Shakemakers - o rock continua vivo.
SHAKEMAKERS – simples.
Anos 70.
Talvez você não estivesse por aqui nessa época, mas deixa eu te contar como era o mundo. Não existia celular, Playstation, MP3, sequer inFernet nós tínhamos. As televisões tinham quatro ou cinco canais, e muitas não tinham cores ainda. No Brasil vivíamos um tempo de escuridão política, pessoas sumindo, morrendo, violência sendo mascarada com circo e pão. No mundo (que era longe pra diabo) vivíamos um tempo de sexo permissivo, contestações sociais, movimentos esquizóides niilistas andando ao lado de grupos cheios de flores no cabelo. O mundo convulsionava.
Sabe a única coisa que fazia sentido nesse tempo? Rock´n Roll.
Também era um tempo em que não existiam tantos rótulos. Não existia Power metal, HC novaiorquino, grunge, psy-trance nem emo. Existia rock.
Parece um mundo simples, não é mesmo? E era.
“Eu não me esqueci de te ligar. Eu só não quis.”
Simples, não? Sem firulas, sem frescuras, sem voltejos e rodeios. O Rock é bom quando é direto, cru, selvagem, cínico e da cintura pra baixo. Rock divertido, atrevido, de óculos Rayban e blusão de couro. Rock de guitarra, baixo, bateria e voz rasgada. O rock que era feito nos anos 70 e que marcou e criou tantas gerações.
“Todo mundo quer andar contigo, cara esperto cercado de amigos”
A idéia de montar uma banda de rock sempre foi diversão. Juntar os desajustados que não eram chamados para jogar bola e fazer algo que aterrorizasse a vizinhança e seduzisse as púberes peitudinhas da sala ao lado. Ousado, safado, mas também inocente, terno e carinhoso, como os bons homens são.
“O nosso amor é tão grande, que vai além do jardim”
Então um dia quatro caras se uniram com um conceito: fazer rock bom. Simples, né? E dessa simplicidade básica, objetiva e direta surgiu o SHAKEMAKERS do Brasil. A musicalidade visceral e eviscerante dos anos 70, os recursos do século XXI e décadas de informação musical e de vida (já não são garotos) pariram esse coquetel de rebolado com porrada. Usando as leituras e releituras com inteligência e malícia, eles não fazem som datado, reciclado ou caricatural. SHAKEMAKERS bebe das melhores fontes, processa, digere, difere e apresenta uma banda que aponta pro futuro, pra frente, pro meio dos seus olhos. A provocação é autêntica, a atualidade é legítima, aqui não existem bocas de sino ou faixas na cabeça, somente as bocas abertas da platéia e a paixão pelo barulho bem feito.
“Eu não quero nem saber pra onde você vai”
“Rock´n Roll é bom pra mim!” é o nome do CD. De novo, simples demais. Não existem teorias que explicam, não existem elaborações teóricas, masturbações intelectuais, existe sim o pedido claro para acelerar nessa estrada enquanto as beldades negras uivam maliciosamente na sua orelha. Acelere, não ouse parar.
A indecente combinação de solos criativos e atrevidos de baixo, uma guitarra precisa e preciosa dedilhada com fúria e apuro, a bateria magnética e suingada nos momentos certos e uma voz que se agiganta na frente dessa tropa de simplicidade setentista. Ouvir SHAKEMAKERS é pedir para pegar a estrada e subir os giros do motor, vê-los no palco é festa. A massa sonora que parece se avolumar a cada apresentação empurra a platéia para trás, que resiste e só consegue se aproximar do palco requebrando e pulando, e a festa está instalada.
A capa charmosa do Cd mostra quatro super-heróis beats nobremente escudados pela marca Allegro (símbolo de cuidado e elegância). A musicalidade, a velocidade, os cabelos ao vento e o golpe no queixo que deixa claro uma verdade: Shakemakers voa como uma borboleta e ferroa como uma abelha.
“Você se entregou e isso é problema teu, ontem a noite até que foi bom pra mim”
Abrir esse Cd, colocar pra rodar e ouvir cada faixa com um sorriso nos lábios é uma cópula entre amantes, cheia de suor e desejo, aonde não cabem mentiras nem desculpas, já que só se encontram quando se tesam e se querem. Simples de novo.
Em outra banda poderia parecer atrevimento, mas quando SHAKEMAKERS emoldura a versão do hino anti-racista de Dylan, com rimas brasucas, com um vocalista negro, com atitude, dentes à mostra, raiva e energia, só podemos pensar uma coisa: cara, é isso! SHAKEMAKERS tocar “Hurricane” é simples. Natural até.
Hoje o mundo parece um lugar complicado, com guerras religiosas, epidemias mundiais, doenças incuráveis e grandes crises financeiras. Mas não se engane, o mundo ainda é um lugar simples. Ouvir SHAKEMAKERS deixa isso claro. Um mundo onde as pessoas se amam, um mundo onde os excessos ensinam, um mundo onde as liberdades são valiosas, um mundo onde as grandes vozes precisam ser ouvidas. The Animals, MC5, Thin Lizzy e T-Rex teriam orgulho desses caras.
“Eu tô voltando pra casa ferido!
Eu tô voltando pra casa sangrando!
Eu tô ferido… mas eu não fui vencido!”
Sabe quem diz isso? O rock.
SHAKEMAKERS é o porta-voz do rock. Rock que ao longo dos últimos tempos foi mal tratado, vilipendiado, explorado, humilhado. Rock que tentaram rebaixar, diminuir, esvaziar, mas que não abaixou a cabeça, que não perdeu sua dignidade e continua a sacudir os quadris e as mentes.
O Rock está ferido, sangrando, mas não foi vencido.
Ele está no Cd do SHAKEMAKERS “Rock´n roll é bom pra mim!”, da Allegro Discos.
Simples, não?
Há braços!
Eduardo Mesquita, O Inimigo do rei
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