XV Goiânia Noise – no Capim Pub foi 100%

Posted: 26th novembro 2009 by eduardo in cena rock

xv-goiania1XV Goiânia Noise – Capim

 

O céu em pressentimento já torna-se escuro e silencioso!”.

A frase de Renzo Novatore que se tornou célebre através de Hakim Bey no seu livro “TAZ – Zonas Autônomas Temporárias” soava perfeita para a noite de quarta-feira. Chuva, vento, baixas temperaturas e pressão atmosférica exótica, tudo completando o cenário para a primeira noite de shows do XV Goiânia Noise. E não só isso, mas também a sensação de que viveríamos uma experiência, uma TAZ realmente, se me permitem a pretensão ou ingenuidade. Pretensão e ingenuidade porque realmente não acredito mais que um show de rock possa mudar o mundo, mas é inevitável acreditar no poder que atitudes cotidianamente repetidas como as dessa noite possam fazer grandes diferenças. E nesse sentido vivemos uma zona autônoma temporária, ao melhor sabor dos anos 80.

Haveria Hermeto Pascoal no teatro do Colégio Santo Agostinho com toda sua criatividade, inventividade, brasilidade e sonoridades complexas em seus improvisos infinitos, mas eu preferi ir para a podreira e desconstrução já conhecidas do nosso cantinho confortável do inferno: o Capim Pub. Uma reunião de bandas de altíssimo calibre me soava muito mais adequada à noite esfumenta que se anunciava para aquela quarta-feira, e munido desse sentimento migrei por ruas brumosas para a “casa do Afonsim”, ou melhor seria dizer “a casa do underground”?

Vesti um moleton preto com patrocínio no peito, me senti estranhamente confortável naquela indumentária, e depois entenderia porque. Ao chegar no Capim já tomei uma bronca, por me sentir um iluminado fui estacionando meu veículo numa vaga generosa e sorridente logo ao lado da porta do Capim Pub. Marlos Hiroshi, o japonês mais goiano da história me alertou para remover minha propriedade financiada dali. Achei um abuso, tinha direito como qualquer outro de parar ali, mas a explicação me convenceu: “Aí é a casa da vizinha que interrompe os shows, não vamos estacionar aqui não para não criar caso”. Certíssimo e lá fui eu procurar outra vaga, ainda existiam várias.

E me lembrei das Cassandras de orkut que vaticinaram que um show no Capim na quarta-feira havia sido feito pelos monstros para queimar a casa e destruir o sonho idealista udi-grudi. Isso porque diziam que não haveria mais que dez pessoas e isso seria uma desmoralização geral. A chuva ajudava a alimentar esse medo, mas ao abrir os portões e eu atravessar a pequena rampa homicida da entrada do Capim, meus temores poucos se dissiparam. A casa já estava cheia.

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Infelizmente cheguei no fim do show do Señores e vi só um pedaço da última música. Noise tem disso, não atrasa. Ao entrar encontro um monte de gente já pingando suor e com sorrisos enormes na cara, a banda desce feliz do palco e eu sinto que alguma coisa já estava indo muito bem. Certeza que ali havia mais que dez pessoas, muito mais. O Capim não é um lugar enorme, mas já se enchia com várias dezenas de viventes pingando suor.

Ressonância Mórfica sobe ao palco, a temperatura na casa já é alta e durante o show dos Ressonantes Mórficos eu entendo porque a sensação de conforto dentro do meu moleton da Heineken (Não, Gustavo, eu não vou te vender minha peita da Heineken! Desiste!). Aquela energia ali do Capim, aquele tanto de gente conhecida, aquela molecada suarenta e pulando pelas paredes e eu de moleton preto, me lembrei do meu segundo grau. Eu tinha um moleton preto que usava diariamente, fizesse cinco ou quarenta graus de temperatura, para esconder a camisa do uniforme e para usar roupa preta. Eu adolescia, lembrem-se. E as pessoas ficavam admiradas de um sujeito usar moleton preto no calor, as mesmas perguntas que escutei no ambiente abafado do Capim. O que poucos entendem é que a roupa grossa não aumenta a temperatura infinitamente, a um certo momento ela mantém a temperatura uniforme, e isso é extremamente confortável. Sim, eu me sentia um guri no meu moletom preto, mas não só por isso, também pela ambiência de “bando de amigos juntos” que ali reinava.

Marlos e Leo Bigode estavam apreensivos no começo, mas rapidamente foram ficando à vontade, vendo que tudo corria bem, que o astral era magnífico e que todo mundo estava curtindo adoidado aquela noite. As notícias contam que no Santo Agostinho a casa estava lotada, tudo ia bem.

Enquanto o Ressonância mói cérebros passa “Laranja Mecânica” do Kubrick na televisão ao meu lado. Sabe aquela história do “Dark side of the moon” do Pink Floyd com o filme do Mágico de Oz? Se não sabe, procure saber, porque tive a mesma sensação. Ressonância Mórfica encaixava perfeitamente na ultraviolenta cena de estupro e espancamento do filme na tela. Eu sequer conseguia olhar para o palco, só deixando a música orientar os sentidos. As pessoas não param de chegar no Capim, a casa vai se enchendo de uma forma insana. E com Ressonância no palco! Consegue vislumbrar a ameaça de hecatombe que se avizinhava? Ressonância no Capim Pub com a casa cheiona daquele jeito é como colocar dois pitbulls raivosos brigando dentro do armário do banheiro. Totonho é erguido no ar, arremessado nas paredes, no teto, recuperam o corpo e esfregam por todos os cantos da sala do palco, recolhem o vivente e o atiram na parede. Tudo combina. A Monstro vai precisar pagar novas cartelas de ovo para a casa, algumas não agüentam a pressão ou os passos do Totonho pelo teto.

A roda é mortal, os corpos são atirados aos equipamentos de som, óculos voam pelo ambiente e essa é só a segunda banda da noite. Na tela Alex  transa com duas mulheres em altíssima velocidade. Tudo perfeito, e eu tenho 17 anos de novo.

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Leptospirose é de São Paulo. Eu sempre falo nos textos sobre as caras e bocas dos músicos, e de como tem gente que consegue ser feio pra diabo, mas o vocal paulista supera todas as escalas. Comento com Armando “Fígado Killer” que o sujeito no palco consegue ser feio profissionalmente, mais tarde conversando com o baixista da banda ele comenta “Tem gente que pára para tirar foto, porque a feiúra dele não é normal mesmo. São anos cultivando o feio!”. Outra feiúra é Afonsim apresentando a banda, sem condições. Feiúra e mais feiúra, mas o som é lindo. Um HC bom pra diabo, rápido, bem tocado, curtido, o povo empolga e poga e Armando comenta comigo que leptospirose é a doença que se pega com mijo de rato, o que completa uma ironia letal com a camiseta do Mickey do vocalista. Oops, o quebra-sol da Fanta do vocalista acaba de passar voando perto da minha orelha, a casa vem abaixo não descreve. O som me lembra X, de Los Angeles, mas olhando para o palco não vejo a loira Exene Cervenka, e sim um cabeludo feio de bigodinho de frentista; mas que conseguem transmitir a mesma empolgação do combo da americana. E eles confessam o prazer ao agradecer à Monstro pelo convite para tocar no Noise, mas principalmente para tocar no Capim Pub, pois se sentiam em casa. O Noise está em casa. Os nostálgicos comparam com as primeiras edições do festival,  e isso é muito natural. E estar nesse ambiente me faz pensar algumas coisas sobre gente que se acha demais, espaços que precisam ser valorizados e uma melhor postura dos envolvidos – extensamente discutidos em boa prosa com Ynaiã – mas isso fica para o texto que vai sair na Dynamite.

Novatore – novamente – disse que “qualquer sociedade que você construir terá seus limites. E para além dos limites de qualquer sociedade os desregrados e heróicos vagabundos vagarão, com seus pensamentos selvagens e virgens – aqueles que na podem viver sem constantemente planejar novas e terríveis rebeliões! Quero estar entre eles!”. Sinto que estamos, os feios, sujos, perdidos, proscritos, todos unidos aqui reformulando os mapas.

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Então surge o HC 137. Se eu fosse um grama e meio mais exagerado eu diria que esse foi um show histórico da banda, mas não sou exagerado então digo que foi um show memorável. Mas memorável pra caralho! O vocalista Manoel “Crossover” não aparece e eles mandam o som como powertrio – Aurélio, Totonho e Lulu Star. E quando o Luciano comenta a ausência do vocalista, Bigode, Marlos e eu comentamos que a banda estava muito melhor assim. Nada contra o Crossover, mas a banda estava perigosamente afiada, intensa, entrosada, e parecia que estava em sua melhor formação em décadas.

Esse foi – segundo a versão oficial – o último show do Luciano e do Aurélio na banda. Luciano depois me conta que lamenta, mas não consegue mais tocar hardcore, está velho (está mesmo, um bagaço! Hahahahaha) e cada show consome energia que ele não consegue juntar mais. Continua feliz no Fígado Killer e Aurélio no Mortuário e no Sangue Seco (que vai agendar o segundo ensaio do ano para daqui a algumas semanas, tenho fé!).

Foi sem dúvida o melhor show da noite, e naquele momento ali já dava pra dizer isso. Seria muito difícil alguém superar aquilo tudo. Totonho está endemoniado e larga o baixo, corre pra roda, o povo arremessa ele de novo nas paredes, esse moleque tem ossos de borracha, só pode. Luciano fala grosso, Aurélio canta, o povo endoida e a seqüência de clássicos arrepia todos os dinos presentes. “Made in GO” levanta a multidão (já falei que não parava de chegar gente?? Insano!!), mas quando tocam “Valas de esgoto” todo mundo presente sente que havia nascido nas ruas, nas valas de esgoto. Todo mundo ali sentiu o que era estar atolado na merda, com a sensação de que teria sido melhor ter nascido morto. Um monte de gente no Capim com a sincera sensação de não ter conhecido o pai, de serem todos filhos de prostitutas, mas muito mais ainda com a certeza de que quem nos governa são todos filhos da puta. Quer saber? “Valas de esgoto” deveria ser cantada com a mão no peito, é um hino! Ao meu redor velhos dinos se emocionam, olhos cheios de água, vejo gente comentando sobre o saudoso e finado Cláudio, moleques mais novos fazem perguntas, curiosos e na nossa frente a história está sendo feita. Senhoras, isso é realmente e verdadeiramente UM SHOW!

O baixo do Totonho arrebenda AS QUATRO CORDAS (o maluco devia estar tocando com os dedos cheios de cerol, só pode!), Fred “Señores” empresta o baixo para a festa não parar. Theo “WC” já assumiu o baixo, os vocais já foram assumidos por Guga Valente, os caras de SP olham admirados e tudo termina apoteoticamente com um puta cheiro de pequi. Legitimamente MADE IN GO.

Preciso de ar, estou hiperventilando de tanta empolgação. O Capim tem um quintal charmoso lá pra baixo, e ficamos ali bebericando beberagens e rindo de coisas risíveis. Refrescado, uma pausa no banheiro sem tranca (e com o rolo de papel higiênico a uns dois metros de altura. Quem for cagar, fica cagado mesmo! hahahahahahaha) e lá vamos nós de volta à muvuca.

Os Cabeloduro é legal. Mas não consigo passar disso num primeiro momento. Letras cheias de palavrão sempre me fazem pensar em bandas de moleques, o que eles não são; ou bandas que jogam pra platéia, para terem adoradores facilmente, e isso eles tem. O povo delira com o show.

E a ideia monstruosa era levar novos públicos para as casas com essa “conquista de Goiânia”, aqui no Capim deu certo. Enquanto os candangos destroem no palco, a roda come solta e ao meu lado um casal diferente observa enquanto comenta que “o pecado é a circulação de ar, o resto é muito legal”. Ele de roupa social com uma pulseira dourada, ela com uma roupa brilhante que ressalta as coxas bonitas, o cabelo tingido e o sorriso enorme me lembram a Joelma, mas quando ela diz “vou dançar um pouco”, não é Calypso que está tocando. A cena é inusitada. E ela dança, à vontade tomando cerveja gelada, vendida por um lutador mexicano de vale-tudo. Que noite!

Do palco vem “Beat me senseless” do Circle Jerks e eu acho perfeitamente adequada essa música numa noite em que fomos surrados por altas doses de HC e punk rock muitíssimo bem tocado.

Primeira noite de Noise na conquista da cidade. Resultado apurado no Capim? 100% de sucesso.

E como teria sido no Santo Agostinho com o Hermetão e na Fiction com Vamoz, Soundscapes e Motherfish, além de “top dj’s” (hehehe) do mundo todo?

Hoje tem Siba e Roberto Correa, além de Cega Machado no Goiânia Ouro. Tem também Ricardo Koctus (baixo do PatoFu), Detetives e Johnny Suxxx no Bolshoi. E tem ainda The Name, Sapatos Bicolores e Bang Bang Babies na Metropólis. O Noise continua sua invasão, quem viver verá.

Como disse Bey “a ideia não é mudar a consciência, mas mudar o mundo”. Em noites como essa de quarta-feira, eu posso acreditar nisso. Caramba, é verdade! Tudo isso foi numa noite de quarta-feira!! Loki, né?

Há braços!

Eduardo Mesquita, O Inimigo do rei

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