Parece que já vi esse filme antes.

Sim, Barack Hussein Obama foi eleito presidente dos Estados Unidos. O comandante do mundo livre, o homem mais poderoso do mundo, o íntegro, probo, honesto, carismático, charmoso, quase Deus Obama. Sim, porque a julgar pelas reações mundiais esse sujeito é a reinvenção da roda, guarda a cura da AIDS na agenda e está prestes e resolver TUDO de errado que existe no mundo.

Já viram esse filme antes? Um desprevilegiado (no caso dele, um negro) vence as elites, atravessa as tormentas de uma imprensa revanchista, enfrenta o status quo e se elege presidente. Já viu isso? No nosso caso foi um metalúrgico com um dedo a menos, voz rouca e um português todo particular. Me lembro do dia da posse do Lula em Brasília, a festa magnífica, o povo correndo ao lado do carro presidencial, a praça tomada por gente rindo, chorando, gritando. Tudo muito parecido com as imagens que vimos de Chicago dias atrás. As pessoas reverentes, olhando com olhos úmidos (a imagem de Jesse Jackson chorando como uma adolescente foi espantosa), uivando e se contorcendo a cada sílaba pronunciada pelo representante em carne e osso do terceiro segredo de Fátima.

Impressionante ver que “a maior democracia do mundo” (SIC) se reduziu a uma charge sem graça da nossa democratura tupiniquim de terceira, mimetizando e macaqueando o que temos de pior em nossas práticas políticas, que é esse sebastianismo irresponsável e demagogo. Claro que os eleitos em questão se valem e se aproveitam dessa onda de positividade e amor incondicional para conduzir suas propostas, mas o preço que isso cobra é altíssimo, principalmente para o processo tido como democrático.

Esperam de Obama os milagres que esperavam do molusco aqui em nosso cantinho brazuca, com o problema maior de que os milagres de Santo Obama precisam ser mundiais, envolvendo outros tantos países, culturas, crenças e riquezas. Esse é o homem que vai lidar com Afeganistão e Iraque com seus conflitos religiosos e as inúmeras franquias de sucesso na área do terrorismo. Esse é o homem que vai lidar com uma Europa ressentida e magoada, sentindo-se traída e ainda fazendo doce para os EUA. Esse é o homem que vai lidar com economias em desenvolvimento como os países do BRIC (sendo que nesse caso deveria ser CRIB, para respeitar os tamanhos e pesos) que buscam na porrada espaço no mercado de consumo americano. Esse é o homem que vai gerenciar a maior crise econômica-financeira dos tempos recentes, crise gerida e parida no país dele, o eterno fiel da balança do mercado.

E com todas essas responsabilidades fica complicado ver esse tanto de amor incondicional que ele vem recebendo do mundo inteiro, novamente o mundo passa um cheque em branco para um presidente americano confiando em seu discernimento e capacidade para enfrentar a crise. Lembram-se de outro momento como esse, em que o mundo depositou suas confianças mais calientes no olhar firme de um presidente americando e um cheque em branco de confiança lhe foi entregue? Lembrem-se de Giulianni e Bush (ou Chenney, para ser mais honesto) no fatídico onze de setembro, momento em que o mundo falou “Tá valendo, Bush, faz o que você quiser porque os caras exageraram”. E o que vimos foi uma estrondosa lambança.

Novamente o mundo se entrega a um sorriso charmoso e um tema de vitória tocado de forma lânguida, feito uma milonga de Gardel. Ô mundo besta, sêo! A se julgar pelo que já vivemos em muito breve teremos doces desilusões, desesperanças alimentadas até o momento do sujeito de capa brilhante e esvoaçante ter que provar que na verdade é muito humano. Não será triste ver o mundo novamente aprendendo que Dom Sebastião está morto pra sempre.

 

Há braços!

 

Eduardo Mesquita, O Inimigo do rei

eduardoinimigo@gmail.com

 

Comments

One Response to “Parece que já vi esse filme antes.”

  1. admin on Novembro 10th, 2008 12:11

    Obama, me lembra mais o Collor do que o Lula… Bem ou mal, o Lula não era um ilustre desconhecido quando foi eleito… Mas vamos ver o que acontece…

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