Gente que rala é que constrói o ROCK

 

technicolor

Depois do texto do Foca (logo abaixo) muita gente se posicionou, soltou a voz, falou verdades, e bom perceber que ninguém entrou na prosa de provocação gratuita. Todo mundo quer contribuir, como bem falou o Guilherme Batata, tem muita gente preocupada e levando a sério o rock independente.

Essa semana tivemos outras provas disso aqui na terrinha pequizeira. Na quinta-feira o Technicolor lançou seu primeiro Cd e fez uma festa bonita no Bolshoi. Para apimentar o tempero trouxeram os papa-chibés do Madame Saatan. E aí a gente começa a ver que tem gente que se dedica a essa maluquice de rock independente com seriedade, mas principalmente com paixão.

E não vou falar sobre o Cd ou o lançamento que o Technicolor fez. Eu não fiquei no Bolshoi pra ver a festa toda, passei por lá rapidamente e fui embora pra cama. Não vou falar sobre a banda, até hoje não entendi o som deles, acho complicado, elaborado ou erudito, tem flauta, tem violino agora, tem Rafaela, tem muita referência que não entra na minha cabeça dura, então não vou ser petulante de falar do que não sei (pelo menos uma vez na vida. Hehe). Sei que o Juarez mostrou ser artista de verdade com o trabalho que fez no cd (imagem que abre o post), que ficou um troço lindo de escangalhar. Meu vínculo mais próximo com a banda é minha amizade com o pai da vocalista Sara, o grande Danilo Alencar, um dos melhores diretores teatrais que já tive a honra de ver trabalhar. Aprendi muito com ele. Mas não vou falar disso.

madame

Não, de tudo isso eu quero falar do Madame Saatan. Os paraenses vivem hoje em São Paulo, não vivem nababescamente lá na Casaverde porque roqueiro tem mais é que se fuder mesmo, mas é uma banda que já consegue viver da sua arte, sendo respeitada e valorizada. Participações em programas televisivos, shows em boas casas, cachês (nem tão generosos assim, mas vamos lá…) e mais um monte de referências bem dadas por todo mundo que já teve a sorte de se atropelado por essa patada de rock pesado com suingue e charme.

Com tudo isso a banda ainda se mostra de uma simplicidade bacanuda. Encararam doze horas de estrada pra chegar aqui e tocar no lançamento do Technicolor, mal dormiram e já abriram rota na estrada montados novamente num baúzão rumo as terras paulistas. E fizeram isso tudo rindo. Esquecendo coisas pra trás, mas sem esquecer da rosca de rodoviária, mostraram que tem a insanidade necessária nos olhos e o pique indispensável pra batalha.

Em meio à pré-produção do segundo Cd, o Madame Saatan percebeu que vir à GoiâniaTown valia mais que o cachê. Valia a parceria com uma banda que eles respeitam e valorizam (o Technicolor, claro), valia a parceria com um selo ralador como a Fósqui e um sujeito gente-fina (mas que não sabe explicar endereço), Mr. João Lucas. Parece brodagem o que os paraenses fizeram? Parece, e muitas vezes é. Mas acima de tudo uma coisa precisa ser destacada: cansados, viajados, rodados, com muitos planos pela frente e na mente, e ainda assim vieram e fizeram um show com toda a competência que têm, que é bastante. Não fizeram show meia boca por não ser um esquema que desse grana, não fizeram de qualquer jeito por ter amigos envolvidos. Os caras (e a cara) vieram e moeram a cabeça de quem estava na frente. Bem ao estilo lutador de Muay Thay que eles agora seguem. E esse é um exemplo.

ressonancia

Quer outro? O Ressonância Mórfica. Os caras estão em turnê pelo país (na foto um cartaz da tour) e conseguiram isso graças aos contatos (parece brodagem de novo?) e ao puta trabalho bem feito. Disse isso uma vez no orkut e digo de novo: os contatos podem te abrir as portas para um primeiro show em outra cidade, mas se o show for lixento, se as músicas forem ruins, se a banda só quiser encher a cara e ficar de chapação, esse não vai ser o primeiro show, vai ser o único. Os amigos abrem as portas, mas a competência segura ela aberta. E isso o Ressonância é possuidor com honras.

Tive uma prosa virtual com o Marcos Campos, popular Marcão, vocalista do Ressonância, e ele conta que o esquema é puxado, mas recompensador. Isso porque mesmo com características próprias, em todas as cidades eles viveram uma situação comum: foram muito bem recebidos. Público presente, shows tensos e intensos e os caras já rodaram mais de um mês por estradas que nem sempre merecem esse nome. No dia que conversamos eles iam tocar em Teresina, capital suarenta do Piauí, no Bueiro do Rock, que segundo Marcão é um “puta lugar” pra se tocar. Sabia do Bueiro do Rock em Teresina? Pois é, nem eu. E no dia seguinte tocariam em Parnaíba.

Vai até o Google Maps e procure Parnaíba e Teresina. Uma praticamente ao lado da outra, é pertinho, mas aí surgem os percalços de quem está no rock. As enchentes que vem acontecendo no nordeste, com maior intensidade no Piauí e no Maranhão, levaram a ponte que eles deveriam atravessar. Problema? Cara, entende uma coisa; depois que passaram a usar a palavra “desafio” não existe mais “problema” pra quem se vira. O povo da produção ia levar os sujeitos pra Sobral, no Ceará e de lá pegar um “atalho” (palavras do Marcão. Atalho! Pensa!) pra Parnaíba.

Parece difícil, eu sei, e é difícil. Os caras estão num ritmo de tocar feito doidos em praticamente todas as noites, quando não estão sacolejando o costado e machucando os rins cruzando os estados. E ainda tem sujeito que reclama que não recebe água quando vai tocar! O Ressonância, seguindo a escola ramônica, vem ganhando alguma grana vendendo material durante esses shows, e nas sábias palavras do Marcão “é uma mistura de dificuldade, superação, saudade, loucura, determinação, ação, reação e afins”.

Guilherme Batata, baixista do Technicolor me contou sobre uma excursão que fizeram ao sul do país, tocando todas as noites e viajando numa van que parecia transporte de gado escolar. Canseira né? Mas graças a essa porradaria vivida, Batata credita que a banda melhorou demais, cresceu e se uniu muito mais depois da bronca. Nem sempre tocando em bom equipamento, nem sempre dormindo bem (o sujeito queria dormir em pé, de tão ruim eram os bancos da van), mas acreditando que aquilo fazia parte de um processo maior de crescimento da proposta.

tatoo

Meu último exemplo é o Danilo, que está organizando o V Tatoo Rock Fest, que acontece no próximo fim de semana aqui em Goiânia (5, 6 e 7 de Junho, cartaz aí na foto). O sujeito já provou pro mundo que é bom organizador de eventos (o show do Sangue Seco no Rock Solidário é um dos que não esquecemos nem embriagados), fez uma escalação poderozza pro festival e ainda tem gente enchendo o saco porque ele não revela qual será o show de encerramento do festival. Parece difícil? É difícil.

E só reforça o que foi dito no primeiro parágrafo, temos muita gente levando a sério o trampo e buscando fazer do rock independente um lugar de resultados. Por mais que isso soe neoliberal e marketeiro (como meus detratores gostam de me rotular), isso não é nada mais que vida real e verdade.

Sucesso aos que continuam na luta. À eles ergo meu caneco e puxo um brinde: Bebamos aos guerreiros incansáveis, aos amigos ausentes, namoradas secretas e à estação das Brumas. E que cada um dê ao diabo aquilo que ele merece (quem lê HQ conhece um brinde muito parecido com esse)!

Agora chega de papo, vamos trabalhar!!

 

 

 

Há braços!

 

 

Eduardo Mesquita, O Inimigo do rei

eduardoinimigo@gmail.com

 

 

Compare Preços de: DVD, MP3, LCD, Plasma, HDTV, Home Theater no JáCotei.

Comments

One Response to “Gente que rala é que constrói o ROCK”

  1. Juarez Rodrigues on Maio 30th, 2009 13:40

    Um bom texto, Eduardo, que relata umas verdades que às vezes são ignoradas por muita gente ao pensar sobre o cenário independênte. É realmente preciso muita ralação pra conseguir espaços mínimos. Mas creio (e espero) que todas as bandas que conseguem fazer um trabalho responsa, possam ter seu trabalho reconhecido por aí. E aqui também, se for o caso de Goiânia.

    Você tem um CD nosso? Se não tiver, algum dia eu topo com você e te ofereço um. Você pode até nem aceitar, mas se aceitar, pode ver que nosso som nem é tão complicado assim! Hehehehe. Quem sabe seja uma experiência legal escutar algo que você não tenha muita familiaridade (como se você já não fizesse isto ao entrar em teatros para ver shows que você nunca viu). Mas escuta tudo de uma vez só: pode ser que seja melhor por entender de qual que é a nossa!

    Mais uma vez: gostei bastante do texto. O post do Foca também foi legal. Tem coisa que tem que ser dita mesmo pra umas ilusões serem desmistificadas.

    Até mais!

    P.S. Obrigado pelo “artista de verdade”. Eu fico meio sem graça com elogios… mas obrigado. Foi um trabalho muito prazeroso e difícil, mas realmente espero que eu tenha que fazer mais uns 10 cds da banda.

Leave a Reply