempo que quiseram, chamaram amigos para o palco, aproveitaram bastante, e na hora que subimos para tocar nossa meia hora, só nos permitiram 10 minutos. Um dos Sangues ficou putíssimo com a situação e até o baixista do TB comentou que tinha sido sacanagem conosco. Vida que vai…
Sem direção de palco achei que o troço ia degringolar, mas aí veio a primeira lição da noite: rolou certinho. As bandas parecem que se organizaram, mas sem conversas ou combinações e ninguém estourou o tempo do outro. Todo mundo tocou na hora certa, sem correria, o set inteiro e ninguém estressou. Incrível! Ou seja, é possível que as bandas se respeitem, façam o que pretendem fazer e tudo corra bem. Nesse ponto eu preciso reconhecer as bandas que tocaram antes do Sangue Seco porque nos entregaram o palco com um atraso mínimo e sem nenhum stress. Como fizemos com os próximos. Isso foi a primeira lição da noite.
Depois subiu a Truco 6 9 12, que eu ainda não conhecia. A primeira vista achei aquele negócio de tocar de chapéu de palha bem palha mesmo, mas não comprometeu porque o som dos caras é bom demais. Gostei muito da banda. Tudo bem que começar o show com covers é sempre um risco grande demais, mas eles não se prejudicaram consideravelmente por isso. Eu sempre quis fazer uma música com o nome da nossa banda, que virasse um hino tipo “Iron Maiden” é um hino nos shows dos ingleses, mas sempre fico com medo da música ficar fraca, uma bosta mesmo e eu ter que carregar essa cruz. Pois os caras do Truco6912 fizeram uma música com o nome da banda, e é a melhor música deles! Eu só achei que repetir o refrão 6865 vezes foi meio demais, mas a música é ótima e muito disso se deve ao magrelo guitarrista que é infernal em seu instrumento. Algumas vezes parecia AC/DC naqueles riffs infernais, e eu apreciei bastante o som. “Teletubbies” tem uma letra daquelas que tenta ser engraçada falando palavrão, que eu acho um saco, mas a grande sacada é a repetição de uma frase várias vezes (“Agora eu vou dormir gostoso”) como acontecia no programa da Tv. Legal! Aí eles cometem uma música que começa sertaneja, modona, e vira rock. A parte sertaneja é desastrosa, mas rock os caras sabem fazer e salvam a composição. Gostei muito dessa banda de nome regional e triste. É, não gosto do nome, mas dane-se! Não preciso gostar do nome mesmo e isso não muda nada pra banda.
Depois foi a vez do Perfect Violence, cada vez mais violento mesmo. Nanderff é o símbolo maior dessa banda, um baterista preciso, violento e impressionante no seu carisma, algo não muito comum em gente que se esconde atrás dos pratos no fundo do palco. O som dos caras é muito bom, mesmo eu não sendo expert nessas coisas mais modernosas, ao menos para um dino-punker-preguiçoso como eu. Agora uma coisa eu sempre soube e só confirmo a cada dia: vocalista que fala demais em show, acaba falando merda. E tem umas coisas que não precisa, mas teve gente elogiando os discursos do Pavel, então tem gente que gosta. Eu acho bobo.
Eu até agora não encontrei o organizador do festival, devo admitir. Conversamos por emails e scraps e não conheci o doido lá na noite do show, mas tudo correu bem. Fizemos nosso show, o som estava massa (Torreal, do Cicuta, ficou impressionado com a qualidade do som!) e nos divertimos muito. O público é realmente o que existe de melhor nessa cidade, cantando junto, pulando o tempo todo, rodas insanas com moleques de cueca e tudo isso empolga a banda, claro (hum, isso soou mal; “meninos de cueca empolgam a banda”. Explicar agora só vai piorar. Melhor fingir que não disse isso e torcer pelos corações pacíficos desse mundo para vencerem a batalha contra o mal e a maledicência.). Fizemos o set inteiro que havíamos planejado e “forante” alguns deslizes nossos típicos, o show foi super legal.
Eu vi muitos comentários de gente falando que o festival estava vazio, e não concordo. Não sei nada sobre números da bilheteria realmente, não tenho idéia dos dados financeiros e se os organizadores empataram o investimento ou tomaram a famosa ré, mas não achei vazio. Temos o hábito de comparar com festivais que lotam o Cererê como foi o Rock Solidário ou os Bananadas da vida, mas isso não é o padrão em lugar nenhum do mundo. O Metal Heart teve agora sua primeira edição, não tinha nenhuma banda estourada, nem nenhuma mega atração de fora do estado, então para essa realidade teve um público bem legal. Falo porque quando tocamos o teatro estava bem cheio, não lotado, mas bem cheio. O suficiente para empolgar a banda, e isso é o que conta, a interação entre as bandas que tocam e o público. O diabo é que o Cererê é grande do lado de fora dos teatros, principalmente se aquela área dos banheiros está liberada, o povo esparrama demais para tudo quanto é lado e dá a impressão de estar vazio. Eu já vi um show vazio no Cererê quando o MQN e Walverdes tocaram no Libertadores del Sur, tocando pra umas quinze pessoas no teatro. Dá desânimo realmente. E curioso que no dia que tocamos, abrindo o show para o Matanza, o Cererê tava duro de gente. Não tão curioso, era o Matanza, mega-sucesso em GoiâniaTown.
Então para shows pequenos ou médios, o Cererê tem a estrutura perfeita nos teatros, mas no ambiente externo é muito grande, muito espaço e dá a sensação de vazião. Esse é um ponto forte do Capim Pub, por exemplo, porque o ambiente limitado dá a sensação de muita gente sempre, e até os bocós que gostam de ficar na porta dos shows sem entrar, sem prestigiar as bandas e os organizadores, até mesmo essas antas dão uma impressão de lugar lotado ao Capim, porque a rua é estreita. Pode parecer besteira, mas acaba sendo importante quando orienta os comentários posteriores ao evento, e no caso do Metal Heart eu acredito que o público foi legal, principalmente considerando as outras atividades disponíveis na noite de sábado e o puta frio que estava fazendo. Com relação à relação entre tamanho do ambiente e estrutura para shows, temos agora o Projeto 777 do Danilo Tattoo, Vitor Yglo e Fal Vocêsabequemé; que promete um local bem bacanudo pra essas iniciativas. Pode ser a alternativa necessária para termos vários eventos na cidade e todos com avaliação de boa quantidade de público.
As bandas que tocaram na Egg são bandas de guris cheios de amigos e influentes na “cena”, portanto levaram muito público que seria do Metal Heart, e muita gente que depende de ônibus ou de andar para ir para os lugares desanima ao sair no frio. Melhor comprar um vinho e beber debaixo da coberta, de preferência embolado nas pernas de uma bela morena, e nessa hora quem quer saber de ir assistir um monte de barulhentos no palco? Talvez bons amigos, como o Allan, talvez mulheres amadas e amantíssimas, talvez gente que realmente goste dessas bandas, mas muita gente deve ter desanimado com tanta coisa interferindo. Sem falar que estamos em julho, e muitos roqueiros já devem estar rebeldes nas praias do Araguaia ou na fazenda da vovó.
O evento foi legal, merece continuidade e a organização não cometeu nenhum grande desastre. O patrocínio de uma marca de cerveja que não é muito apreciada gerou reclamações, mas acho que o frio atrapalhou mais o consumo da cerveja que o apurado gosto refinado dos roqueiros da cidade. O som estava muito bom, as bandas foram bem legais e o público foi diversificado e animado. Resumo da ópera? Parabéns aos envolvidos e muito grato aos organizadores.
Legal perceber que mesmo sem querer, tem gente que nos ensina tantas coisas.
Eduardo Mesquita, O Inimigo do rei
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Batman – escorpião com ascendente em capricórnio. Coincidência?

Batman – escorpião com ascendente em capricórnio. Coincidência?
O título desse post faz uma referência vaidosa e nada humilde (conceitos idênticos, claro) à uma coincidência: eu sou escorpião com ascendente em capricórnio. E fiquei muito feliz em descobrir essa semelhança com meu herói de HQ favorito. Eu leio histórias em quadrinhos desde os meus três anos de idade, se me lembro bem (porque a memória por vezes romanceia o passado) eu comecei a ler com histórias do Batman, as antigas publicações da Ebal e da RGE em formatinho. Então desde guri muito novo eu sempre fui fanático colecionador de revistas, e Batman sempre foi o meu favorito porque era agressivo.
Simples assim. Os outros heróis davam porradas, batiam, quebravam uns aos outros e aos vilões, mas eram homens bons, de bom coração e desejosos de justiça. Batman não era bom, era ruim como veneno e o que movia essa criatura negra, espessa e soturna não era justiça (apesar do que muitos bocós ainda acreditam), mas vingança. Um sentimento muito mais puro e direto que o elaborado e superior senso de justiça. Vingança e ódio, revolta, fúria, e eu me identificava (e identifico ainda hoje) muito mais com essas sensações primitivas, então nada mais natural que eu ter muito mais interesse por esse ser de sombras do que por um kriptoniano colorido ou um amigo da vizinhança escalador de paredes.
Então nessa sanha de batmaníaco eu fui juntando milhares de revistas, pôsteres, filmes, troços os mais variados (como o chaveiro que hoje segura as chaves do meu carro) e lendo tudo que caía nas mãos se referindo ao cavaleiro das trevas. Pois hoje fuçando no orkut (coisa que faço cada vez menos) eu encontrei um post falando de um texto sobre Batman e signos do zodíaco. Claro que dado o perfil da comunidade em que encontrei o texto, a pessoa que postou o link (Larissa, não a conheço) foi devidamente zoada e escrachada e o assunto logo tomou outro rumo falando da vida de uma pessoa ou suas preferências, coisa muito normal e comum de acontecer nessa comunidade.
Mas eu fui ler o texto e gostei. Gostei tanto que trouxe pra cá. Não sou aficcionado por zodíaco, não entendo muito, mas sou um legítimo escorpião curioso e por ter curiosidade me interessei pelo texto e fui gostando mais ainda quando surgiam as semelhanças entre o cruzado das sombras e euzão aqui. A coincidência entre signo e ascendente fez um sorrisão brotar, porque infantilmente me senti o próprio Batman.
Claro que isso não é muito certo (mentalmente falando, claro) num sujeito de quase quarenta anos, mas o garoto fascinado pelas aventuras em Gotham City ainda pulsa brutal em mim e não pude negar minha fascinação em perceber que traços tão doces da personalidade do herói gothamita como a paranóia, a obsessão, a crueldade, a vingança, são traços também comuns à minha pessoa, atenuados por uma dose de civilidade e outra de convivência social. E pelo texto muito disso se deve aos nossos traços zodiacais.
Além disso tudo o texto é interessante por si só, realmente. Traz um monte de informações sobre a origem e história de Batman, o que já vale a leitura. Algumas incorreções no texto foram devidamente corrigidas por mim, já que não poderia deixar alguém achando que foi o Coringa que matou os pais de Bruce Wayne e outras coisas assim. Errinhos, dado o tamanho e abrangência do texto. Também retirei alguns trechos muito “zodiacais” porque eu não entendi lhufas sobre cabeça de dragão e andanças em casas solares, e imagino que o leitor usual desse blog também não saiba nada disso, mas quem se interessar o texto integral do João Acuio está no Constelar no http://www.constelar.com.br/revista/edicao81/batman1.php e vale a visita para quem gosta do assunto. Para facilitar algumas “correções” do texto eu os coloquei em negrito para melhor compreensão.
Segue o texto, divirtam-se! Eu me diverti bastante.

O Cavaleiro das Trevas do Zodíaco
João Acuio
Batman, o Cavaleiro das Trevas, corporifica algumas facetas sombrias que a sociedade americana não gosta muito de encarar. Não foi o primeiro, mas inegavelmente tornou-se o mais conhecido e carismático dos heróis no estilo dark. Neste artigo João Acuio desce às profundezas da bat-caverna e desvenda a dimensão mais plutoniana
de Gotham City.
Gênese num beco sem saída
- Marginais… vocês sugaram a vida de Gotham City, na alma! Essa festa durou tempo demais. Basta! De agora em diante farei parte de seus pesadelos. A lei ganhou um nome… o meu nome! Batman! Lembre-se dele quando cometer um crime…
Com essas palavras, Batman fez sua primeira aparição nos Estados Unidos às vésperas da Segunda Grande Guerra, sob o céu de 18 de maio de 1939.
Criado pelo desenhista de quadrinhos Bob Kane, a Detective Comics precisava de um super-herói que fosse a antítese de Superman, que havia sido lançado um ano antes e fazia muito sucesso. Inspirado em Zorro, em histórias de detetive e no genial Leonardo da Vinci, Bob Kane dá à luz ao Batman - O Cavaleiro das Trevas. Um vigilante feito de sombras, atormentado por suas lembranças e com faro de quem conhece a dor de uma perda.
NOTA SOBRE ESTE ARTIGO
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Em 1999 Fernando Fernandes, Carlos Hollanda e João Acuio dividiram entre si a tarefa de produzir um ebook com a análise astrológica dos mais conhecidos super-heróis dos quadrinhos. Fernando ficou com o Superman, Hollanda com o Fantasma e João Acuio com o Batman. O trabalho saiu na série Constelar Infolivros, em 1999. Mais tarde, João retirou seu artigo da série para concorrer com ele a um concurso promovido pela escola Espaço do Céu, do Rio. João saiu vencedor e o texto, na época, foi divulgado em Porto do Céu. Em 2002, Acuio incluiu o artigo em seu livro Céu em Transe. Agora, seis anos depois, o texto retorna a seu lugar de origem.
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O ebook de 1999 acabou se transformando no curso de Astroletiva Compreensão Astrológica do Mito do Herói, onde a análise astrológica de alguns personagens serve como ponto de partida para a investigação das motivações comportamentais da sociedade contemporânea. Para substituir o estudo sobre Batman, João Acuio produziu um novo artigo sobre o Homem-Aranha, enquanto Carlos Hollanda acrescentou uma inédita análise dos mitos por trás do Senhor dos Anéis.
Bob Kane, com a ajuda do roteirista Bill Finger [1], deu ao personagem uma origem mais próxima da morte e do apocalipse do que da vida. Quem leu a Dectetive Comics n° 27 ou viu o primeiro filme da série Batman, com Michael Keaton no papel principal (nota do blogueiro – um dos piores filmes da história do cinema, no que se refere à desrespeito a um personagem. Os outros que seguiram também foram desastrosos, sendo que finalmente um filme decente e de altíssima qualidade foi feito em “Batman Begins”), sabe que Bruce Wayne (o homem que veste a roupa de Batman), presenciou aos oito anos o assassinato de seus pais à saída do cinema em que foram ver A Marca do Zorro. Com o passar do tempo, a lembrança do crime ronda as suas não raras noites de insônia. Aos 30 anos, já vivido o Retorno de Saturno [2], com profundo conhecimento de artes marciais e literatura policial, além de deter tecnologia de ponta, converte-se num implacável vingador vestido de morcego, que atormentará a alma dos criminosos de Gotham City. Para você ter uma idéia de quanto ele é vingativo, Batman mata já na primeira história. Batman era um assassino no seu primeiro ano de vida.
Com a inteligência dos argumentos de Bill Finger e desenhos de Bob Kane, Batman torna-se, com o passar dos anos, o avesso do Superman. Enquanto o Super-Homem é um herói solar, que protege todo o planeta assim como velhinhas indefesas que perderam seus gatos, o Homem-Morcego é um justiceiro noturno. Apenas mais um numa cidade suja pelo crime. Super-Homem tem superpoderes, tais como visão de raio-x, velocidade ultrassônica, além de voar. Já Batman usa seu próprio corpo como arma de combate, sem falar de seu cinto de utilidades, que lhe dá recursos para combater o crime com instrumentos. Muitas vezes eles não funcionam, deixando-o literalmente na mão. Ele é falível, portanto. Superman tem os aplausos e o reconhecimento da opinião pública, Batman é um ser solitário e em algumas histórias é criticado por fazer justiça com as próprias mãos. No entanto, há uma diferença fundamental entre os dois: enquanto o eterno jovem Super-Homem é imortal, Batman é de carne e osso. Gotham City, além de circos e parques de diversão, também tem cemitério.
É importante lembrar que, no início, o Homem-Morcego era um personagem solitário. O jovem Robin, o menino-prodígio, aparecerá somente em abril de 1940, para atenuar as características sombrias de Batman e assim ganhar o público infanto-juvenil que acompanhava as tiras de quadrinhos nos jornais. Contrariando a idéia original, Batman passa a ter humor. E a ter que se relacionar. Nos anos seguintes, até 1950, surgirão os outros personagens que vivem em Gotham: Duas-Caras, Pingüim, Charada, Coringa, Mulher-Gato, Alfred [3] etc. Enquanto Batman vai sendo civilizado, renunciando a matar e a usar armas de fogo e se dedicando à beneficência com o nome de Bruce, seus arqui-inimigos vão nascendo e se assemelhando muito a origem do Homem-Morcego, isto é, com caras e bocas que expressam mentes doentias até à psicopatia.
Nos anos 60, durante a série televisiva, Batman entra em crise de identidade de vez, sendo descaracterizado por seus roteiristas até cair no ridículo. Mas essa história eu conto daqui a pouco. Vamos primeiro definir o signo do Batman.
[1] Bill Finger trabalhou com Bob Kane desde a origem do Batman. Foi ele quem delineou os aspectos sombrios do Homem-Morcego. Praticamente criou Coringa, além de ter assinado o argumento das histórias em que surgiram pela primeira vez Robin, Pingüim, Mulher-Gato e Duas-Caras. Infelizmente, não foi possível conseguir seus dados de nascimento para análise.
[2] Saturno é o Senhor do Tempo. Carrega em seus ensinamentos o crescimento através da dor. Disciplina, perseverança, pedras no meio do caminho são suas marcas pessoais. O Retorno de Saturno consiste na conclusão da andança de Saturno por todas as casas astrológicas e signos que tem início ao nascermos e que se conclui a cada 28 ou 29 anos, quando o Senhor do Karma retona ao seu lugar de origem no mapa.
[3] Coringa - março/abril de 1940; Pingüim - dezembro de 1941; Duas Caras - agosto de 1942; Alfred - abril de 1943; Charada - outubro de 1948.
O signo do Batman

Se você pensou em Escorpião, guarde segredo. É isso mesmo.
Batman tem qualidades que associamos a Escorpião. Absurda perspicácia, poder de concentração, hábitos noturnos, tormentos, são algumas de suas características mais fortes. Batman já foi considerado o maior detetive do mundo. Morcego tem hábitos noturnos. E todo mundo sabe que Escorpião vive no submundo do mundo cultuando sua obsessão pela morte. Lembre-se que, nas melhores histórias, Bruce/Batman sempre tem pesadelos com a morte dos pais. Aliás, o lugar onde o casal Wayne morreu, conhecido como Beco do Crime (nota do blogueiro – Beco do Crime é o nome que depois ficou conhecido o local da morte dos Wayne, pois anteriormente chamava-se Park Row, sendo lugar nobre em Gotham. O assassinato dos Wayne iniciou o processo de decadência do local e consequentemente o aumento da corrupção na polícia gothamita), dizem os bêbados, é habitado por fantasmas de órfãos mirins, criminosos e muita raiva descontrolada. Os batmaníacos juram que, no aniversário de morte dos pais de Bruce, Batman faz plantão nesse beco, espancando e capturando criminosos.
Em outras palavras: Batman, assim como Escorpião, é um signo da noite, que vive no submundo, guardando um segredo. Neste caso, sua identidade e seu passado. Com um faro infalível, como o de um detetive de romance policial noir, Batman enxerga no escuro e o que acontece nas entrelinhas. É conhecida a capacidade de percepção do escorpiano para o que é tramado por baixo do pano. Aliás, é por isso que o associam à manipulação e à paranóia. A boca do povo diz que Escorpião é vingativo, muito por lidar em linha direta com a raiva que mata ou envenena, principalmente a si mesmo.
Se Escorpião tem tendência à paranóia, nem precisa dizer que a desconfiança é uma marca deste signo. E diga aí: Batman confia em alguém? Somente no Batmóvel e no virginiano Alfred, o mordomo que prepara sua comida e cobre sua retaguarda na Batcaverna quando o Homem-Morcego sai à caça.

Capa da primeira edição do Batman.
Morte e renascimento até o juízo final
O renascimento também é uma marca de Escorpião. E é o que ocorre em vários enredos das histórias de Batman, que o conduzem até o fundo do poço, para depois fazê-lo renascer das cinzas. Nada mais Escorpião. Aliás, o escorpiano tem vocação para escavar histórias perdidas, carregadas de veneno letal.
Escorpião lida sempre com sentimentos e situações-limite. Ou, se você preferir, com aquilo que se chama crise. O lado destrutivo da vida. Signo que passa a vida toda lutando, tentando fazer do veneno que empedra seu coração algo construtivo.
Batman é assim: vive com o que há de mais negro e louco em Gotham City. Volta e meia ele leva o ariano Coringa, ou o Gêmeos-Libra Duas-Caras, ou o gelado aquariano Homem-Gelo para o Asilo Arkham, o hospital psiquiátrico de Gotham. Apesar da genuína compaixão, o Cavaleiro das Trevas, no íntimo, não acredita muito na recuperação de seus inimigos. Como ele se conhece e é um Escorpião convicto, sabe que a destrutividade pulsa dentro de cada ser. O taurino Freud, com Ascendente Escorpião, desenvolveu o conceito de pulsão de morte, criado pela psiquiatra russa Sabina Spielrein [4], para essa realidade.
Outra característica hiper hiper escorpiana é a possibilidade de concentração nas horas mais difíceis. Escorpião concentra toda sua alma quando se sente encurralado. Como Batman se sente sempre nessa situação, acaba sendo silencioso como a morte, preferindo antes observar do que falar.
Se você ainda tem dúvidas quanto à ênfase no signo de Escorpião, veja só as primeiras palavras de Batman em Batman vs. Aliens, de Ron Marz e Bernie Wrightson, lançado em 98 no Brasil pela Mythos Editora:
- As noites de minha vida são gastas lutando com psicóticos. Criminosos, cujas mentes são tão deformadas quanto suas experiências externas… Eu acreditava ter visto a face do horror. Hoje eu descobri que não. (…) Os eventos se repetem em minha mente… Todos eles. O início…
Ou, em Um Conto de Batman: Gangues, de Steven Grant e Shawn McManus, lançado pela editora Abril Jovem, em ano impreciso:
-Gotham à noite fervilha com violência. Eu sinto a infecção se espalhar, dos becos mais imundos do centro até o mais tranqüilo quarto nos bairros elegantes. Ela é transmitida pelo orgulho, pela ganância, pelas razões mais insensatas, até irromper como uma chaga purulenta.
Eu quero parar a epidemia, curar minha cidade. Mas também estou infectado. Eu luto contra minha própria violência, contra o ódio que me impulsiona. Eu controlo a fúria, soltando-a quando é preciso e só na dose necessária.
[4] Quem ler o livro Um Método Muito Perigoso, de Jonh Kerr, Editora Imago, poderá acompanhar os primeiros anos da psicanálise, a relação de Sabina Spielrein com Jung e Freud e o quanto essa relação influenciou as obras dos dois gênios.
Batman é pai, não é padrasto
Há ainda outro signo muito forte na personalidade deste homem que assombra os becos de Gotham City (ou será São Paulo, New York, Tokio?): o signo de Capricórnio.
Associa-se à Capricórnio a cara séria, sem sorriso, da máscara que Batman usa. Capricórnio é o signo da sisudez, da velhice, da estrutura e da responsabilidade com o peso de mil solidões. E a solidão de Bruce Wayne é conhecida nos quatro cantos do mundo. Batman não pode sorrir porque, se sorrir, vai amolecer a sua rígida musculatura facial e com isso acabará chorando e tendo que lidar com a dor da perda de seus pais [5]. Acaba perdendo também a chance de reconhecer a força de sua fragilidade.
Capricórnio, com o seu gosto por desertos, protege Wayne/Batman de envolver-se com sentimentos mais profundos, o que, para muitos Escorpião-Capricórnio, é apavorante. Que pena, porque, se não fosse assim, talvez Batman pudesse um dia amar a Mulher-Gato.
O Bode Velho também é o significador da disciplina e perseverança. Veja o que Mark Hamill, o Luck Skywalker de Star Wars, diz sobre Batman.
“Ele (Batman) não era um estranho visitante de outro planeta, mas um verdadeiro super-homem. Era um ser mortal, representava um ideal humano, através de trabalho duro, disciplina, dedicação e perseverança, elevou tanto sua mente, corpo e espírito, que acabou se distingüindo de todos nós” [6].
Batman dedicou-se ao aprendizado de inúmeras artes marciais. Se houvesse nascido no Japão antigo, seria um Ronin, nome dado a um samurai sem mestre. Outras evidências capricornianas são essa perseverança incansável que o faz trabalhar duro, noites adentro, em decomposição de fórmulas químicas, ou à procura, no seu arquivo de jornais, de notícias que reconstituam a origem de seus arqui-inimigos. E por último, a disciplina capricorniana, que faz do Batman também um pai-disciplinador. O ariano Robin não tem cara de filho rebelde?
[5] Wilhem Reich criou a idéia, em psicologia, de Couraça Muscular do Caráter. Defende a tese de que o corpo guarda a história de vida em sua musculatura. Um rosto “frio, duro, tenso” seria de alguém que teve que congelar o impacto de uma emoção inconciliável com a consciência. Como se faz isso? Primeiro, deixando de respirar. Segundo, em conseqüência, não expressando a emoção. Com o tempo, isso custará a falta de espontaneidade da musculatura facial.
[6] Mark Hamill, o Luke Skywalker, de Star Wars, em As Dez Noites da Besta, Ed. Abril, março de 89, São Paulo, SP, p. 3.
Outros personagens e um parênteses
Quando se analisam os outros personagens que compõem o universo de Batman, podemos entendê-los como subpersonalidades do Homem-Morcego. Estou querendo dizer que, apesar de Bruce/Batman ser predominantemente Escorpião-Capricórnio, os outros personagens, tais como Coringa, Mulher-Gato, Robin, Hera Venenosa, Alfred e Robin, são reflexos de Batman. Quero dizer que Batman é o outro lado de cada um desses personagens e vice-versa. É também assim no mapa astrológico.
Sabemos que cada planeta no mapa natal é uma parte que compõe a pessoa. É certo que temos uma vida e meia para integrar na nossa consciência a qualidade de cada posição planetária. Porém, na maioria das vezes, escolhemos ser, por exemplo, o Sol e o Ascendente, e projetamos a Vênus na mulher amada, Marte no filho desejado, Júpiter no professor otimista. É isso que Batman faz. Ele se identifica com alguns signos e entra em contato com outras dimensões do seu ser através de seus arqui-inimigos ou parceiros. Por isso, quando analisamos personagens de ficção, é sempre relevante entendermos todos os outros personagens que compõem a história para uma melhor compreensão da psicologia do protagonista.
Então, vamos a eles:
Robin - o filho adotivo

Depois de um ano de lutas solitárias, Batman conhece Robin, em 1940.
Robin, o menino-prodígio, é o trapezista Dick Grayson. Filho dos Grayson Voadores, que tinham um circo e faziam shows de trapézio. Presenciou a morte de seus pais em pleno picadeiro, após sabotagem do equipamento de segurança. Bruce Wayne estava ali na noite do homicídio e por isso culpa-se por não ter podido evitar a tragédia. Depois disso, Dick Grayson torna-se Robin. Para vingar sua perda, associa-se a Batman no combate ao crime. Bruce/Batman faz o papel de pai de Dick, por ver naquele menino a sua origem. E Robin, por sua vez, o papel do filho que o milionário Bruce Wayne nunca terá.
Por causa da ousadia, juventude e coragem muitas vezes inconseqüente de Robin, podemos associá-lo ao signo de Áries, que é conhecido por sua impulsividade, rebeldia e espírito de competição. Em muitos enredos, o menino-prodígio entra em franca competição com Bruce. Quando não pelo amor de uma mulher venenosa ou por desrespeitar uma ordem de Batman. No final, o Morcego agradece, já que a rebeldia de Robin resulta na sua salvação bem na hora em que ele, o Homem-Morcego, viria a sucumbir nas mãos dos inimigos.
Robin, com seu signo solar em Áries, faz Batman ficar menos noturno e atormentado. Batman vê em seu filho adotivo a alegria que nunca alcançará. Através de Robin, Batman fica menos solitário e mais paternal. Aliás, essa relação faz com que Batman ganhe contornos de Libra. Afinal de contas, nada é mais libriano do que uma dupla dinâmica, uma parceria em prol da justiça. É importante dizer que essa parceria só acontece por pressão da indústria de quadrinhos, que queria atingir o público infanto-juvenil através da identificação com um personagem-mirim. Robin nasce um ano depois de Batman, humanizando sua irracionalidade. Em linguagem astrológica, “libriando” o temido signo de Escorpião.
Alfred, o mordomo
Alfred é do signo de Virgem, devido à sua genuína vontade de servir o patrão, Bruce. É ele quem prepara à comida, lava e passa a roupa, medica, cuida das contas e, na Batcaverna - espécie de bastidor escorpiano - dirige as ações de Batman. É conhecido ser do signo de Virgem essa vocação de dirigir ações nos bastidores, sem a necessidade de ser aplaudido ou subir no palco.
Alfred também é a crítica - outra forte característica do signo de Virgem. Ele sempre está lembrando a Bruce que é preciso relacionar-se com as pessoas, apoiando sempre seus romances, e também não deixando de alertá-lo sobre o perigo que há na noite. Ele faz isso de forma muito virginiana, isto é, com uma certa distância afetiva, com medida e seriedade. E dizendo, quando Bruce volta ferido, a típica frase virginiana:
- Eu o avisei, patrão. Eu lhe disse que era perigoso. Eu não falei?
As serpentes Melher-Gato e Hera Assassina (nota do blogueiro – claro que aqui temos um caso de descuido do autor, pois já se referiu à personagem com o nome brasileiro correto dela – Hera Venenosa. Hera Assassina, portanto, não existe)


Duas lindas vilãs, Mulher-Gato e Hera Assassina (Nota do blogueiro – já comentei. Leiam acima, caramba!), costumam levar Batman aos mais variados passeios no inferno. Ambas são Touro-Escorpião, graças à ênfase na beleza e nos jogos de sedução. Com toda certeza, Batman deve ter Vênus em Escorpião [7].
Hera Assassina (nota.. er… bão, já falei!) mata com seus beijos. Este é o lado manipulador-sedutor que há no signo de Escorpião. Não que todos os escorpianos sejam assim, porém é provável que tenham que lidar com a questão de amar sem possuir, seduzir sem controlar, entregar-se sem subjugar. Quem nunca se envolveu numa relação amorosa que mais destrói do que ama?
A Mulher-Gato também é Escorpião. Lembre-se que ela é uma assassina. Muito sedutora, ardilosa - aliás, muito parecida com o Homem-Morcego. Talvez por isso, ela o salve muitas vezes. E ele a poupe sempre. É difícil para ele resistir aos encantos da Mulher-Gato. Mas a ênfase no signo de Capricórnio faz com que ele resista e não se ajoelhe frente ao próprio desejo.
[7] Vênus é a representação da Mulher Amante no mapa astral. Sua posição indica como gostamos de ser amados. Indica também parte do nosso núcleo emocional. Vênus junto com a Lua indica como sentimos o mundo. Na minha experiência com mapas natais, é comum ver gente com esta posição metida em relacionamentos pautados na sexualidade e na disputa pelo poder. Não raro encontrei mulheres vivendo relacionamentos rodeados de violência. Já nos homens, as mulheres são sentidas como castradoras, mas sexualmente irresistíveis. Desconfiança e muita inconsciência pulsa no coração da Vênus em Escorpião. Quando perguntado a esses clientes por que continuavam em relacionamentos tão destrutivos, diziam não saber. Ninguém sabe nada de Escorpião quando tenta saber com a lógica politicamente correta.
O sádico palhaço coringa

O Coringa no traço de Bob Kane, seu primeiro desenhista.

Outra coisa que faria bem à rigidez de Batman seria aprender a rir com o Coringa [8].
Coringa é um personagem Áries-Gêmeos-Leão. Áries pela acidez e pelo exaltado egocentrismo - não é por acaso que ele é o inimigo nº 1 de Batman. Não esqueça que Áries procura sempre ser o número 1, o pioneiro, o único. Regido pela agressividade do planeta Marte, o Deus da Guerra, Áries-Coringa exerce seu sadismo.
Coringa também é Gêmeos pela disposição lúdica: um palhaço que faz da piada sua arma mortal. Ele mata as pessoas com um gás hilariante que faz agonizar com um sorriso no rosto. A combinação destes dois princípios, Áries-Gêmeos, faz do Coringa um personagem que tem humor cáustico. Bem diferente de Batman, que não ri e não acha graça na luz. Aliás, poderíamos associar Coringa também a Leão, devido ao seu gosto por espetáculos, holofotes e entradas marcantes com roupas sempre chamativas.
Áries-Leão são signos expansivos por serem de Fogo. Bem diferente de Batman, com seu restritivo mundo de Capricórnio marcado pela solidão, ou o escuro Escorpião da Batcaverna repleto de objetos conspiratórios. Daria para dizer que o terapeuta ideal para o Homem-Morcego seria o Coringa, e vice-versa. Batman precisaria rir com as piadas do Coringa e o Coringa aprenderia a conter o seu instinto de aniquilar com a Lei que Capricórnio representa. Infelizmente, foi o Coringa quem matou o casal Wayne, matando também a capacidade de rir de Bruce. (nota do blogueiro – aqui temos o maior erro do autor do texto. Erro que devo atribuir ao maldito filme dirigido por Tim Burton e feito com Michael Keaton e Jack Nicholson em 1989, que cometeu essa atrocidade e atribuiu ao Coringa – Jack Napier, antes de se transformar quimicamente no Coringa – o assassínio dos Wayne. Na verdade os Wayne foram assassinados por Joe “Chill” Chilton, um ladrãozinho comum que os assaltou depois da sessão de cinema em que assistiram “Zorro” e que fascinou o pequeno garoto de 08 anos Bruce. Joe “Chill” queria o colar de pérolas que Martha Wayne havia ganhado de aniversário de casamento, o que fez com que Thomas Wayne tentasse uma luta corpo a corpo com o assaltante que o baleou. Matando Martha logo depois, e não matando Bruce por causa da aproximação da polícia em suas sirenes pouco discretas. O Coringa não é o responsável pelo surgimento do Batman.)
[8] “Bill Finger me mostrou uma fotografia de Conrad Veidt no filme The Man Who Laughs (O Homem que ri!). Veidt, de fato, possuía um sorriso maligno e eu aprimorei o rosto do Coringa a partir daquela fotografia!”, declaração de Bob Kane para a revista Batman - Ano Um dirigida por Frank Miller e Mazzucchelli, lançada pela Editora Abril em 1987.
O indeciso Duas-Caras


O Duas-Caras é o Promotor Harvey Kent (nota do blogueiro – Harvey Dent, e não Kent. Outro deslize do texto). Após o assassinato de sua familía, Harvey tem ácido jogado em sua casa. (nota do blogueiro – essa eu não sei de onde o autor tirou, porque na verdade Harvey Dent era promotor público em Gotham City, atuando junto com o Batman em inúmeros casos policiais. Harvey era chamado “Apolo” ou “Bonitão” na tradução brasuca da antiga Ebal, por causa de sua enorme beleza física e grande elegância ao vestir e nos seus modos. Mas por causa de sua obsessão e quase mania de querer ser deus, Batman se afasta do promotor. Quando finalmente conseguiram prender e levar à julgamento o poderoso gângster Chefe Maroni, já não atuavam em conjunto, mas Batman acompanhava o julgamento. Chefe Maroni arremessa um vidro de ácido e atinge o rosto de Harvey Dent deformando metade de seu rosto e toda a sua sanidade. Por muito tempo Duas-Caras – como Harvey passou a se chamar depois do atentado – acreditou que Chefe Maroni na verdade quis atingir Batman com o ácido e por isso culpava o Cavaleiro das Trevas por sua deformidade. Uma antiga edição da Ebal mostra Harvey Dent saindo do Asilo Arkham para ajudar um detetive à prender Maroni, e toda sua história é contada, mostrando até o ponto em que surge a sua obsessão com a moeda riscada em uma das faces. Histórico!!) Com isso, acaba ficando com um lado do rosto desfigurado, revelando seu ódio, e o outro, sua sanidade. Logo de cara pensamos no signo de Gêmeos, devido a essa divisão de personalidade. Porém, há outro signo que parece mais próprio do Promotor - o signo de Libra.
O Duas-Caras é um personagem que, ao decidir se vai matar ou não, tira cara ou coroa com uma moeda. Há, neste personagem, uma dúvida tão cruel, uma divisão tão fundamental, que podemos pensar no signo de Libra. É do signo de Libra essa guerra interna que o faz ficar entre duas opções igualmente importantes, sentido-se obrigado a escolher. No caso, Harvey precisa do auxílio da moeda, já que ele não consegue optar sozinho. E quantas vezes os nativos de Libra não pedem a opinião do parceiro ou de amigos para decidir alguma coisa? E mais, advogado-promotor é profissão de Libra, o signo da Justiça. (nota comentante do blogueiro – em “Asilo Arkham”, uma das obras definitivas de Batman, Harvey Dent aparece num momento brilhante da obra. A psicóloga – sempre essa raça! – toda orgulhosa mostra que “curou” Harvey da obsessão pela moeda, e que agora ele usa um baralho para optar. Batman surta e quase bate na mulher, mostrando que antes Harvey tinha a moeda, e com isso duas opções sempre. Agora ele tem mais de trinta opções, e isso antes de ajudar acabou por afundá-lo na inanição de não poder escolher, devido à tantas possibilidades que sua mente frágil não consegue agregar. Mostra então que sequer escolher se pode ir ao banheiro ele pode escolher agora, olhando para um Harvey urinado no chão do asilo. Loki!)
Este é o personagem de que, seguramente, Batman tem mais compaixão (acredite, compaixão também é uma característica de Escorpião). Até porque Harvey Kent (DENT!! DENT, maldito!!!) era seu amigo e, principalmente, por compreender que Duas-Caras não tem realmente a possibilidade de fazer a escolha entre sua saúde ou sua insanidade, dado o trauma de ter visto sua família ser assassinada (nota do blogueiro – Mentira!! Nem a família foi assassinada, nem Batman tem tanta compaixão assim por ele. Harvey é doido, mas tem consciência dos atos que comete, a psicopatia não é ausência de senso de certo ou errado, mas é sim o fato de se ignorar as conseqüências dessa dicotomia e dualidade. Ele sabe que faz coisas erradas, só não dá a mínima para isso. E o Batman sabe disso.). E disso o Batman entende.
Bob Kane rima com Bruce Wayne
E por fim: Você sabe qual é o signo de Bob Kane, criador do Homem-Morcego? Escorpião, é claro! Que coincidência, não?!
Com certeza, quando alguém cria um personagem, muito possivelmente está projetando conteúdos do seu próprio psiquismo durante a criação. A criatura e o criador se assemelham.
Não disse antes, mas Touro é um signo forte na personalidade de Batman. Faz com que ele preserve a vida, apesar da vontade escorpiana de varrer o que é “sujo” de Gotham. Até o fato de Bruce ser um elegante milionário nos remete ao signo de Touro - signo amante da elegância e do dinheiro. Querer manter a ordem em Gotham também nos lembra dos valores de disciplina, organização e conservadorismo comum aos signos de Terra. Note: Bob Kane tem Júpiter em Touro.
A primeira aparição de Batman - o diabo
“Em Gotham, a noite tem seu rosto. Chame o diabo, em voz alta ou em silêncio, e ele responderá. E o nome do diabo é… Batman” [10].
Pouco antes do início da Segunda Grande Guerra, com a Besta constelando em torno da figura de Hitler, Batman nasce em 18 de maio de 1939.
O taurino Hitler mostrou um jeito de lidar com a Besta que reside dentro de cada um de nós. Batman foi outra maneira de lidar com as mesmas questões. Pena que a indústria cultural americana tratou de colorir tão depressa este personagem.
Batman, na sua origem, e Hitler são personagens plutonianos. Ambos lidam com aquilo que Fausto Fawcett chamou de básico instinto.
“Forças caóticas mandam sinais em forma de Básicos Instintos que transformam as pessoas em vetores de afirmação vital totalmente obsessiva e amoral. (…) E a veia platônica pulsa desesperada enquanto as forças caóticas da violência primordial são cutucadas com vara curta pelo excesso de poluição humana nas megacidades… (…) Megacidade, principalmente de terceiro mundo, é uma inacabada e furiosa catedral do excesso humano, violentos coliseus urbanos da luta pela sobrevivência. Brutalidade de todas as presenças, de todas as formas de vida social e subjetiva dando xeque-mate umas nas outras, gerando divisão e dribles de realização emocional, e catártica na mediocridade cotidiana. Luta pela sobrevivência e pela ração de emoção, comida, divertimento, ternura-família-amorzinho-cumplicidade-afetiva… Terreno propício pra proliferação dos sentimentos plutônicos, pra veia plutônica pulsar firme e forte nos espíritos e nas carnes. A veia plutônica pulsa mais forte que a platônica.”
Gotham City é uma megacidade do Terceiro Mundo. O mundo, naquela época, estava pronto para explicitar essa veia plutônica pulsante em todos os seres humanos no palco da Segunda Grande Guerra. Dobermans nazistas babando fúria lembram básicos instintos.
[10] Em Um Conto de Batman: Criminosos. Lançado pela Editora Abril Jovem, São Paulo, SP, p. 28. Escrita por Steven Grant e desenhada por Mike Zcek.

Este é Bob Kane, que tinha 22 anos quando criou o Batman.
Curto-circuito no céu
Os enredos e os personagens de Gotham revelam uma certa ambiguidade no mundo de Batman que se associa ao eixo Gêmeos-Sagitário. Esses são os dois signos que lidam fortemente com dissociação de personalidade (espécie de curto-circuito na coerência). Não há signos mais duplos do que estes. É comum Gêmeos criar dupla identidade para si mesmo. Veja o geminiano poeta e astrólogo Fernando Pessoa, que criou diversos heterônimos com personalidades delineadas. Sagitário também é assim. Essas tendência à duplicidade ou, no popular, em ter duas caras, há em quase todos os personagens do Batman. Veja, Batman é Bruce Wayne. Robin é Dick Grayson. Duas-Caras é Harvey Dent. A Mulher-Gato é Selina Kely (nota do blogueiro – Selina Kyle, um erro de digitação, eu acredito). Hera Assassina (já falamos sobre isso, Hera Venenosa) é Pamela Lillian Isley. Coringa é uma referência à carta de baralho que, em alguns jogos, pode ocupar a identidade de outra carta. Coringa é um trickster, nada mais parecido com o amoral Hermes, regente de Gêmeos. Essa duplicidade que Gêmeos representa é o pano de fundo da origem de todos estes personagens.
A crise de identidade na mesma Bat-Hora no mesmo Bat-Canal

Talvez por causa desse ambígua ênfase em Gêmeos, no interior das histórias, que marcou o primeiro contato do povo americano com o Cavaleiro das Trevas, abriram-se brechas para que os roteiristas descaracterizassem Batman por completo durante os anos 60. Já que ele tinha dupla personalidade, por que não inventar outras?
Já na primeira década, para amenizar o aspecto aterrorizante de Batman, surgiu o menino Robin, acompanhado de roteiros fracos, mais próximos da ficção científica, e, para tirar a arma assassina das mãos de Batman, surgiram em seu lugar as conhecidas e generosas doações beneficentes de Bruce Wayne, o que indicava o acelerar de seu processo civilizatório, sem falar das cores brilhantes que apagaram as negras roupas de Batman.
Mas os anos 60 foram muito piores. Com a série televisiva que estreou no dia 12 de junho de 1966, com o Sol em Gêmeos, portanto, alcançando 49,5 % de audiência, começou o massacre e o recalque da personalidade plutoniana de Batman. A começar por suas roupas, que eram verdadeiras sungas sobre collants, sem falar que seu cérebro funcionava ao som de TOC! SOC! POOM! Infantilizaram tanto o personagem de Bob Kane que, num episódio, Batman pára de combater o crime por um dia porque estava com dor de garganta e poderia “ferir cidadãos inocentes” com sua moléstia. Sem falar da aparição de inimigos como Cabeça-de-Ovo e Rei Tut que nunca existiram nos quadrinhos. (nota do blogueiro – e sem falar também dos corpos “sarados” de Adam West e Burt Ward. Gorditos em suas roupas justíssimas. Mas com todos os defeitos e erros e sacanagens da série clássica dos anos 60, ela divertiu muitas das minhas tardes em suas reapresentações vespertinas. Para moleques como eu, era a única forma de ver os heróis das revistas se mexendo e agindo, e os SOC, POW, TUM eram música para fanáticos. Para entender como era bom ver os heróis se movendo os mais velhos – como eu – vão se lembrar dos desenhos da Marvel em que as figuras eram recortadas das revistas e filmadas, agindo sem movimento nenhum!!)
Depois disso, nos anos 70, Batman entra em decadência, renascendo apenas em 1986 com as características que Bob Kane havia-lhe dado, quando Frank Miller lança O Retorno do Cavaleiro das Trevas. (nota do blogueiro – também não sei de onde ele tirou esse nome. A série – fantástica, clássica, absolutamente genial e eterna criação de Frank Miller - se chama “O Cavaleiro das Trevas” e não tem nenhum Retorno em seu título; a não ser que ele se refira ao primeiro volume da série que se chamava “O retorno do Morcego”)
[11] MOYA, A. Shazam!, p. 72.
O eterno retorno do reprimido
Mas por que a alma americana descaracterizou Batman e não o Superman? Porque toda vez Batman precisa ser revisto, senão será deturpado nas mãos dos roteiristas? No filme Batman e Robin já dá para ver uma certa descaracterização do personagem, fazendo dele um bom moço, gentil, mais próximo da beleza de Libra do que das entranhas de Escorpião. Por que os Estados Unidos recalcam Batman?
Os Estados Unidos escondem de si mesmo e do mundo sua irracionalidade, o seu desejo de matar, assim como uma relação afetiva mais madura com a sexualidade. Quem viu o filme A Outra História Americana, com Edward Norton no papel principal, sabe do que eu estou falando.
Qual é o país que tem serial killers com jeito de Coringa? Que vende cosméticos ao mundo todo para maquiar a passagem do tempo e esquecer a finitude? Que incentiva qualquer psicologia voltada à adaptação do comportamento e rejeita as psicologias do inconsciente? Os Estados Unidos odeiam o signo de Escorpião.
A imagem que os Estados Unidos transmitem ao mundo é a mensagem que provém de seu Ascendente Sagitário, o Super-Homem.
Esse Ascendente faz com que o país se mostre como grande e otimista. Prosperidade é um valor sagitariano, assim como a cultura (não há indústria maior que a cultural nos Estados Unidos), como também gestos grandes e generosos (muitas vezes colonizadores, diga-se de passagem). Lá as universidades (instituição de Sagitário) têm poder de opinião. A mania por quebras de recordes também é uma tara desse país com Ascendente Sagitário e que inventou o Guiness Book. Essa é uma nação que faz do pragmatismo sua ética, rejeitando qualquer impulso do Irracional, da Besta do Apocalipse, isto é, Escorpião.
E Batman vem de encontro a tudo isso. Batman não é um santo. Ele provoca fragilidades na alma americana com sua história de família destruída, como tantas durante o trânsito de Plutão por Câncer. Família é um tema muito caro ao americano, que tem Sol em Câncer, signo dos ancestrais, sentimentos de apego e laços familiares que nos ligam ao berço da nossa história pessoal. Câncer é o signo de uma esmagadora possessividade maternal (isso é um pleonasmo). Imagine se Câncer simpatiza com essa coisa que mete medo chamado Escorpião. Afinal de contas, ele lembra todo o tempo que devemos largar o que já não está conosco, mas que insistimos em segurar.
Em poucas palavras, os Estados Unidos evitam Escorpião porque morrem de medo.
Com o trânsito de Plutão em Escorpião, os Estados Unidos começam a lidar com sua casa 12 e com tudo que escondeu embaixo do tapete. E é exatamente nesse momento de crise americana que O Retorno do Cavaleiro das Trevas (nota do blogueiro – lembrem-se, o nome não é esse. Isso vai virar mais um Caso Hera Assassina!), de Frank Miller, é lançado.
O cavaleiro negro de Frank Miller
Frank Miller, que com essa obra revolucionou toda a produção de histórias em quadrinhos para adultos, conta a história de Batman sem a moral civilizatória ou a ética do bom moço. Dá para dizer que há uma história das histórias em quadrinhos antes e depois do O Retorno do Cavaleiro das Trevas (nota sobre o nome… enfim…), desde o tipo de roteiro, seqüência de desenhos e temas tratados.
Nesta história, por exemplo, o Cavaleiro das Trevas se encontra em uma Gotham City governada pela corrupção, sujeira humana, por básicos instintos. Esta história é tão radical que, para começar, Batman tem 50 anos. Portanto, já viveu a quadratura Plutão com Plutão que adensou cada vez mais sua solidão capricorniana e o sentimento de perda de Escorpião, já que o Robin havia morrido em combate dez anos atrás - o tempo que Batman ficou em reclusão. Alfred está vivo, mas morre durante a história. Selina - a Mulher-Gato, já velha, é dona de um bordel (no decorrer da história Batman beija Selina, que havia sido fantasiada à força de Mulher Maravilha por Coringa). O Comissário Gordon, policial e amigo de Bruce, também amarga a morte de sua filha, a BatGirl, além de sua compulsória aposentadoria. Coringa está no Asilo Arkham, catatônico, desde a última aparição de Batman. Quando Batman volta, ele volta a si. É como se Miller dissesse que a existência desses criminosos estava ligada à existência de Batman. Duas-Caras faz plástica paga por Bruce Wayne, porém não resolve seu conflito interior. Durante a história, surge Robin, uma menina de 13 anos que havia ouvido falar do parceiro do antigo justiceiro. Miller achava que a roupa de Robin ficaria melhor numa menina do que num menino. (nota do blogueiro – uma das inúmeras grandes sacadas de Miller nessa obra!)
Batman volta a ser um assassino. Chega, durante o combate com o Coringa, a deixá-lo paralítico. Não respeita a instituição policial que tem ordem de prendê-lo. Chega, com sua atitude, a ir contra a instituição que o pensamento psiquiátrico representa, já que ele não acredita na possibilidade de o Coringa recuperar a sanidade, como o psiquiatra da história - um fã do Superman - sugeria.
Bruce Wayne se vê atormentado por lembranças dolorosas que o visitam sem trégua durante suas muitas noites de insônia. Gotham é atacada por uma horda de adolescentes chamada Mutantes que promovem assaltos, assassinatos e a tentativa de implantar um regime de tolerância zero à base do crime. Inclusive, o líder dos Mutantes mata o prefeito com os próprios dentes que, no desenho, se mostram pontiagudos como o de um tubarão sanguinário. (nota do blogueiro – além da espetacular morte do prefeito, na frente do comissário e dentro de uma cela do Asilo Arkham, inesquecível também a primeira luta do Batman com o líder dos mutantes, em que Batman é massacrado e quase é morto. O líder mutante não perderia por esperar…)
O Retorno do Cavaleiro das Trevas (ah, nem…) também é uma crítica à sociedade americana da Era Reagan. É importante lembrar que a Guerra Fria corria solta nesta época. Tudo era motivo para polarizar os salvadores do mundo, os Estados Unidos de um lado, e o diabo, o comunismo da União Soviética, do outro. É interessante ver na história de Miller que o único herói oficial é o Superman, digno representante do ego americano. O Homem de Aço detona bombas nucleares em testes atômicos sob ordem do governo (nota do blogueiro – erro, erro, erro. Superman não detona as bombas, ele supervisiona e é traído pelo governo que tenta matá-lo. Alguns dizem que inadvertidamente, mas o fato é que não foi Superman quem explodiu bombas.), em prol da paz mundial. Além de ser tratado por Reagan como filho bom moço e agente de colonização, Superman acaba por lutar com Batman, já que uma parte da sociedade não admite que este último faça justiça com as próprias mãos, contrariando os ideais de justiça americanos.

Veja o que Batman diz durante o combate com o Superman (nota do blogueiro: combate esse em que Batman MÓI o Superman até deixá-lo no chão. E aí depois o final surpreendente em que Miller quase nos mata de susto):
“Sangramento nasal. Muito cedo, Clark. Não caia agora. A noite é uma criança… e eu preparei tantas coisas. Temos que terminar aqui, nesta calçada imunda… onde meus pais morreram… onde posso usar a energia de toda a cidade para tostar seu cérebro. Ainda falando, Clark? Continue. Você sempre soube o que dizer… diz sim a qualquer um com distintivo… ou com uma bandeira. (…) Já passou da hora de aprender o que é ser um homem! Você traiu a todos nós, Clark. Deu a eles o poder… que devia ter sido nosso. Exatamente como seus pais ensinaram. Meus pais me ensinaram coisas diferentes. Caídos nesta rua… sangrando muito… morrendo sem razão nenhuma… eles me mostraram que o mundo só faz sentido quando você o força a fazer.”
“… O mundo só faz sentido quando você o força a fazer”. Frase tipicamente Escorpião-Capricórnio. Aliás, Escorpião detesta fraqueza, e é implacável nas suas críticas aos “menos fortes”.
O Retorno do Cavaleiro das Trevas (já conversamos sobre esse título, né?), de Frank Miller, faz ressurgir este símbolo da Morte e da sujeira humana representado pelo signo de Escorpião. É claro que Escorpião possui significados mais benéficos, porém neste caso vemos a sombra da sombra da noite. Esta história, inclusive, é o prenúncio da violência juvenil nestes últimos 15 anos nos Estados Unidos, culminando nas chacinas em colégios nos últimos anos, já com Plutão em Sagitário. Em O Retorno há a quebra da lei para se institucionalizar a barbárie nas mãos dos jovens. É uma boa leitura para entender o que está acontecendo nas megacidades.
Depois do Cavaleiro, surgiram outras histórias que resgataram as origem do Batman. Entre elas, Ano Um, dirigida por Frank Miller com adaptações das primeiras histórias do primeiro ano de Batman (nota do blogueiro – “Batman Ano Um” traz o fantástico traço de Mazzucchelli que faz até a morte ser linda!). A Piada Mortal, de Alan Moore, que conta a origem do Coringa (nota do blogueiro – não só conta a origem, como mostra a relação amor/ódio do Cavaleiro e do Palhaço. Um dos melhores finais de HQ de todos os tempos!). Durante o enredo, Batman gargalha, talvez pela primeira vez em toda a sua vida, logo após Coringa lhe contar uma piada. Veneno, Asilo Arkham, Preto e Branco, todos Um Conto de Batman, são títulos que respeitam as difíceis origens do personagem. (Nota do blogueiro – dessas últimas citadas destaco “Asilo Arkham” com sua arte soberba, seus textos selvagens e a história dessa personagem tão importante em Gotham, o Asilo. Muitos textos dessa obra foram usados por mim em peças de teatro, devidamente creditados, claro)
Batman nasceu em Gotham City
Também quero lembrar que uma sociedade ou indivíduos que não falem da Morte, daquilo que corre na veia plutônica, estão fadados a se atolar inconscientemente num mundo de vale-tudo. Valetudo é a melhor tradução de inconsciente, para os trópicos, segundo MD Magno, poeta-psicanalista brasileiro. Gotham City deve estar alinhada ao Trópico de Capricórnio. Ou de Câncer. Tanto faz. Escorpião respira, sem ser notado. Por isso é sempre bom lembrar as palavras de Batman:
“Então… algo se move oculto. Algo que aspira o ar viciado… e sibila. Planando com graça milenar… Ele se recusa a se afastar como seus irmãos. De olhos radiantes, sem alegria ou tristeza… seu hálito é quente e tem o sabor dos inimigos vencidos… o odor de coisas malditas. Com certeza, ele é o mais feroz sobrevivente… O mais puro guerreiro… Brilhando, odiando… possuindo minha pessoa… sonhando…” [12]
[12] Frank Miller, em O Retorno do Cavaleiro das Trevas, Editora Abril, São Paulo, SP, 1987, volume 1, pp.8 e 9.
Aproveitando que estamos falando em Batman, se quiser ler um texto demolidor sobre a obra prima “O Cavaleiro das Trevas” e sobre a farsa “O Cavaleiro das Trevas 2”, vá até http://www.screamyell.com.br/literatura/batman.htm no Scream & Yell, que é um puta site legal e veja o texto do Diego Fernandes sobre essas duas obras. Primoroso! O tipo de texto que dá inveja, que me dá vontade de ter escrito se eu fosse tão competente assim. Um texto profundo, abrangente e preciso em seus cortes e pancadas, com uma ou outra coisinha que eu mesmo não concordo, mas que ainda assim consegue trazer luz para o mundo dionisíaco de Frank Miller, tão bem exposto na primeira obra e tão miseravelmente degenerado e mal tratado na segunda.
Visita lá e confere. Até para quem não leu as obras (O QUÊ? VOCÊ NUNCA LEU O CAVALEIRO DAS TREVAS??? COMO ASSIM??? TÁ LOKI???) o texto é muito interessante.
Há braços!
Eduardo Mesquita, O Inimigo do rei
