As bandas e os festivais independentes - por Anderson Foca
Anderson Foca é o sujeito da foto. Cara de mau, jeitão de assassino de aluguel, quando se conhece a criatura se percebe o menino bom que ele é, e apaixonadíssimo, o que sempre complementa um currículo com nobreza. Mesmo sendo um sujeito feio com cara ruim poder devotar amor a alguém mostra sua humanidade e sensibilidade. Mas enfim, o lance é que o sujeito é o agitador das coisas lá em Natal, com o DoSol bar, o festival DoSol e as bandas todas que ele toca (umas 26 ou 27 na última contagem), como por exemplo a fantástica The Sinks (www.myspace.com/rocksinks).
Estando sentado esquizofrenicamente dos dois lados da mesa, Foca fala como produtor mas com a moral de membro de banda, e a porrada vai no miolo do tronco da orelha de gente que acha que shows e reconhecimento caem do céu. Pois o que cai do céu é só água e avião, e isso tem caído muito pros lados do nordeste (sem piadas agora). Então leiam o texto do cara, aprendam e vamos crescer. Tá todo mundo precisando disso.

(Foto: Mukeka di Rato ao vivo no DoSol 2008)
As bandas e os festivais independentes
Por Anderson Foca (Natal – RN)
Voltamos com nosso editorial do Portal Dosol para discutir um assunto polêmico e que dá muito “pano para manga” sempre que mencionado: a relação entre as bandas independentes e os festivais.
Num ano de crise como o que estamos passando, tem ficado cada vez mais evidente qual é o papel de um festival indie e das bandas que deles participam, até porque é fato de que sem bandas não tem festival. Falo isso com muita propriedade e com muita kilometragem no assunto, afinal jogo dos dois lados: como banda e como produtor de um festival indie. Além de promover 6 edições do Festival Dosol e mais umas 20 edições de festivais menores ainda rodei o Brasil visitando cenas e compartilhando experiências tanto tocando como no público. Sei bem do que vou falar.
A primeira coisa que tem que ser desmistificada é que bandas independentes invariavelmente pagam para tocar em festivais. Isso é preguiça de quem não quer fazer sua parte dentro da roda que move o rock alternativo e adjacências. Existem diversos festivais que dão ajuda de custo volumosa (pelo menos metade deles) para as bandas chegarem na região do show. Cabe a banda potencializar essa ajuda com tours, outros shows, merchadising e coisas do tipo.
Na Europa isso é muito mais corriqueiro que aqui. Por lá uma pequena banda que toca no palco 3 do Glastonbury por exemplo tem a mesma (ou se não menor) ajuda do que as bandas nacionais por aqui. A diferença é que lá essas bandas estão em tours extensas, passando vários meses na estrada e montando um mapa viável para se divulgar. Como 99% das bandas nacionais são bandas “de fim-de-semana” a coisa complica. Só que é mais fácil culpar o vizinho pelo mal cheiro, do que olhar a própria privada.
Quando um festival é de pequeno ou médio porte e não pode pagar para sua banda chegar no local do show, lembre-se que existem uma dezena de outros custos para a sua participação acontecer. Fiz uma conta rápida e básica para ver quanto uma banda (de quatro pessoas) custa para um festival sem contar com ajuda de custo para chegar no mesmo:
Alimentação: 100,00
Hospedagem: 200,00
Translado: 150,00
Despesa no show (camarim, bebida): 60,00
Só nesses itens a brincadeira já dá mais de R$500,00 e não estamos nem colocando o investimento de marketing do festival para promover a banda, dentre outros itens mais difíceis de calcular. A maioria dos grupos que reclama, não consegue fazer R$500,00 de bilheteria nem dentro de casa. Imaginem fora.
É preciso ter a noção de que festivais independentes também se pagam do bolso para acontecer. Não tenho os dados, mas aposto minha mão direita como mais da metade dos festivais da ABRAFIN, por exemplo, foram deficitários em 2008 (mesmo com patrocínios em alguns casos). Nem por isso deixarão de ser realizados em 2009. Um investimento pesado e que não está sendo levado em consideração na hora de uma análise mais fria. Então chegamos a conclusão que todo mundo investe para que o rock possa acontecer, certo?
Claro, existem festivais que estão pseudo-interessados na “cena” da sua cidade e da sua região e mesmo com verbas volumosas captadas terminam sem ajudar em nada (ou em quase nada) os artistas independentes, o que é uma grande sacanagem. O pior é saber que boa parte dessa verba que poderia ajudar e muito vinte grupos indies as vezes vai para um medalhão do mainstream que nada tem haver como o mercado que trabalhamos e representamos. Um investimento furado e que não gera nada de bom pro nosso mercado. Agora uma coisa é certa: se você é banda e aceita essa condição (e as vezes vale a pena aceitar) é porque concorda com ela. Depois não adianta chorar.
Uma distorção que tem acontecido muito é tratar um festival de música independente como se ele fosse um potencial contratante de bandas, quando na verdade um evento com essas características é uma plataforma para que as bandas busquem mercado dentro das cidades. Em alguns casos, de bandas médias já consagradas e com um bom público dentro do mercado, podemos até considerar os festivais como contratantes mas essa realidade só se aplica a 1% do universo de bandas existentes no Brasil. Uma exceção que justifica a regra.
Uma coisa é certa, banda tem que ter música boa, tem que ter um network, ser empreendedora dentro da sua região, ter tempo para o projeto, estar envolvida com a cena local em todos o sentidos e ter noção de como as coisas funcionam. Se não for desse jeito o projeto não sai do canto e aí você vai ter que escolher entre relaxar e trata-la com um grande hobby sem pretensões ou virar um chorão de blogs ou orkut .
Vamos ao trabalho!
falou muito, irmão!!
Há braços!
Eduardo Mesquita, O Inimigo do rei
Compare Preços de: MP3, iPod, celulares, notebooks, câmeras no JáCotei.
Comments
2 Responses to “As bandas e os festivais independentes - por Anderson Foca”
Leave a Reply

valeu man!
Cara falo tudo nas claras, a real de tudo, ainda bem que existem pessoas que mostram que festival não é facil e fazer festas pra banda independentes também não !!!.
Fábio Pereira
Timbre Rock Festival