Grito do Inimigo - só peço isso…
só peço isso…
…só quero que digam por aí que eu não acreditava em nada. Nem ideais, nem sonhos, nem planos de dominação mundial. Nada. Contem que até escrever a palavra “crença” me era negado, por defeito genético. Façam ser verdade que nunca quis ter fé ou confiança em nada e nem em ninguém. Que passei os 90 minutos que me concederam sem entender o que estava acontecendo, e sem me esforçar por um segundo que fosse para tentar entender. Simplesmente entediado e sendo levado por tudo que nos leva.
Divulguem que eu não tinha partido político, time de futebol, prato preferido, cor da sorte, signo, RG, nada. Nenhum sinal que acuse a minha participação nessa ópera bufa, nessa comédia de erros mal ensaiada e sem platéia. Contem em cada batizado que eu não apresentava sinal de nascença, cicatriz de operação, marca de vacina, tatuagem, buraco de piercing ou de tiro, nada.
Espalhem para todos que quiserem ouvir que nunca tive prazer com o contato humano. Afirmem com veemência que a existência humana sempre foi para mim meramente tolerável. Quando muito uma resignação medíocre e cotidiana a qual me acostumei. Contem que fingia cada sorriso, cada olhar de interesse, porque nunca quis sorrir para ninguém, nem nunca tive interesse por nenhum assunto que saísse de boca humana. Repitam à exaustão que sempre pensei ser o bicho gente uma experiência mal sucedida, um erro de laboratório, uma gloriosa cagada divina.
Lembrem a todos que nunca fiz nada, não consegui nada, não alcancei pôrra nenhuma. Mas deixem claro que não foi sob o signo da derrota que atravessei a existência, mas sim sob o sinal inegável da nulidade, do cinza, do apático, do esquecível. Porque a derrota ainda inspira piedade, comiseração, dó, e nem assim quero ser guardado. Nem por pena.
Apaguem quaisquer lembranças de fato ocorrido, momento vivido, beijo dado, porrada sofrida, qualquer coisa que se assemelhe a uma expressão de emoção humana. Deletem da memória universal qualquer coisa que possa ser distinguível, extraordinário, pois que a ordinariedade seja a última poesia.
Não deixem nenhuma foto inteira, nenhuma fita de vídeo, nenhum registro ou evidência. Permitam que eu me torne uma vaga lembrança em algum canto pouco explorado e vagamente usado da memória de um velho que todos chamam de louco, mentiroso e que inventa histórias que ninguém acredita. Deixem que me desvaneça.
Peço que tenham a educação, a decência, a generosidade, o respeito de fazer somente isso no segundo seguinte à minha morte. Nenhuma elegia, nenhuma homenagem, nenhuma placa de bronze nem flores plásticas. Nada de coroas com letras soltas, com mensagens ilegíveis, com flores mal combinadas, de gente que nunca deu um telefonema para dizer se estava vivo – não que isso realmente importasse. Tenham a gentileza de evitar discursos ou aplausos, que seja um momento discreto, apagado, nulo… de preferência com chuva fina, cheiro de terra molhada e dois coveiros. Mais ninguém.
Peço isso porque estou cansado de responsabilidades. Estou enfarado da facilidade humana de me condenar a atitudes, ações, comportamentos, gestos, reações. Me desespera como é fácil, para cada um desses que atravessam a rua na faixa de pedestres, ditar normas e regras – desde que não seja dele a obrigação de seguir e cumprir as malditas normas.
Diz o ditado que a responsabilidade, o dever, isso é, certamente, a única coisa que nunca nos livramos, pois até mesmo no leito de morte, prestes a dar o último passo, ainda dizem ao moribundo que ele deve lutar pela vida… deve!!! E depois de perdida a luta obrigatória, as lembranças. A necessidade podre de que se guardem boas coisas, que se enevoem as brigas, as desavenças, as canalhices, a putaria que possa ter sido a vida daquela criatura que teve o bom senso e a elegância de desaparecer. O finado passa então, a ter o dever de ser bom, correto, probo, honesto e cheiroso.
E pro resto da vida do resto de vivos, permanecer puro e imaculado. Sem nódoas, sem manchas amarelas, sem cantos quebrados. Morto e condenado ao esforço perpétuo de se manter virgem.
Peço aos inimigos, me deixem ser um morto. Só isso… morto! Não me amarrem comentários ao pescoço para que eu não precise seguir a eternidade me comportando. Deixem-me ser o morto torto no caixão. Aquele que não passou pela porta e precisaram colocá-lo de pé. O nariz ainda sangra, as mãos rígidas, e ele de pé, cambaleante, amparado pela parentada, passando pela porta onde seu caixão não fez curva. Me deixem ser o morto que se gargalha de prazer pela ausência. Me deixem ser um morto realizado, completo, saciado. Que tudo tenha sido feito, realizado, alcançado, e que por isso mesmo, tudo possa ser esquecido. Esquecido, portanto livre.
Não me condenem a ser um fantasma opressor que não deixa os outros seguirem em frente. O fantasma amaldiçoado que pesa nos ombros, que dá um gosto ruim nas bocas, que assombra sem aparecer à noite. Que limita…
Só quero, então, que vocês digam que eu fui um calhorda, como eu realmente sou. Não a suprema expressão, mas a mais sincera tentativa fracassada de um rematado canalha. Que eu fui um covarde, como eu realmente sou. Que fui medíocre, invejoso, fedorento, preguiçoso, careca, feio, desarrumado e bêbado. Contem nos jardins de infância que eu comia de boca aberta e arrotava até com copo de água. Não permitam que criança nenhuma no mundo queira ser como eu “quando crescer”. Publiquem em letras coloridas por todos os jornais e muros do mundo que eu fui a pior versão de um show que nunca devia ter entrado em cartaz – a humanidade. Deixem claro que isso eu acreditava: que a humanidade não devia ter acontecido, que o mundo deveria ter sido entregue aos platelmintos, às formigas cabeçudas ou mesmo às moscas de banana, qualquer coisa, menos esse troço errado que é gente. Esse tipinho idiotizado que não consegue tomar sua sopa sem jogar sal no prato ao lado. Que não consegue olhar somente para o seu umbigo sujo e inflamado. Esse bichinho que não sabe se virar sozinho, que não consegue falar o que pensa, que não consegue ser honesto com o que sente, que não faz sem esperar retorno, que não é capaz de ser o que vive cuspindo que é, nos discursos e nas salas de espera – gente. Não consegue ser gente.
Ser humano. Essa comprovação definitiva e verdadeira de que Deus não tinha a menor noção do que estava fazendo, e que Einstein estava errado; ele joga dados com o universo SIM!! E algumas vezes…. snake eyes!
Quando eu estiver morto, joguem terra por cima e vão pra festa. Qualquer festa. Se insistirem em fazer algo meramente próximo de uma reverência (porque homenagem não merecemos e não permitirei), bebam um último chopp em meu nome e me deixem em paz.
Perdoem-me somente a arrogância, e me deixem em paz. Eu tenho certeza que vou deixar vocês em paz.
Só isso que eu peço.
Eduardo Mesquita, O Inimigo do rei
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No ritmo dos bons negócios
Feira Brasil Central Music 2008, que terá entrada franca em todas as atividades, espera promover a abertura e ampliação do mercado para músicos e produtores de Goiás
O Centro Cultural Oscar Niemayer, em Goiânia, será palco, de 18 a 20 de novembro, da Feira Brasil Central Music 2008. A ação é uma iniciativa do Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae em Goiás), em parceria com o Comitê Gestor do Projeto Economia Criativa da Música (BCM) e o Centro Cultural Oscar Niemayer. A entrada é franca para todas as atividades.
Segundo Marco Antônio de Mello e Cunha, gestor do projeto e coordenador da feira, o evento terá área para a comercialização de produtos (Feira de Negócios), ambiente para Rodada de Negócios e seminário, e dois palcos para apresentações culturais e shows musicais gratuitos.
Marco Antônio explica que o objetivo da Feira Brasil Central Music é fortalecer o segmento artístico do Estado de Goiás, com ênfase no aumento da renda e ocupação no setor. “A feira deve promover a abertura e ampliação do mercado musical nacional e internacional para músicos e produtores musicais do Estado, além de estimular a profissionalização entre seus empreendedores e trabalhadores”, afirma o gestor.
Composto por 11 entidades representativas do segmento musical em Goiás, o Comitê Gestor do Projeto Economia Criativa da Música espera que o evento seja a maior feira de negócios da música no Centro-Oeste brasileiro, segundo Marco Antônio. “Organização para isso não falta”, afirma o gestor, lembrando que a presença de compradores nacionais e do exterior é um dos diferenciais da feira: “A programação é rica em atrações e produtos.”
Fonte: Agência Sebrae de Notícias (ASN Goiás)
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Um jovem de futuro…
Um famoso político brasileiro, estava a bordo de um avião, indo de São Paulo para Brasília.
Ao seu lado, notou um garoto de uns 10 anos, de óculos, com ar sério e compenetrado.
Assim que o avião decolou, o garoto abriu um livro, mas o político puxou conversa:
- Ouvi dizer que o vôo fica mais curto se a gente conversa com o passageiro ao lado. Gostaria de conversar comigo?
O garoto fechou calmamente o livro e respondeu:
- Talvez seja interessante. Que tema o Sr. gostaria de discutir?
- Ah, que tal política? Você acha que devemos reeleger o presidente ou dar uma chance a outro?
O garoto suspirou e replicou:
- Pode ser um bom tema, mas antes preciso lhe fazer uma pergunta.
- Então manda!, encorajou o Político.
- Cavalos, vacas e cabritos comem a mesma coisa, capim, grama, ervas, concorda?
- Sim, disse o político…
- No entanto, cabritos excretam bolinhas, vacas largam placas de esterco e os cavalos grandes pelotas… Qual é a razão para isto?
O político pensou por alguns instantes, mas confessou que não sabia resposta.
O garoto concluiu:
- Então como o senhor se sente qualificado para discutir quem deve governar o Brasil, se não entende de bosta nenhuma?
E durante o resto da viagem não trocaram mais uma palavra sequer…
Ah, essa juventude ainda tem futuro… rsrs
Há braços!
Eduardo Mesquita, O Inimigo do rei
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Parece que já vi esse filme antes.


Sim, Barack Hussein Obama foi eleito presidente dos Estados Unidos. O comandante do mundo livre, o homem mais poderoso do mundo, o íntegro, probo, honesto, carismático, charmoso, quase Deus Obama. Sim, porque a julgar pelas reações mundiais esse sujeito é a reinvenção da roda, guarda a cura da AIDS na agenda e está prestes e resolver TUDO de errado que existe no mundo.
Já viram esse filme antes? Um desprevilegiado (no caso dele, um negro) vence as elites, atravessa as tormentas de uma imprensa revanchista, enfrenta o status quo e se elege presidente. Já viu isso? No nosso caso foi um metalúrgico com um dedo a menos, voz rouca e um português todo particular. Me lembro do dia da posse do Lula em Brasília, a festa magnífica, o povo correndo ao lado do carro presidencial, a praça tomada por gente rindo, chorando, gritando. Tudo muito parecido com as imagens que vimos de Chicago dias atrás. As pessoas reverentes, olhando com olhos úmidos (a imagem de Jesse Jackson chorando como uma adolescente foi espantosa), uivando e se contorcendo a cada sílaba pronunciada pelo representante em carne e osso do terceiro segredo de Fátima.
Impressionante ver que “a maior democracia do mundo” (SIC) se reduziu a uma charge sem graça da nossa democratura tupiniquim de terceira, mimetizando e macaqueando o que temos de pior em nossas práticas políticas, que é esse sebastianismo irresponsável e demagogo. Claro que os eleitos em questão se valem e se aproveitam dessa onda de positividade e amor incondicional para conduzir suas propostas, mas o preço que isso cobra é altíssimo, principalmente para o processo tido como democrático.
Esperam de Obama os milagres que esperavam do molusco aqui em nosso cantinho brazuca, com o problema maior de que os milagres de Santo Obama precisam ser mundiais, envolvendo outros tantos países, culturas, crenças e riquezas. Esse é o homem que vai lidar com Afeganistão e Iraque com seus conflitos religiosos e as inúmeras franquias de sucesso na área do terrorismo. Esse é o homem que vai lidar com uma Europa ressentida e magoada, sentindo-se traída e ainda fazendo doce para os EUA. Esse é o homem que vai lidar com economias em desenvolvimento como os países do BRIC (sendo que nesse caso deveria ser CRIB, para respeitar os tamanhos e pesos) que buscam na porrada espaço no mercado de consumo americano. Esse é o homem que vai gerenciar a maior crise econômica-financeira dos tempos recentes, crise gerida e parida no país dele, o eterno fiel da balança do mercado.
E com todas essas responsabilidades fica complicado ver esse tanto de amor incondicional que ele vem recebendo do mundo inteiro, novamente o mundo passa um cheque em branco para um presidente americano confiando em seu discernimento e capacidade para enfrentar a crise. Lembram-se de outro momento como esse, em que o mundo depositou suas confianças mais calientes no olhar firme de um presidente americando e um cheque em branco de confiança lhe foi entregue? Lembrem-se de Giulianni e Bush (ou Chenney, para ser mais honesto) no fatídico onze de setembro, momento em que o mundo falou “Tá valendo, Bush, faz o que você quiser porque os caras exageraram”. E o que vimos foi uma estrondosa lambança.
Novamente o mundo se entrega a um sorriso charmoso e um tema de vitória tocado de forma lânguida, feito uma milonga de Gardel. Ô mundo besta, sêo! A se julgar pelo que já vivemos em muito breve teremos doces desilusões, desesperanças alimentadas até o momento do sujeito de capa brilhante e esvoaçante ter que provar que na verdade é muito humano. Não será triste ver o mundo novamente aprendendo que Dom Sebastião está morto pra sempre.
Há braços!
Eduardo Mesquita, O Inimigo do rei
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Ô azar danado, sêo…
Então você vai para a praia com sua família, curtir um veranito de buenas, tira fotos para nunca se esquecer daqueles momentos mágicos e toda essa pataquada sentimentalóide que nós não escapamos, e numa foto dessas dá o azar de pegar uma criatura num momento de coçada tão íntima.
Ô azar danado, sêo…
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BOICOTE!!!
Amigos e Inimigos,
Tenho percebido que a Ferrari vem errando com os pilotos brasileiros da F1.
Aconteceu muitas vezes com o Rubinho, e agora com nosso melhor piloto da atualidade, Felipe Massa.
Temos que responder a esse boicote.
Juntos vamos dar o troco a esses italianos.
Eu vou fazer a minha parte. Faça a sua também:
NÃO COMPRE MAIS VEÍCULOS DA MARCA FERRARI!!
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Grito do Inimigo - Zé do Cão
Zé do cão
Zé do cão.
José Apolinário Feitosa Batista de Jesus.
Ou Zé do cão.
Era matador, assassino profissional, pistoleiro, correu o Nordeste matando político, empresário, fazendeiro, padre, criança e qualquer um que tivesse sido encomendado para morrer. José Batista de Jesus virou Zé do cão. Não escolhia vítima nem contratante, e uma vez assumido um compromisso ele não parava por nada. Não fazia perguntas, não tinha dúvidas, não vacilava, somente seguia os passos (os últimos) dos encomendados e fazia o que tinha que fazer.
Quantas pessoas foram? Zé não sabe. Ninguém sabe. Foram muitas.
Virou lenda e os pais usavam seu nome pra espantar as crianças mal-criadas: “Obedece tua mãe, senão o Zé do cão vem pra te pegar!”
Zé do cão hoje vive no escuro. Sentado em um tamborete de vaqueiro, no canto do seu barraco na favela de Brasília Teimosa, no Recife. Não abre janela, não liga a luz, não ouve o rádio.
Zé sumiu das histórias há uns vinte anos. A policia perdeu-lhe o rastro e perdeu o interesse. Ninguém mais caçou Zé do cão, a não ser os fantasmas. Quantos fantasmas? Zé não sabe. Ninguém sabe. São muitos.
Zé vive no seu barraco e vive doente.
Sentado no seu tamborete de vaqueiro, no canto do seu barraco escuro, Zé do cão sempre tem um lenço encardido na mão esquerda e um velho 22 na mão direita. Usa o lenço pra esconder o “resolve” da outra mão. Nunca larga o 22.
A catarata come seus olhos. Quase cego de um olho e com muita dificuldade de visão no outro. Zé vive no escuro. Não liga a luz, não abre a janela e a catarata come seus olhos.
Uma convulsão que se repete come seu corpo. Em intervalos regulares, seu corpo treme com violência, seus membros crispam, seus olhos arregalam e Zé coloca a coronha do 22 na boca. Morde, com sua boca sem dentes. Morde, com suas gengivas, a coronha do 22. Parece sugar a coronha, como se buscasse algum resto de vida ou vitalidade na velha arma que findou tantas vidas. Como se na arma estivessem aprisionadas as almas dos muitos que matou. Os olhos arregalados.
A cena é triste. A coronha na boca desdentada, o corpo pequeno e magro crispado de dor sentado no tamborete de vaqueiro, os olhos sem brilho arregalados, naquele canto escuro de Brasília Teimosa.
A catarata come seus olhos. A convulsão come seu corpo. O medo come sua alma.
Zé vive com medo. Zé não larga o 22 porque está sempre pronto para um último e glorioso tiroteio. Um tiroteio que Zé sabe que não pode ganhar. Zé sabe que vai morrer.
Conta que vieram atrás dele pra um último contrato. Não sabe há quanto tempo foi, não tem memória pra isso. A pessoa lhe informou que era serviço fácil, matar e sair andando. Mas Zé já passou por isso vezes demais pra não saber que a polícia não tardaria a chegar. O contratante lhe informa que estava tudo arranjado com a polícia, que em caso de prisão ele deveria assinar no caderno amarelo para ser liberado. Que os guardas saberiam o que fazer quando ele assinasse no caderno amarelo. Que ele devia pedir para assinar seu nome no caderno amarelo. Zé fala isso com revolta, e grita nervoso “AMARELO!!!AMARELO!!!”, como se repetir a cor do caderno do arranjo lhe desse alguma satisfação ou lhe aliviasse alguma mazela.
Zé não lê nem escreve. A catarata já não deixava Zé ver nenhuma cor. Ele não poderia assinar no caderno amarelo. Zé não assinava. Zé não via amarelo.
Esboça um sorriso ao se lembrar das suas correrias pelos interiores e pelas fazendas. Comenta sobre a história de uma filha que nunca viu. Não sabe quem é ela, mas sente saudades. Saudades da filha que ele não conhece.
Zé ainda fala com alguma firmeza. Alguma coisa da velha pose do pistoleiro ainda sobrevive. Mas aí vem outra convulsão, e Zé arregala os olhos, crispa o corpo, chupa ansioso a coronha do velho 22, e a pose se vai.
Como José Batista de Jesus virou Zé do cão? Ele não conta a ninguém e ninguém sabe. Alguns dizem que ele matou toda a própria família, outros diziam que ele tinha feito um pacto ruim, com o tinhoso, o homem da cuia, o caboteiro. Mas a maioria não diz mais nada. Não se lembram de Zé do cão. Ele sumiu há muitos anos.
Zé está cercado. Ninguém se lembra dele e ele vive com medo, agarrado no seu velho 22. Zé sabe que 22 costuma “lencar”, mas é o que ele tem.
Não tem mais a pose, não tem mais o respeito, não tem mais a coragem. Só tem a catarata, as convulsões e o medo.
Zé tem muito medo.
E lá fora, os fantasmas fazem festa…
Eduardo Mesquita, O Inimigo do rei
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Tudo diferente, mas algumas coisas são as mesmas.
Sim, minha vida não é mais a mesma. Meu silêncio é sintoma disso, porque não estava conseguindo tempo para atualizar nenhuma coluna, nenhum blog, nada, e tudo por causa dos meus tubarões. Correira doida, busca frenética por grana, clientes e trabalho, então o prazer de escrever teve que esperar.
E nesse “esperar” eu pude perceber que algumas coisas mudaram mais que outras. Muita gente sabe da minha relação com o rock independente, desde os pequenos shows em botecos fuleiros de GoiâniaTown lá pelos idos de 85, os primeiros shows de bandas nacionais e o meu afastamento. Não que eu tenha me afastado, mas houve uma época de quietude e eu estava entrando na faculdade, empolgando no teatro e fui deixando de lado a coisa do rock na cidade. Na real eu nem sabia que muita coisa estava acontecendo, tamanho o distanciamento que existiu. E a principal razão nem foi o teatro, mas uma coisa mais trivial: o sexo! O rock nos anos 80 era prioritariamente frequentado por homens e mulheres feias pra diabo, sejamos honestos. Não estou dizendo que todas as mulheres que iam aos shows (todas as 08 ou 09) eram feias, mas a grande maioria delas não era nada apetecível e não dava moral pro moleque magrelo que eu era. Hummm… pensando bem agora talvez elas não fossem tão feias, eu que devia ter despeito porque nenhuma delas queria se embolar comigo. Faz mais sentido pensar assim.
Mas enfim, na faculdade e no teatro eu descobri que havia uma infinidade de pessoas querendo transar no mundo, e muitas dessas pessoas queriam - incrível! - transar comigo. Não foi difícil esquecer o resto do mundo nessa hora, porque sexo era - e ainda é - a principal razão de uma existência, na minha opinião.
Enfim, quando voltei ao rock da cidade foi pelas mãos do meu sobrinho que já vinha acompanhando o que acontecia a algum tempo. Fomos ao RockInRio, fomos a vários shows na cidade e eu fui reabrindo meus olhos. Meus inimigos também me levaram de volta, gente como o Guga Valente, que me mostrou que GoiâniaTown estava no epicentro de um sacode geral no rock independentel. E nessa eu tomei gosto de novo pela coisa, já que sexo não era um motivo de preocupação pra mim, já que eu nessa época já estava casado. E os cínicos sempre dizem que esse é um bom motivo para casamento: sexo à vontade. Bom, talvez não tão à vontade quanto imaginava minha cabeça adolescida, mas sem dúvida muito mais em quantidade e muitíssimo mais em qualidade do que eu tinha quando solteiro.
A volta pro rock foi muito bem sucedida, já que disso surgiu o SANGUE SECO. Mas o tempo passou e eu vivenciei mais uma mudança grande na vida: filho. Ou melhor, filhoS, já que eu tenho dois tubarõezinhos em casa. E aí mudou mesmo, porque fica muito difícil sair de casa à noite para ir aos rocks e deixar duas crianças em casa, o que seria crueldade ou no mínimo muita sacanagem com a mãe dos guris, minha mulher. Eles acordam, sentem fome, choram, berram, gritam, urram, alguns dias mais que outros, mas enfim as saídas noturnas escassearam muitíssimo.
E aí agora que os guris estão quase com um ano de idade (passa voando, né?) eu vejo que algo aconteceu com a minha empolgação com o rock independente. Esfriou. Ainda sinto um tesão danado em ensaiar e fazer show com a banda, escrever letras, encontrar os outros SANGUES, mas no restante das outras situações do rock, esfriou. Não sinto mais tanta vontade de ir a um show como sentia antes, pois agora prefiro ficar com uma caneca cheia de sorvete em casa, vendo TV e vigiando o sono dos infantes. E não é pela obrigação paterna, mas por prazer mesmo. E por achar que os rocks estão do mesmo jeito.
Isso se confirma quando se visita uma comunidade orkutista chamada GoiâniaRockCity. Local virtual onde se reúnem reclamões, chorões, chatos de galocha e alguns gente boa, mas muito poucos mesmo. Um lugar próspero em gente que gosta de ficar jogando pedra nas realizações dos outros e lamentar as trapalhadas próprias. Gente que tem prazer em se mostrar “crítico” quando na verdade é só ranheta.
Então algumas coisas podem ter mudado muito, e minha vida é prova disso; mas algumas outras coisas permanecem a mesmíssima trôlha. Agora em novembro teremos o Goiânia Noise Festival (que depois eu comento aqui) e já começaram as lágrimas, os rangeres de dente e as rusgas. Aparentemente algumas pessoas crescem (por mais besta que isso seja, e não digo que tenha acontecido comigo, deixo claro) e outras não, por opção ou incapacidade, não sei.
Enfim, agora que o final de ano está chegando, o mercado está mais organizado e generoso para meu trabalho, as conquistas são mais palpáveis e o tempo começa a sobrar um pouquinho, eu vou tentar voltar a escrever. Gosto disso, e por increça que parível algumas pessoas gostam de ler. Então eu persevero.
Nos vemos por aqui, pela Dynamite e algum outro lugar.
Há braços!
Eduardo Mesquita, O Inimigo do rei
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Metal Heart Festival – talvez um monte de lições

Metal Heart Festival – talvez um monte de lições
Sábado dia 12 de julho o SANGUE SECO tocou no Metal Heart Festival, no Martim Cererê, organizado pela Cerrado Produções. Um sábado cheio de atividades do rock independente, porque além do Metal Heart ainda teríamos o lançamento do Cd do Sweet Racers no Egg Music e uma festa retrô no charmoso Estúdio República. Algumas vozes se ergueram reclamando da riqueza de oportunidades e da quantidade conflitante de eventos, mas realmente eu prefiro que tenhamos esse problema de muitos eventos do que problemas de nenhum evento. Público se conquista, alguns organizadores podem pastar um pouco mais para garantir sua credibilidade e espaço, mas isso é da atividade. Então que bom que tínhamos tanta coisa legal acontecendo na cidade.
O Metal Heart ia contar com shows do Corja, Truco 6 9 12, WWoolloonnggaabbaass, Black Drawing Chalks, Perfect Violence, Goldfish Memories e Matzeva (fazendo cover de Black Sabbath), que era o que mais se aproximava de Metal na verdade.
O que de início já impressionava porque misturava um monte de estilos diferentes, bandas que não são tão “bombadas” ou “hypadas” assim e que poderiam animar uma noite exótica. Exótica a começar do clima, frio pra diabo especialmente pra um quase-quarentão que esquece de levar uma jaqueta ou coisa mais quente que um lenço pra gripe. Se eu não tivesse ganhado a camiseta do InBleeding, generosamente presenteada pelo meu irmão Allan Paulino, certamente teria morrido de hipotermia. Também coopera para essa sensação térmica desajustada minha gripe teimosa que não me larga e um cansaço crônico de uma semana que foi intensa de viagens, treinamentos e atividades radicais amalucadas como rapel, travessia de rio, arvorismo, túneis e trilhas de pedra. Eu estava um bagaço.
Fui para o Cererê mais tarde, por volta das 21 horas, por causa das minhas atividades de pai de gêmeos. Realmente seria impossível sair de casa mais cedo e deixar meus dois tubarões colocando fogo na casa e endoidando a mãe, então atrasei o máximo minha saída para chegar mais ou menos na hora de tocar. Estávamos agendados para as 22 horas. Claro que eu imaginava um atraso, normal nesses eventos.
Cheguei às 21 horas e a segunda banda estava tocando, assisti a última música e voltei para o frio da noite. Interessante que não vi nenhuma pessoa fazendo a direção de palco, e a banda estava totalmente livre, tocando sem pressão nem encheção de saco para interromper o show ou coisa parecida. Pode parecer pelo comentário que eu acho que a direção de palco é um peso ou uma cruz a se carregar, mas não é bem assim. Festivais que tem várias bandas (todos né?) precisam ter um cuidado com o horário realmente, para evitar que as últimas bandas toquem para a manhã nascente e para alguns gatos pingados e bêbados. Mas algumas vezes isso é um saco, como quando abrimos o show do Tequila Baby. As primeiras bandas tocaram o tempo que quiseram, chamaram amigos para o palco, aproveitaram bastante, e na hora que subimos para tocar nossa meia hora, só nos permitiram 10 minutos. Um dos Sangues ficou putíssimo com a situação e até o baixista do TB comentou que tinha sido sacanagem conosco. Vida que vai…
Sem direção de palco achei que o troço ia degringolar, mas aí veio a primeira lição da noite: rolou certinho. As bandas parecem que se organizaram, mas sem conversas ou combinações e ninguém estourou o tempo do outro. Todo mundo tocou na hora certa, sem correria, o set inteiro e ninguém estressou. Incrível! Ou seja, é possível que as bandas se respeitem, façam o que pretendem fazer e tudo corra bem. Nesse ponto eu preciso reconhecer as bandas que tocaram antes do Sangue Seco porque nos entregaram o palco com um atraso mínimo e sem nenhum stress. Como fizemos com os próximos. Isso foi a primeira lição da noite.
Depois subiu a Truco 6 9 12, que eu ainda não conhecia. A primeira vista achei aquele negócio de tocar de chapéu de palha bem palha mesmo, mas não comprometeu porque o som dos caras é bom demais. Gostei muito da banda. Tudo bem que começar o show com covers é sempre um risco grande demais, mas eles não se prejudicaram consideravelmente por isso. Eu sempre quis fazer uma música com o nome da nossa banda, que virasse um hino tipo “Iron Maiden” é um hino nos shows dos ingleses, mas sempre fico com medo da música ficar fraca, uma bosta mesmo e eu ter que carregar essa cruz. Pois os caras do Truco6912 fizeram uma música com o nome da banda, e é a melhor música deles! Eu só achei que repetir o refrão 6865 vezes foi meio demais, mas a música é ótima e muito disso se deve ao magrelo guitarrista que é infernal em seu instrumento. Algumas vezes parecia AC/DC naqueles riffs infernais, e eu apreciei bastante o som. “Teletubbies” tem uma letra daquelas que tenta ser engraçada falando palavrão, que eu acho um saco, mas a grande sacada é a repetição de uma frase várias vezes (“Agora eu vou dormir gostoso”) como acontecia no programa da Tv. Legal! Aí eles cometem uma música que começa sertaneja, modona, e vira rock. A parte sertaneja é desastrosa, mas rock os caras sabem fazer e salvam a composição. Gostei muito dessa banda de nome regional e triste. É, não gosto do nome, mas dane-se! Não preciso gostar do nome mesmo e isso não muda nada pra banda.
Depois foi a vez do Perfect Violence, cada vez mais violento mesmo. Nanderff é o símbolo maior dessa banda, um baterista preciso, violento e impressionante no seu carisma, algo não muito comum em gente que se esconde atrás dos pratos no fundo do palco. O som dos caras é muito bom, mesmo eu não sendo expert nessas coisas mais modernosas, ao menos para um dino-punker-preguiçoso como eu. Agora uma coisa eu sempre soube e só confirmo a cada dia: vocalista que fala demais em show, acaba falando merda. E tem umas coisas que não precisa, mas teve gente elogiando os discursos do Pavel, então tem gente que gosta. Eu acho bobo.
Eu até agora não encontrei o organizador do festival, devo admitir. Conversamos por emails e scraps e não conheci o doido lá na noite do show, mas tudo correu bem. Fizemos nosso show, o som estava massa (Torreal, do Cicuta, ficou impressionado com a qualidade do som!) e nos divertimos muito. O público é realmente o que existe de melhor nessa cidade, cantando junto, pulando o tempo todo, rodas insanas com moleques de cueca e tudo isso empolga a banda, claro (hum, isso soou mal; “meninos de cueca empolgam a banda”. Explicar agora só vai piorar. Melhor fingir que não disse isso e torcer pelos corações pacíficos desse mundo para vencerem a batalha contra o mal e a maledicência.). Fizemos o set inteiro que havíamos planejado e “forante” alguns deslizes nossos típicos, o show foi super legal.
Eu vi muitos comentários de gente falando que o festival estava vazio, e não concordo. Não sei nada sobre números da bilheteria realmente, não tenho idéia dos dados financeiros e se os organizadores empataram o investimento ou tomaram a famosa ré, mas não achei vazio. Temos o hábito de comparar com festivais que lotam o Cererê como foi o Rock Solidário ou os Bananadas da vida, mas isso não é o padrão em lugar nenhum do mundo. O Metal Heart teve agora sua primeira edição, não tinha nenhuma banda estourada, nem nenhuma mega atração de fora do estado, então para essa realidade teve um público bem legal. Falo porque quando tocamos o teatro estava bem cheio, não lotado, mas bem cheio. O suficiente para empolgar a banda, e isso é o que conta, a interação entre as bandas que tocam e o público. O diabo é que o Cererê é grande do lado de fora dos teatros, principalmente se aquela área dos banheiros está liberada, o povo esparrama demais para tudo quanto é lado e dá a impressão de estar vazio. Eu já vi um show vazio no Cererê quando o MQN e Walverdes tocaram no Libertadores del Sur, tocando pra umas quinze pessoas no teatro. Dá desânimo realmente. E curioso que no dia que tocamos, abrindo o show para o Matanza, o Cererê tava duro de gente. Não tão curioso, era o Matanza, mega-sucesso em GoiâniaTown.
Então para shows pequenos ou médios, o Cererê tem a estrutura perfeita nos teatros, mas no ambiente externo é muito grande, muito espaço e dá a sensação de vazião. Esse é um ponto forte do Capim Pub, por exemplo, porque o ambiente limitado dá a sensação de muita gente sempre, e até os bocós que gostam de ficar na porta dos shows sem entrar, sem prestigiar as bandas e os organizadores, até mesmo essas antas dão uma impressão de lugar lotado ao Capim, porque a rua é estreita. Pode parecer besteira, mas acaba sendo importante quando orienta os comentários posteriores ao evento, e no caso do Metal Heart eu acredito que o público foi legal, principalmente considerando as outras atividades disponíveis na noite de sábado e o puta frio que estava fazendo. Com relação à relação entre tamanho do ambiente e estrutura para shows, temos agora o Projeto 777 do Danilo Tattoo, Vitor Yglo e Fal Vocêsabequemé; que promete um local bem bacanudo pra essas iniciativas. Pode ser a alternativa necessária para termos vários eventos na cidade e todos com avaliação de boa quantidade de público.
As bandas que tocaram na Egg são bandas de guris cheios de amigos e influentes na “cena”, portanto levaram muito público que seria do Metal Heart, e muita gente que depende de ônibus ou de andar para ir para os lugares desanima ao sair no frio. Melhor comprar um vinho e beber debaixo da coberta, de preferência embolado nas pernas de uma bela morena, e nessa hora quem quer saber de ir assistir um monte de barulhentos no palco? Talvez bons amigos, como o Allan, talvez mulheres amadas e amantíssimas, talvez gente que realmente goste dessas bandas, mas muita gente deve ter desanimado com tanta coisa interferindo. Sem falar que estamos em julho, e muitos roqueiros já devem estar rebeldes nas praias do Araguaia ou na fazenda da vovó.
O evento foi legal, merece continuidade e a organização não cometeu nenhum grande desastre. O patrocínio de uma marca de cerveja que não é muito apreciada gerou reclamações, mas acho que o frio atrapalhou mais o consumo da cerveja que o apurado gosto refinado dos roqueiros da cidade. O som estava muito bom, as bandas foram bem legais e o público foi diversificado e animado. Resumo da ópera? Parabéns aos envolvidos e muito grato aos organizadores.
Legal perceber que mesmo sem querer, tem gente que nos ensina tantas coisas.
Eduardo Mesquita, O Inimigo do rei
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Batman – escorpião com ascendente em capricórnio. Coincidência?

Batman – escorpião com ascendente em capricórnio. Coincidência?
O título desse post faz uma referência vaidosa e nada humilde (conceitos idênticos, claro) à uma coincidência: eu sou escorpião com ascendente em capricórnio. E fiquei muito feliz em descobrir essa semelhança com meu herói de HQ favorito. Eu leio histórias em quadrinhos desde os meus três anos de idade, se me lembro bem (porque a memória por vezes romanceia o passado) eu comecei a ler com histórias do Batman, as antigas publicações da Ebal e da RGE em formatinho. Então desde guri muito novo eu sempre fui fanático colecionador de revistas, e Batman sempre foi o meu favorito porque era agressivo.
Simples assim. Os outros heróis davam porradas, batiam, quebravam uns aos outros e aos vilões, mas eram homens bons, de bom coração e desejosos de justiça. Batman não era bom, era ruim como veneno e o que movia essa criatura negra, espessa e soturna não era justiça (apesar do que muitos bocós ainda acreditam), mas vingança. Um sentimento muito mais puro e direto que o elaborado e superior senso de justiça. Vingança e ódio, revolta, fúria, e eu me identificava (e identifico ainda hoje) muito mais com essas sensações primitivas, então nada mais natural que eu ter muito mais interesse por esse ser de sombras do que por um kriptoniano colorido ou um amigo da vizinhança escalador de paredes.
Então nessa sanha de batmaníaco eu fui juntando milhares de revistas, pôsteres, filmes, troços os mais variados (como o chaveiro que hoje segura as chaves do meu carro) e lendo tudo que caía nas mãos se referindo ao cavaleiro das trevas. Pois hoje fuçando no orkut (coisa que faço cada vez menos) eu encontrei um post falando de um texto sobre Batman e signos do zodíaco. Claro que dado o perfil da comunidade em que encontrei o texto, a pessoa que postou o link (Larissa, não a conheço) foi devidamente zoada e escrachada e o assunto logo tomou outro rumo falando da vida de uma pessoa ou suas preferências, coisa muito normal e comum de acontecer nessa comunidade.
Mas eu fui ler o texto e gostei. Gostei tanto que trouxe pra cá. Não sou aficcionado por zodíaco, não entendo muito, mas sou um legítimo escorpião curioso e por ter curiosidade me interessei pelo texto e fui gostando mais ainda quando surgiam as semelhanças entre o cruzado das sombras e euzão aqui. A coincidência entre signo e ascendente fez um sorrisão brotar, porque infantilmente me senti o próprio Batman.
Claro que isso não é muito certo (mentalmente falando, claro) num sujeito de quase quarenta anos, mas o garoto fascinado pelas aventuras em Gotham City ainda pulsa brutal em mim e não pude negar minha fascinação em perceber que traços tão doces da personalidade do herói gothamita como a paranóia, a obsessão, a crueldade, a vingança, são traços também comuns à minha pessoa, atenuados por uma dose de civilidade e outra de convivência social. E pelo texto muito disso se deve aos nossos traços zodiacais.
Além disso tudo o texto é interessante por si só, realmente. Traz um monte de informações sobre a origem e história de Batman, o que já vale a leitura. Algumas incorreções no texto foram devidamente corrigidas por mim, já que não poderia deixar alguém achando que foi o Coringa que matou os pais de Bruce Wayne e outras coisas assim. Errinhos, dado o tamanho e abrangência do texto. Também retirei alguns trechos muito “zodiacais” porque eu não entendi lhufas sobre cabeça de dragão e andanças em casas solares, e imagino que o leitor usual desse blog também não saiba nada disso, mas quem se interessar o texto integral do João Acuio está no Constelar no http://www.constelar.com.br/revista/edicao81/batman1.php e vale a visita para quem gosta do assunto. Para facilitar algumas “correções” do texto eu os coloquei em negrito para melhor compreensão.
Segue o texto, divirtam-se! Eu me diverti bastante.

O Cavaleiro das Trevas do Zodíaco
João Acuio
Batman, o Cavaleiro das Trevas, corporifica algumas facetas sombrias que a sociedade americana não gosta muito de encarar. Não foi o primeiro, mas inegavelmente tornou-se o mais conhecido e carismático dos heróis no estilo dark. Neste artigo João Acuio desce às profundezas da bat-caverna e desvenda a dimensão mais plutoniana
de Gotham City.
Gênese num beco sem saída
- Marginais… vocês sugaram a vida de Gotham City, na alma! Essa festa durou tempo demais. Basta! De agora em diante farei parte de seus pesadelos. A lei ganhou um nome… o meu nome! Batman! Lembre-se dele quando cometer um crime…
Com essas palavras, Batman fez sua primeira aparição nos Estados Unidos às vésperas da Segunda Grande Guerra, sob o céu de 18 de maio de 1939.
Criado pelo desenhista de quadrinhos Bob Kane, a Detective Comics precisava de um super-herói que fosse a antítese de Superman, que havia sido lançado um ano antes e fazia muito sucesso. Inspirado em Zorro, em histórias de detetive e no genial Leonardo da Vinci, Bob Kane dá à luz ao Batman - O Cavaleiro das Trevas. Um vigilante feito de sombras, atormentado por suas lembranças e com faro de quem conhece a dor de uma perda.
NOTA SOBRE ESTE ARTIGO
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Em 1999 Fernando Fernandes, Carlos Hollanda e João Acuio dividiram entre si a tarefa de produzir um ebook com a análise astrológica dos mais conhecidos super-heróis dos quadrinhos. Fernando ficou com o Superman, Hollanda com o Fantasma e João Acuio com o Batman. O trabalho saiu na série Constelar Infolivros, em 1999. Mais tarde, João retirou seu artigo da série para concorrer com ele a um concurso promovido pela escola Espaço do Céu, do Rio. João saiu vencedor e o texto, na época, foi divulgado em Porto do Céu. Em 2002, Acuio incluiu o artigo em seu livro Céu em Transe. Agora, seis anos depois, o texto retorna a seu lugar de origem.
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O ebook de 1999 acabou se transformando no curso de Astroletiva Compreensão Astrológica do Mito do Herói, onde a análise astrológica de alguns personagens serve como ponto de partida para a investigação das motivações comportamentais da sociedade contemporânea. Para substituir o estudo sobre Batman, João Acuio produziu um novo artigo sobre o Homem-Aranha, enquanto Carlos Hollanda acrescentou uma inédita análise dos mitos por trás do Senhor dos Anéis.
Bob Kane, com a ajuda do roteirista Bill Finger [1], deu ao personagem uma origem mais próxima da morte e do apocalipse do que da vida. Quem leu a Dectetive Comics n° 27 ou viu o primeiro filme da série Batman, com Michael Keaton no papel principal (nota do blogueiro – um dos piores filmes da história do cinema, no que se refere à desrespeito a um personagem. Os outros que seguiram também foram desastrosos, sendo que finalmente um filme decente e de altíssima qualidade foi feito em “Batman Begins”), sabe que Bruce Wayne (o homem que veste a roupa de Batman), presenciou aos oito anos o assassinato de seus pais à saída do cinema em que foram ver A Marca do Zorro. Com o passar do tempo, a lembrança do crime ronda as suas não raras noites de insônia. Aos 30 anos, já vivido o Retorno de Saturno [2], com profundo conhecimento de artes marciais e literatura policial, além de deter tecnologia de ponta, converte-se num implacável vingador vestido de morcego, que atormentará a alma dos criminosos de Gotham City. Para você ter uma idéia de quanto ele é vingativo, Batman mata já na primeira história. Batman era um assassino no seu primeiro ano de vida.
Com a inteligência dos argumentos de Bill Finger e desenhos de Bob Kane, Batman torna-se, com o passar dos anos, o avesso do Superman. Enquanto o Super-Homem é um herói solar, que protege todo o planeta assim como velhinhas indefesas que perderam seus gatos, o Homem-Morcego é um justiceiro noturno. Apenas mais um numa cidade suja pelo crime. Super-Homem tem superpoderes, tais como visão de raio-x, velocidade ultrassônica, além de voar. Já Batman usa seu próprio corpo como arma de combate, sem falar de seu cinto de utilidades, que lhe dá recursos para combater o crime com instrumentos. Muitas vezes eles não funcionam, deixando-o literalmente na mão. Ele é falível, portanto. Superman tem os aplausos e o reconhecimento da opinião pública, Batman é um ser solitário e em algumas histórias é criticado por fazer justiça com as próprias mãos. No entanto, há uma diferença fundamental entre os dois: enquanto o eterno jovem Super-Homem é imortal, Batman é de carne e osso. Gotham City, além de circos e parques de diversão, também tem cemitério.
É importante lembrar que, no início, o Homem-Morcego era um personagem solitário. O jovem Robin, o menino-prodígio, aparecerá somente em abril de 1940, para atenuar as características sombrias de Batman e assim ganhar o público infanto-juvenil que acompanhava as tiras de quadrinhos nos jornais. Contrariando a idéia original, Batman passa a ter humor. E a ter que se relacionar. Nos anos seguintes, até 1950, surgirão os outros personagens que vivem em Gotham: Duas-Caras, Pingüim, Charada, Coringa, Mulher-Gato, Alfred [3] etc. Enquanto Batman vai sendo civilizado, renunciando a matar e a usar armas de fogo e se dedicando à beneficência com o nome de Bruce, seus arqui-inimigos vão nascendo e se assemelhando muito a origem do Homem-Morcego, isto é, com caras e bocas que expressam mentes doentias até à psicopatia.
Nos anos 60, durante a série televisiva, Batman entra em crise de identidade de vez, sendo descaracterizado por seus roteiristas até cair no ridículo. Mas essa história eu conto daqui a pouco. Vamos primeiro definir o signo do Batman.
[1] Bill Finger trabalhou com Bob Kane desde a origem do Batman. Foi ele quem delineou os aspectos sombrios do Homem-Morcego. Praticamente criou Coringa, além de ter assinado o argumento das histórias em que surgiram pela primeira vez Robin, Pingüim, Mulher-Gato e Duas-Caras. Infelizmente, não foi possível conseguir seus dados de nascimento para análise.
[2] Saturno é o Senhor do Tempo. Carrega em seus ensinamentos o crescimento através da dor. Disciplina, perseverança, pedras no meio do caminho são suas marcas pessoais. O Retorno de Saturno consiste na conclusão da andança de Saturno por todas as casas astrológicas e signos que tem início ao nascermos e que se conclui a cada 28 ou 29 anos, quando o Senhor do Karma retona ao seu lugar de origem no mapa.
[3] Coringa - março/abril de 1940; Pingüim - dezembro de 1941; Duas Caras - agosto de 1942; Alfred - abril de 1943; Charada - outubro de 1948.
O signo do Batman

Se você pensou em Escorpião, guarde segredo. É isso mesmo.
Batman tem qualidades que associamos a Escorpião. Absurda perspicácia, poder de concentração, hábitos noturnos, tormentos, são algumas de suas características mais fortes. Batman já foi considerado o maior detetive do mundo. Morcego tem hábitos noturnos. E todo mundo sabe que Escorpião vive no submundo do mundo cultuando sua obsessão pela morte. Lembre-se que, nas melhores histórias, Bruce/Batman sempre tem pesadelos com a morte dos pais. Aliás, o lugar onde o casal Wayne morreu, conhecido como Beco do Crime (nota do blogueiro – Beco do Crime é o nome que depois ficou conhecido o local da morte dos Wayne, pois anteriormente chamava-se Park Row, sendo lugar nobre em Gotham. O assassinato dos Wayne iniciou o processo de decadência do local e consequentemente o aumento da corrupção na polícia gothamita), dizem os bêbados, é habitado por fantasmas de órfãos mirins, criminosos e muita raiva descontrolada. Os batmaníacos juram que, no aniversário de morte dos pais de Bruce, Batman faz plantão nesse beco, espancando e capturando criminosos.
Em outras palavras: Batman, assim como Escorpião, é um signo da noite, que vive no submundo, guardando um segredo. Neste caso, sua identidade e seu passado. Com um faro infalível, como o de um detetive de romance policial noir, Batman enxerga no escuro e o que acontece nas entrelinhas. É conhecida a capacidade de percepção do escorpiano para o que é tramado por baixo do pano. Aliás, é por isso que o associam à manipulação e à paranóia. A boca do povo diz que Escorpião é vingativo, muito por lidar em linha direta com a raiva que mata ou envenena, principalmente a si mesmo.
Se Escorpião tem tendência à paranóia, nem precisa dizer que a desconfiança é uma marca deste signo. E diga aí: Batman confia em alguém? Somente no Batmóvel e no virginiano Alfred, o mordomo que prepara sua comida e cobre sua retaguarda na Batcaverna quando o Homem-Morcego sai à caça.

Capa da primeira edição do Batman.
Morte e renascimento até o juízo final
O renascimento também é uma marca de Escorpião. E é o que ocorre em vários enredos das histórias de Batman, que o conduzem até o fundo do poço, para depois fazê-lo renascer das cinzas. Nada mais Escorpião. Aliás, o escorpiano tem vocação para escavar histórias perdidas, carregadas de veneno letal.
Escorpião lida sempre com sentimentos e situações-limite. Ou, se você preferir, com aquilo que se chama crise. O lado destrutivo da vida. Signo que passa a vida toda lutando, tentando fazer do veneno que empedra seu coração algo construtivo.
Batman é assim: vive com o que há de mais negro e louco em Gotham City. Volta e meia ele leva o ariano Coringa, ou o Gêmeos-Libra Duas-Caras, ou o gelado aquariano Homem-Gelo para o Asilo Arkham, o hospital psiquiátrico de Gotham. Apesar da genuína compaixão, o Cavaleiro das Trevas, no íntimo, não acredita muito na recuperação de seus inimigos. Como ele se conhece e é um Escorpião convicto, sabe que a destrutividade pulsa dentro de cada ser. O taurino Freud, com Ascendente Escorpião, desenvolveu o conceito de pulsão de morte, criado pela psiquiatra russa Sabina Spielrein [4], para essa realidade.
Outra característica hiper hiper escorpiana é a possibilidade de concentração nas horas mais difíceis. Escorpião concentra toda sua alma quando se sente encurralado. Como Batman se sente sempre nessa situação, acaba sendo silencioso como a morte, preferindo antes observar do que falar.
Se você ainda tem dúvidas quanto à ênfase no signo de Escorpião, veja só as primeiras palavras de Batman em Batman vs. Aliens, de Ron Marz e Bernie Wrightson, lançado em 98 no Brasil pela Mythos Editora:
- As noites de minha vida são gastas lutando com psicóticos. Criminosos, cujas mentes são tão deformadas quanto suas experiências externas… Eu acreditava ter visto a face do horror. Hoje eu descobri que não. (…) Os eventos se repetem em minha mente… Todos eles. O início…
Ou, em Um Conto de Batman: Gangues, de Steven Grant e Shawn McManus, lançado pela editora Abril Jovem, em ano impreciso:
-Gotham à noite fervilha com violência. Eu sinto a infecção se espalhar, dos becos mais imundos do centro até o mais tranqüilo quarto nos bairros elegantes. Ela é transmitida pelo orgulho, pela ganância, pelas razões mais insensatas, até irromper como uma chaga purulenta.
Eu quero parar a epidemia, curar minha cidade. Mas também estou infectado. Eu luto contra minha própria violência, contra o ódio que me impulsiona. Eu controlo a fúria, soltando-a quando é preciso e só na dose necessária.
[4] Quem ler o livro Um Método Muito Perigoso, de Jonh Kerr, Editora Imago, poderá acompanhar os primeiros anos da psicanálise, a relação de Sabina Spielrein com Jung e Freud e o quanto essa relação influenciou as obras dos dois gênios.
Batman é pai, não é padrasto







