Grito do Inimigo - Zé do Cão
Zé do cão
Zé do cão.
José Apolinário Feitosa Batista de Jesus.
Ou Zé do cão.
Era matador, assassino profissional, pistoleiro, correu o Nordeste matando político, empresário, fazendeiro, padre, criança e qualquer um que tivesse sido encomendado para morrer. José Batista de Jesus virou Zé do cão. Não escolhia vítima nem contratante, e uma vez assumido um compromisso ele não parava por nada. Não fazia perguntas, não tinha dúvidas, não vacilava, somente seguia os passos (os últimos) dos encomendados e fazia o que tinha que fazer.
Quantas pessoas foram? Zé não sabe. Ninguém sabe. Foram muitas.
Virou lenda e os pais usavam seu nome pra espantar as crianças mal-criadas: “Obedece tua mãe, senão o Zé do cão vem pra te pegar!”
Zé do cão hoje vive no escuro. Sentado em um tamborete de vaqueiro, no canto do seu barraco na favela de Brasília Teimosa, no Recife. Não abre janela, não liga a luz, não ouve o rádio.
Zé sumiu das histórias há uns vinte anos. A policia perdeu-lhe o rastro e perdeu o interesse. Ninguém mais caçou Zé do cão, a não ser os fantasmas. Quantos fantasmas? Zé não sabe. Ninguém sabe. São muitos.
Zé vive no seu barraco e vive doente.
Sentado no seu tamborete de vaqueiro, no canto do seu barraco escuro, Zé do cão sempre tem um lenço encardido na mão esquerda e um velho 22 na mão direita. Usa o lenço pra esconder o “resolve” da outra mão. Nunca larga o 22.
A catarata come seus olhos. Quase cego de um olho e com muita dificuldade de visão no outro. Zé vive no escuro. Não liga a luz, não abre a janela e a catarata come seus olhos.
Uma convulsão que se repete come seu corpo. Em intervalos regulares, seu corpo treme com violência, seus membros crispam, seus olhos arregalam e Zé coloca a coronha do 22 na boca. Morde, com sua boca sem dentes. Morde, com suas gengivas, a coronha do 22. Parece sugar a coronha, como se buscasse algum resto de vida ou vitalidade na velha arma que findou tantas vidas. Como se na arma estivessem aprisionadas as almas dos muitos que matou. Os olhos arregalados.
A cena é triste. A coronha na boca desdentada, o corpo pequeno e magro crispado de dor sentado no tamborete de vaqueiro, os olhos sem brilho arregalados, naquele canto escuro de Brasília Teimosa.
A catarata come seus olhos. A convulsão come seu corpo. O medo come sua alma.
Zé vive com medo. Zé não larga o 22 porque está sempre pronto para um último e glorioso tiroteio. Um tiroteio que Zé sabe que não pode ganhar. Zé sabe que vai morrer.
Conta que vieram atrás dele pra um último contrato. Não sabe há quanto tempo foi, não tem memória pra isso. A pessoa lhe informou que era serviço fácil, matar e sair andando. Mas Zé já passou por isso vezes demais pra não saber que a polícia não tardaria a chegar. O contratante lhe informa que estava tudo arranjado com a polícia, que em caso de prisão ele deveria assinar no caderno amarelo para ser liberado. Que os guardas saberiam o que fazer quando ele assinasse no caderno amarelo. Que ele devia pedir para assinar seu nome no caderno amarelo. Zé fala isso com revolta, e grita nervoso “AMARELO!!!AMARELO!!!”, como se repetir a cor do caderno do arranjo lhe desse alguma satisfação ou lhe aliviasse alguma mazela.
Zé não lê nem escreve. A catarata já não deixava Zé ver nenhuma cor. Ele não poderia assinar no caderno amarelo. Zé não assinava. Zé não via amarelo.
Esboça um sorriso ao se lembrar das suas correrias pelos interiores e pelas fazendas. Comenta sobre a história de uma filha que nunca viu. Não sabe quem é ela, mas sente saudades. Saudades da filha que ele não conhece.
Zé ainda fala com alguma firmeza. Alguma coisa da velha pose do pistoleiro ainda sobrevive. Mas aí vem outra convulsão, e Zé arregala os olhos, crispa o corpo, chupa ansioso a coronha do velho 22, e a pose se vai.
Como José Batista de Jesus virou Zé do cão? Ele não conta a ninguém e ninguém sabe. Alguns dizem que ele matou toda a própria família, outros diziam que ele tinha feito um pacto ruim, com o tinhoso, o homem da cuia, o caboteiro. Mas a maioria não diz mais nada. Não se lembram de Zé do cão. Ele sumiu há muitos anos.
Zé está cercado. Ninguém se lembra dele e ele vive com medo, agarrado no seu velho 22. Zé sabe que 22 costuma “lencar”, mas é o que ele tem.
Não tem mais a pose, não tem mais o respeito, não tem mais a coragem. Só tem a catarata, as convulsões e o medo.
Zé tem muito medo.
E lá fora, os fantasmas fazem festa…
Eduardo Mesquita, O Inimigo do rei
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