Tudo diferente, mas algumas coisas são as mesmas.

Sim, minha vida não é mais a mesma. Meu silêncio é sintoma disso, porque não estava conseguindo tempo para atualizar nenhuma coluna, nenhum blog, nada, e tudo por causa dos meus tubarões. Correira doida, busca frenética por grana, clientes e trabalho, então o prazer de escrever teve que esperar.

E nesse “esperar” eu pude perceber que algumas coisas mudaram mais que outras. Muita gente sabe da minha relação com o rock independente, desde os pequenos shows em botecos fuleiros de GoiâniaTown lá pelos idos de 85, os primeiros shows de bandas nacionais e o meu afastamento. Não que eu tenha me afastado, mas houve uma época de quietude e eu estava entrando na faculdade, empolgando no teatro e fui deixando de lado a coisa do rock na cidade. Na real eu nem sabia que muita coisa estava acontecendo, tamanho o distanciamento que existiu. E a principal razão nem foi o teatro, mas uma coisa mais trivial: o sexo! O rock nos anos 80 era prioritariamente frequentado por homens e mulheres feias pra diabo, sejamos honestos. Não estou dizendo que todas as mulheres que iam aos shows (todas as 08 ou 09) eram feias, mas a grande maioria delas não era nada apetecível e não dava moral pro moleque magrelo que eu era. Hummm… pensando bem agora talvez elas não fossem tão feias, eu que devia ter despeito porque nenhuma delas queria se embolar comigo. Faz mais sentido pensar assim.

Mas enfim, na faculdade e no teatro eu descobri que havia uma infinidade de pessoas querendo transar no mundo, e muitas dessas pessoas queriam - incrível! - transar comigo. Não foi difícil esquecer o resto do mundo nessa hora, porque sexo era - e ainda é - a principal razão de uma existência, na minha opinião.

Enfim, quando voltei ao rock da cidade foi pelas mãos do meu sobrinho que já vinha acompanhando o que acontecia a algum tempo. Fomos ao RockInRio, fomos a vários shows na cidade e eu fui reabrindo meus olhos. Meus inimigos também me levaram de volta, gente como o Guga Valente, que me mostrou que GoiâniaTown estava no epicentro de um sacode geral no rock independentel. E nessa eu tomei gosto de novo pela coisa, já que sexo não era um motivo de preocupação pra mim, já que eu nessa época já estava casado. E os cínicos sempre dizem que esse é um bom motivo para casamento: sexo à vontade. Bom, talvez não tão à vontade quanto imaginava minha cabeça adolescida, mas sem dúvida muito mais em quantidade e muitíssimo mais em qualidade do que eu tinha quando solteiro.

A volta pro rock foi muito bem sucedida, já que disso surgiu o SANGUE SECO. Mas o tempo passou e eu vivenciei mais uma mudança grande na vida: filho. Ou melhor, filhoS, já que eu tenho dois tubarõezinhos em casa. E aí mudou mesmo, porque fica muito difícil sair de casa à noite para ir aos rocks e deixar duas crianças em casa, o que seria crueldade ou no mínimo muita sacanagem com a mãe dos guris, minha mulher. Eles acordam, sentem fome, choram, berram, gritam, urram, alguns dias mais que outros, mas enfim as saídas noturnas escassearam muitíssimo.

E aí agora que os guris estão quase com um ano de idade (passa voando, né?) eu vejo que algo aconteceu com a minha empolgação com o rock independente. Esfriou. Ainda sinto um tesão danado em ensaiar e fazer show com a banda, escrever letras, encontrar os outros SANGUES, mas no restante das outras situações do rock, esfriou. Não sinto mais tanta vontade de ir a um show como sentia antes, pois agora prefiro ficar com uma caneca cheia de sorvete em casa, vendo TV e vigiando o sono dos infantes. E não é pela obrigação paterna, mas por prazer mesmo. E por achar que os rocks estão do mesmo jeito.

Isso se confirma quando se visita uma comunidade orkutista chamada GoiâniaRockCity. Local virtual onde se reúnem reclamões, chorões, chatos de galocha e alguns gente boa, mas muito poucos mesmo. Um lugar próspero em gente que gosta de ficar jogando pedra nas realizações dos outros e lamentar as trapalhadas próprias. Gente que tem prazer em se mostrar “crítico” quando na verdade é só ranheta.

Então algumas coisas podem ter mudado muito, e minha vida é prova disso; mas algumas outras coisas permanecem a mesmíssima trôlha. Agora em novembro teremos o Goiânia Noise Festival (que depois eu comento aqui) e já começaram as lágrimas, os rangeres de dente e as rusgas. Aparentemente algumas pessoas crescem (por mais besta que isso seja, e não digo que tenha acontecido comigo, deixo claro) e outras não, por opção ou incapacidade, não sei.

Enfim, agora que o final de ano está chegando, o mercado está mais organizado e generoso para meu trabalho, as conquistas são mais palpáveis e o tempo começa a sobrar um pouquinho, eu vou tentar voltar a escrever. Gosto disso, e por increça que parível algumas pessoas gostam de ler. Então eu persevero.

Nos vemos por aqui, pela Dynamite e algum outro lugar.

 

Há braços!

Eduardo Mesquita, O Inimigo do rei

eduardoinimigo@gmail.com

 

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