XV Goiânia Noise - por seus primeiros pentelhos, merecia mais.

erotica-8

XV Goiânia Noise – por seus primeiros pentelhos, merecia mais.

 

 

O Noise acabou, de novo. Sempre acaba, todo ano, e outras coisas acontecem todos os anos. As reclamações, as comemorações, a chatice e o balanço pra próxima edição. Isso tudo é certo e seguro, e esse ano não foi exceção. Eu tinha começado o texto quando aconteceu isso aí do post abaixo, e minha vida deu uma tumultuada grande, naturalmente eu acho. As lembranças esfriaram, os rancores passaram para outro momento e quando vemos tudo nessa perspectiva é até mais fácil fazer um balanço sereno do que foi vivido.

A velha situação de sempre: bandas legais, bandas fracas, pessoas do mundo inteiro, amigos de outras cidades, outros estados, cerveja, comidas, prosas, Cererê, etc e tals. Esse ano algumas diferenças aconteceram, a começar do esparrama que o festival teve por várias casas da cidade, que aumentou a contribuição, a distribuição de público, as parcerias, mas que deve ter facilitado por alguns outros aspectos. A começar por um possível barateamento da estrutura, que seria natural se o festival se limitasse aos dois ou três dias de sempre. Isso porque dois ou três dias em um local custam um tanto, referente ao tanto de serviços agregados que o festival demanda. Mas se isso se espalha em alguns locais, a despesa pode ser rateada também, algumas casas já possuem estrutura de som e segurança, não há necessidade de investimento tão alto em bebidas e coisas parecidas. Mas o Noise passou para uma semana inteira, e isso faz diferença.

Quando uma casa como o Capim Pub oferece sua estrutura para o festival, entra com despesas de manutenção, serviços e quetais, mas ganha com novos públicos, pessoas diferentes e consumo naquela noite. No fim das contas, penso que a matemática poderia ficar zerada, já que todos investem e todos ganham; mas o Noise desse ano contabilizou algo que não havia até então: credibilidade nos nichos.

Claro que o guri que pulou ao som do Leptospirose (do feioso, gente boníssima e generoso Quique) no Capim ficou super feliz em ter uma noite dedicada ao tipo de som que ele adora. E isso sem ter que ouvir sons que não lhe agradam aos tímpanos; ali só se ouviria aquele tipo de música. Nesse ponto os maculelês ganharam, a galera do HC ganhou, alternativos e indies sempre ganham e no fim os nichos foram devidamente satisfeitos. Isso poderia tirar um pouco da mistureira que o festival se caracteriza, mas o risco não era assim tão grande, já que teríamos algumas noites bem misturadas, como de costume.

A ideia de agradar aos nichos gera uma coisa bem valiosa para qualquer um: credibilidade. Óbvio que alguns poderiam acusar o golpe de oportunismo, já que a Monstro é alvo fácil de críticas adolescidas e furibundas, tipicamente orkutianas, mas a credibilidade de fazer um evento no Capim – o exemplo mais clássico – ou com o Hermeto; é inegável. Serve como um resgate do histórico de gente como Léo Bigode que tem envolvimento com a cena HC zineira desde que o Pão de Açúcar era um cupim. Muitas vezes visto como o demônio liberal, ele estava no Capim a noite toda, curtindo muito mais que muita gente e assumindo que é o monstro vinculado aquele lado da cena roquística da cidade.

Locais como Bolshoi e Fiction, parceiros de produtores da cidade, puderam se envolver de forma mais intensa no festival, incorporando eventos, shows e público de forma inédita e com ar de integração, que foi bastante interessante.

Nesses pontos o festival foi fantástico, realmente. Sair de um local de shows e ir para outros, assistir outras atrações, como o Bruno do Ressonância pôde fazer, é bastante legal. Dá um ar de que a cidade está realmente toda envolvida na música e no evento.

Mas pela semana tumultuada de trabalho e outras coisas particulares, acabei me limitando ao Capim e à noite de sábado do festival. Na sexta-feira até queria ir, mas estava completamente destruído, e quando fui colocar meus tubarões para dormir, acabei apagando federalmente e só acordei depois das duas ou três horas da madruga, sem nenhuma intenção de soltar quem eu tinha nos braços para ir pro rock.

Sábado fui ao Cererê. A promessa era de uma utilização do Cererê completamente inédita e bacanuda. Quer saber? Não achei assim tão legal. Claro que a possibilidade de transitar pelo espaço inteiro era bem legal e dava espaço para o povo muito que estava por lá (me disseram que na sexta estava três vezes mais lotado. Fiquei feliz de não ter ido); mas talvez eu tenha alimentado muita expectativa e ela não foi correspondida. Converse e Petrobrás teriam sido melhor atendidas no Oscar Niemeyer sem sombra de dúvida, e o “shopping” ficou no buraco. Dadas as condições de espaço eu realmente não saberia dizer uma forma melhor de usar o lugar, não sou bom para isso, mas não fiquei impressionado.

O “shopping” estava bem montado, bancas bem legais, mas dava um trabalho danado pra chegar até lá, descer aquelas escadas todas, e pode ser só preguiça minha, mas a visão daquelas banquinhas no palco do Teatro de Arena, abaixo do nível do mar, ficou depressiva demais. O espaço que servia de boteco próximo ficou pequeno e as pessoas escorriam pelas escadarias/arquibancadas como lama. É, eu realmente não achei grandes coisas. Se era o que dava pra fazer, então tá.

Teve gente reclamando do “shopping” (e por isso estou colocando em aspas), mas a reclamação não procede. Se o fato de ter um “shopping” faz o festival menos rocker, então deveria chamar “banquinhas” ou “mascates” ou o que? Pessoas vendendo, pessoas comprando, negócios sendo feitos, “shopping” é um nome tão bom como qualquer outro, e encher o saco sobre isso é preciosismo demais da tal atitude.

As comidas foram decepcionantes. Poucas opções e nenhuma me chamou atenção suficiente para consumir. Será que existem tão poucos fornecedores interessados em participar de um festival desse porte, pelamordedeus? Acho difícil acreditar que o tanto de gente que mexe com comida nessa cidade não tenha entendido o potencial de consumo de um monte de adolescentes suarentos e gente laricada que freqüenta um festival como o Noise. A cerveja Sol não é todo dia que se consegue beber, e Bavária Premium nunca foi uma cerveja Premium de verdade, mas isso já é gosto particular à enésima potência e eu reconheço meus queixumes assim, são meus queixumes.

Mas enfim, isso era estrutura. No sábado eu queria ver Mercenárias, e só. Confesso. De resto fiquei zanzando, proseando, passando raiva e dando risada. Como cheguei por lá depois das 21 horas (fiquei embrulhando balinha para o aniversário dos meus tubarões) já tinha perdido um monte de coisas, mas nada que me fizesse sofrer. Ouvi um pouco de Porcas Borboletas com Paulo Barnabé do lado de fora do teatro, proseando com Mestre Vasquez e Maldonalle “Rambo”. Achei legal o som, mas não animei a entrar no teatro. Mesmo ouvindo “Pregador maldito” enlouquecendo o povo, eu tinha escolha, não me uni a eles.

Só fui entrar no teatro na hora do show do Confronto. De início fiquei sem entender: Isso é hardcore ou metal? Me disseram que era assim que o hardcore é hoje, e me senti ainda mais Dino nessa hora. Tudo muito grave, muitomuitomuito alto, sem sutilezas, sem variações, só mesmo o grito na cara. Achei monocórdico demais para meu gosto. Alguns chamam a banda de “machocore”, e acho que pode ter sido isso, excesso de testosterona, que não me deixou achar tão bom. Mas para quem gosta, o show foi muito bom. As rodas que se abriram e o sorrisão da gurizada mostrava que eles tinham recebido o que foram buscar, o que já é um punhado.

Aí voltei a entrar no teatro para ver o Mechanics. O Grupo Empresa já estava circulando pelo público há algum tempo, com dois caras amarrados um nas costas do outro, numa performance que não deveria ter expectativa de nenhum sentido além de provocar algum desconforto em quem vê, e isso parecer ser o mote do grupo cênico que já acompanha o Mechanics por alguns shows. Me lembrei de algumas imagens dos primeiros clips do Marilyn Mason, e isso reforçou minha sensação de que o propósito era incomodar. Incomodou, pouco pelo visual, muito por esbarrar em gente que nem estava vendo o que vinha pelas costas. No palco do Mechanics um sujeito jaz pendurado dentro de um saco, um útero, e quando a banda toca e Márcio grita “o que eu sinto é ódio e vontade de morrer”, o cara nasce do útero, rasga o ventre e desaparece. Como se nascer fosse se perder no mundo cheio de gente, ele caiu e sumiu no meio do povo. Que som bom que o Mechanics tá fazendo nesse Cd novo! Gostei bastante, talvez tenha sido o show que eu mais gostei da banda, já que nunca achei que o som deles fosse algo que me interessasse ou desse enorme prazer. Me chamava atenção o cênico, teatral da banda, mas agora a música começa a fazer sentido pra mim.

E aí veio uma decepção. Black Drawing Chalks. A banda? Não, o show. O show da banda? Não, a impossibilidade de ver o show da banda. Estava curioso para vê-los ao vivo depois de tanta exposição e espaço que eles vem conquistando por aí, mas não consegui. O teatro lotado pra diabo, o povo empurrando e eu não consegui passar dos umbrais da porta, então lembrei da pulseira dourada no meu braço e fui para os bastidores. Entrei todo pimpão e alegre no camarim do teatro e já estava quase no palco quando um segurança – de uma delicadeza comovente – me fez voltar. Segundo ele ninguém estava autorizado a ir ali, e eu fiquei sem entender e tentei explicar ao sujeito que eu tinha passe livre, credencial, sei lá o nome daquela tromba amarrada no meu braço. Ele me explicou que ninguém estava autorizado a ir ali – poucas palavras e nenhuma articulação no sujeito. Saí dali frustrado, mas como não sou um fã dedicado e apaixonado do som da banda, poderia ter me acomodado em algum lugar e pronto. Mas aí encontro uma criatura envolvida na produção e ouço o comentário de que – na opinião dessa pessoa – muitas pulseiras de credencial foram entregues, e por isso o palco tinha ficado muito tumultuado na sexta-feira e então no sábado ninguém ia poder subir.

Achei isso uma palhaçada. Então não se organizam e eu pago o pato de não poder usufruir de um conforto elitista como a credencial? Fui embora insatisfeito.

E aí era o show das Mercenárias. Eu conheci Mercenárias no “Cadê as armas” de 86, o bolachão de 45 rotações que durava 18 minutos exatos. E gostava muito. Já havia sugerido o nome dessa banda em algumas enquetes anos anteriores, e gostei muito de saber que elas viriam, mesmo sem ser a formação totalmente original.

Confesso que o começo do show foi uma aporrinhação. O som não estava acertado, elas não ouviam retorno no palco, a guitarra falhava miseravelmente e a insatisfação delas não era maior que a da platéia. A baterista vocifera reclamações e isso soa até engraçado, mas o som estava realmente uma bosta. Finalmente acertaram o som da guita e as coisas pareciam que iam melhorar, mas o set list da banda estava muito ruim. Até a metade do show eu estava achando tudo muito fraco, e tirando o fato de um amigo de 120 kilos pular nas minhas costas e outro ficar me jogando bolas de papel e me cutucando nas costelas, nada foi suficientemente impactante para me fazer lembrar.

Claro que era bem legal ver a Sandra ali, com aquela cara parecida com minha Tia Cleusa, tocando aquele baixão tão bem tocado, com timbres tão inusitados, tudo isso era ótimo, claro. Mas não me empolgou.

Quando finalmente me fizeram sorrir, tocaram “Me perco”; para mim uma das melhores do show. E talvez também para a guitarrista, porque pela primeira e quase única vez no show, pude reparar que ela tinha os “faróis ligados” enquanto tocava. Aparentemente eu não era o único a achar aquela música um tesão.

Em “Santa Igreja” elas não falam o “vaisifudê” tão nitidamente, e Marcelo Solá me pergunta se a música tinha mudado a letra, sentindo falta dos palavrões. Quando, já próximo ao fim do show, tocam “Ação na cidade” o show realmente fica deliciosamente empolgante. Rodolfo, do Galo Power, sobe ao palco e assume os vocais, completando a cena que se construiu durante todo o show quando a guitarrista lhe dirigia sorrisos e piscadelas ingênuas. E ficou super legal, cantou bem, animadíssimo e a música – que é ótima – ficou um toque de punk rock que estava fazendo falta até ali. No fim, gostei muito. Matou a saudade do que eu tinha vivido tantos tempos passados, e eu saí com um sorrisão no rosto. Não era o único.

Dali fui embora, estava muito cansado e o domingo ia ser longo (mal sabia eu quão longo). Voltei para buscar meu carro, que ao ser deixado nas ruas próximas me proporcionou o diálogo de todos os anos sobre os cinco reais adiantados e tals.

Foi um bom festival? Foi. Mas devia ter sido mais. Tirando o Hermeto, não acho que as atrações tenham sido assim tão interessantes, e talvez tenha sido um Noise fraco dentre tantos outros nesses anos passados. Esse era o debut do Noise, quinze anos não são quinze dias, como repetiram ad nauseaum durante as semanas anteriores.

Para uma jovenzinha que vai para seu baile de debutante, foi como se ela esperasse encontrar o Cauã Raymond para dançar a valsa, e encontrasse alguém saído da Fazenda. É uma celebridade? Hoje em dia, sim, mas uma celebridade menor. E o Noise fazendo quinze anos merecia atrações mais impactantes.

A sensação é de que os Monstros tomaram um baque bem grande em 2008 com a variação mezzo surpreendente do dólar, e as atrações internacionais inflacionaram a folha de pagamento. Uma folha de pagamento que foi alardeada como sendo de 800 mil reais em seu total de despesas, coisa que realmente não acho ser. Esse valor deve ser o valor de comprovação para levantamento de patrocínios, mas todo mundo sabe que esse número é inchado para prevenir surpresas, e se a Monstro não fez esse “inchamento” dos números, correu risco maior ainda. Acredito que eles ainda não conseguiram levantar todo o numerário para pagar o festival, mas isso não é novidade.

Com essa suposta balançada no ano passado, o ano de 2009 reservou como grande atração o formato do festival, ao invés das atrações do mesmo. Não houve uma grande banda, e as atrações internacionais todas demandavam pesquisa e curiosidade.

Alegações de erros nos eventos gratuitos, favorecimentos e quetais são choros e ranger de dentes de gente que gosta de chorar e ranger dentes. O mesmo tanto de gente que surge em Orkut – onde mais? – para dizer que houve erros e lambanças nos shows, surge de gente falando que não viu nada de errado. Ficamos com a versão oficial? Nobre diz que a entrega de ingressos aconteceu conforme avisado, duas horas antes; e que a lotação das casas impediu a entrada de algumas pessoas, como também informado antes. Gente que vem em Orkut falar em ameaças de morte por causa de suas revelações, e reclamar de liberdade de opinião e censura soam tão ridículas que nem se pode levar em consideração.

O Cererê é um lugar maravilhoso, o melhor para o rock independente, mesmo que alguns otários digam que não; mas algumas atrações realmente não cabem lá. O Noise caberia confortavelmente lá em noites com atrações medianas, como foi em sua maioria, mas um Móveis ou BDC realmente não são comportados mais pelas caixas d’água.

Erros aconteceriam, eu sabia, eu disse. Mas nenhum erro na execução pode ter sido tão grave como os prováveis erros e limitações no planejamento. O XV Goiânia Noise foi o festival certo no momento errado. Num momento como esse, de celebração dos primeiros pentelhos, o Noise merecia mais.

Vamos alimentar a expectativa para o XVI? Se a proposta é de incluir o Niemeyer na invasão da cidade, vamos também invadir o Kuka, os estúdios da cidade, alguns restaurantes de boa comida, escolas e fazer o público da cidade participar de forma mais ativa. Muita gente ainda não conhece o rock da cidade, e essas pessoas podem se divertir demais, melhorando a freqüência e participação e trazendo novos ares para o festival.

Um ano de preparação, e nesse um ano muitas atividades precisam ser feitas. O Noise não cabe mais em um lugar? Não cabe mais em uma semana também, precisa ter atividades durante todo o ano, em vários locais, com vários públicos, incentivando participação e provocando maior movimento.

Já tem pentelho, já tem moral e credibilidade, que tal se levar a sério agora?

 

 

 

 

 

Há braços!

 

 

Eduardo Mesquita, O Inimigo do rei

eduardoinimigo@gmail.com

@eduardoinimigo – twitter

 

Compare Preços de: DVD, MP3, LCD, Plasma, HDTV, Home Theater no JáCotei.

XV Goiânia Noise - no Capim Pub foi 100%

xv-goiania1XV Goiânia Noise - Capim

 

O céu em pressentimento já torna-se escuro e silencioso!”.

A frase de Renzo Novatore que se tornou célebre através de Hakim Bey no seu livro “TAZ – Zonas Autônomas Temporárias” soava perfeita para a noite de quarta-feira. Chuva, vento, baixas temperaturas e pressão atmosférica exótica, tudo completando o cenário para a primeira noite de shows do XV Goiânia Noise. E não só isso, mas também a sensação de que viveríamos uma experiência, uma TAZ realmente, se me permitem a pretensão ou ingenuidade. Pretensão e ingenuidade porque realmente não acredito mais que um show de rock possa mudar o mundo, mas é inevitável acreditar no poder que atitudes cotidianamente repetidas como as dessa noite possam fazer grandes diferenças. E nesse sentido vivemos uma zona autônoma temporária, ao melhor sabor dos anos 80.

Haveria Hermeto Pascoal no teatro do Colégio Santo Agostinho com toda sua criatividade, inventividade, brasilidade e sonoridades complexas em seus improvisos infinitos, mas eu preferi ir para a podreira e desconstrução já conhecidas do nosso cantinho confortável do inferno: o Capim Pub. Uma reunião de bandas de altíssimo calibre me soava muito mais adequada à noite esfumenta que se anunciava para aquela quarta-feira, e munido desse sentimento migrei por ruas brumosas para a “casa do Afonsim”, ou melhor seria dizer “a casa do underground”?

Vesti um moleton preto com patrocínio no peito, me senti estranhamente confortável naquela indumentária, e depois entenderia porque. Ao chegar no Capim já tomei uma bronca, por me sentir um iluminado fui estacionando meu veículo numa vaga generosa e sorridente logo ao lado da porta do Capim Pub. Marlos Hiroshi, o japonês mais goiano da história me alertou para remover minha propriedade financiada dali. Achei um abuso, tinha direito como qualquer outro de parar ali, mas a explicação me convenceu: “Aí é a casa da vizinha que interrompe os shows, não vamos estacionar aqui não para não criar caso”. Certíssimo e lá fui eu procurar outra vaga, ainda existiam várias.

E me lembrei das Cassandras de orkut que vaticinaram que um show no Capim na quarta-feira havia sido feito pelos monstros para queimar a casa e destruir o sonho idealista udi-grudi. Isso porque diziam que não haveria mais que dez pessoas e isso seria uma desmoralização geral. A chuva ajudava a alimentar esse medo, mas ao abrir os portões e eu atravessar a pequena rampa homicida da entrada do Capim, meus temores poucos se dissiparam. A casa já estava cheia.

capim1

Infelizmente cheguei no fim do show do Señores e vi só um pedaço da última música. Noise tem disso, não atrasa. Ao entrar encontro um monte de gente já pingando suor e com sorrisos enormes na cara, a banda desce feliz do palco e eu sinto que alguma coisa já estava indo muito bem. Certeza que ali havia mais que dez pessoas, muito mais. O Capim não é um lugar enorme, mas já se enchia com várias dezenas de viventes pingando suor.

Ressonância Mórfica sobe ao palco, a temperatura na casa já é alta e durante o show dos Ressonantes Mórficos eu entendo porque a sensação de conforto dentro do meu moleton da Heineken (Não, Gustavo, eu não vou te vender minha peita da Heineken! Desiste!). Aquela energia ali do Capim, aquele tanto de gente conhecida, aquela molecada suarenta e pulando pelas paredes e eu de moleton preto, me lembrei do meu segundo grau. Eu tinha um moleton preto que usava diariamente, fizesse cinco ou quarenta graus de temperatura, para esconder a camisa do uniforme e para usar roupa preta. Eu adolescia, lembrem-se. E as pessoas ficavam admiradas de um sujeito usar moleton preto no calor, as mesmas perguntas que escutei no ambiente abafado do Capim. O que poucos entendem é que a roupa grossa não aumenta a temperatura infinitamente, a um certo momento ela mantém a temperatura uniforme, e isso é extremamente confortável. Sim, eu me sentia um guri no meu moletom preto, mas não só por isso, também pela ambiência de “bando de amigos juntos” que ali reinava.

Marlos e Leo Bigode estavam apreensivos no começo, mas rapidamente foram ficando à vontade, vendo que tudo corria bem, que o astral era magnífico e que todo mundo estava curtindo adoidado aquela noite. As notícias contam que no Santo Agostinho a casa estava lotada, tudo ia bem.

Enquanto o Ressonância mói cérebros passa “Laranja Mecânica” do Kubrick na televisão ao meu lado. Sabe aquela história do “Dark side of the moon” do Pink Floyd com o filme do Mágico de Oz? Se não sabe, procure saber, porque tive a mesma sensação. Ressonância Mórfica encaixava perfeitamente na ultraviolenta cena de estupro e espancamento do filme na tela. Eu sequer conseguia olhar para o palco, só deixando a música orientar os sentidos. As pessoas não param de chegar no Capim, a casa vai se enchendo de uma forma insana. E com Ressonância no palco! Consegue vislumbrar a ameaça de hecatombe que se avizinhava? Ressonância no Capim Pub com a casa cheiona daquele jeito é como colocar dois pitbulls raivosos brigando dentro do armário do banheiro. Totonho é erguido no ar, arremessado nas paredes, no teto, recuperam o corpo e esfregam por todos os cantos da sala do palco, recolhem o vivente e o atiram na parede. Tudo combina. A Monstro vai precisar pagar novas cartelas de ovo para a casa, algumas não agüentam a pressão ou os passos do Totonho pelo teto.

A roda é mortal, os corpos são atirados aos equipamentos de som, óculos voam pelo ambiente e essa é só a segunda banda da noite. Na tela Alex  transa com duas mulheres em altíssima velocidade. Tudo perfeito, e eu tenho 17 anos de novo.

leptospirose1

Leptospirose é de São Paulo. Eu sempre falo nos textos sobre as caras e bocas dos músicos, e de como tem gente que consegue ser feio pra diabo, mas o vocal paulista supera todas as escalas. Comento com Armando “Fígado Killer” que o sujeito no palco consegue ser feio profissionalmente, mais tarde conversando com o baixista da banda ele comenta “Tem gente que pára para tirar foto, porque a feiúra dele não é normal mesmo. São anos cultivando o feio!”. Outra feiúra é Afonsim apresentando a banda, sem condições. Feiúra e mais feiúra, mas o som é lindo. Um HC bom pra diabo, rápido, bem tocado, curtido, o povo empolga e poga e Armando comenta comigo que leptospirose é a doença que se pega com mijo de rato, o que completa uma ironia letal com a camiseta do Mickey do vocalista. Oops, o quebra-sol da Fanta do vocalista acaba de passar voando perto da minha orelha, a casa vem abaixo não descreve. O som me lembra X, de Los Angeles, mas olhando para o palco não vejo a loira Exene Cervenka, e sim um cabeludo feio de bigodinho de frentista; mas que conseguem transmitir a mesma empolgação do combo da americana. E eles confessam o prazer ao agradecer à Monstro pelo convite para tocar no Noise, mas principalmente para tocar no Capim Pub, pois se sentiam em casa. O Noise está em casa. Os nostálgicos comparam com as primeiras edições do festival,  e isso é muito natural. E estar nesse ambiente me faz pensar algumas coisas sobre gente que se acha demais, espaços que precisam ser valorizados e uma melhor postura dos envolvidos – extensamente discutidos em boa prosa com Ynaiã – mas isso fica para o texto que vai sair na Dynamite.

Novatore – novamente – disse que “qualquer sociedade que você construir terá seus limites. E para além dos limites de qualquer sociedade os desregrados e heróicos vagabundos vagarão, com seus pensamentos selvagens e virgens – aqueles que na podem viver sem constantemente planejar novas e terríveis rebeliões! Quero estar entre eles!”. Sinto que estamos, os feios, sujos, perdidos, proscritos, todos unidos aqui reformulando os mapas.

Então surge o HC 137. Se eu fosse um grama e meio mais exagerado eu diria que esse foi um show histórico da banda, mas não sou exagerado então digo que foi um show memorável. Mas memorável pra caralho! O vocalista Manoel “Crossover” não aparece e eles mandam o som como powertrio – Aurélio, Totonho e Lulu Star. E quando o Luciano comenta a ausência do vocalista, Bigode, Marlos e eu comentamos que a banda estava muito melhor assim. Nada contra o Crossover, mas a banda estava perigosamente afiada, intensa, entrosada, e parecia que estava em sua melhor formação em décadas.

Esse foi – segundo a versão oficial – o último show do Luciano e do Aurélio na banda. Luciano depois me conta que lamenta, mas não consegue mais tocar hardcore, está velho (está mesmo, um bagaço! Hahahahaha) e cada show consome energia que ele não consegue juntar mais. Continua feliz no Fígado Killer e Aurélio no Mortuário e no Sangue Seco (que vai agendar o segundo ensaio do ano para daqui a algumas semanas, tenho fé!).

Foi sem dúvida o melhor show da noite, e naquele momento ali já dava pra dizer isso. Seria muito difícil alguém superar aquilo tudo. Totonho está endemoniado e larga o baixo, corre pra roda, o povo arremessa ele de novo nas paredes, esse moleque tem ossos de borracha, só pode. Luciano fala grosso, Aurélio canta, o povo endoida e a seqüência de clássicos arrepia todos os dinos presentes. “Made in GO” levanta a multidão (já falei que não parava de chegar gente?? Insano!!), mas quando tocam “Valas de esgoto” todo mundo presente sente que havia nascido nas ruas, nas valas de esgoto. Todo mundo ali sentiu o que era estar atolado na merda, com a sensação de que teria sido melhor ter nascido morto. Um monte de gente no Capim com a sincera sensação de não ter conhecido o pai, de serem todos filhos de prostitutas, mas muito mais ainda com a certeza de que quem nos governa são todos filhos da puta. Quer saber? “Valas de esgoto” deveria ser cantada com a mão no peito, é um hino! Ao meu redor velhos dinos se emocionam, olhos cheios de água, vejo gente comentando sobre o saudoso e finado Cláudio, moleques mais novos fazem perguntas, curiosos e na nossa frente a história está sendo feita. Senhoras, isso é realmente e verdadeiramente UM SHOW!

O baixo do Totonho arrebenda AS QUATRO CORDAS (o maluco devia estar tocando com os dedos cheios de cerol, só pode!), Fred “Señores” empresta o baixo para a festa não parar. Theo “WC” já assumiu o baixo, os vocais já foram assumidos por Guga Valente, os caras de SP olham admirados e tudo termina apoteoticamente com um puta cheiro de pequi. Legitimamente MADE IN GO.

Preciso de ar, estou hiperventilando de tanta empolgação. O Capim tem um quintal charmoso lá pra baixo, e ficamos ali bebericando beberagens e rindo de coisas risíveis. Refrescado, uma pausa no banheiro sem tranca (e com o rolo de papel higiênico a uns dois metros de altura. Quem for cagar, fica cagado mesmo! hahahahahahaha) e lá vamos nós de volta à muvuca.

Os Cabeloduro é legal. Mas não consigo passar disso num primeiro momento. Letras cheias de palavrão sempre me fazem pensar em bandas de moleques, o que eles não são; ou bandas que jogam pra platéia, para terem adoradores facilmente, e isso eles tem. O povo delira com o show.

E a ideia monstruosa era levar novos públicos para as casas com essa “conquista de Goiânia”, aqui no Capim deu certo. Enquanto os candangos destroem no palco, a roda come solta e ao meu lado um casal diferente observa enquanto comenta que “o pecado é a circulação de ar, o resto é muito legal”. Ele de roupa social com uma pulseira dourada, ela com uma roupa brilhante que ressalta as coxas bonitas, o cabelo tingido e o sorriso enorme me lembram a Joelma, mas quando ela diz “vou dançar um pouco”, não é Calypso que está tocando. A cena é inusitada. E ela dança, à vontade tomando cerveja gelada, vendida por um lutador mexicano de vale-tudo. Que noite!

Do palco vem “Beat me senseless” do Circle Jerks e eu acho perfeitamente adequada essa música numa noite em que fomos surrados por altas doses de HC e punk rock muitíssimo bem tocado.

Primeira noite de Noise na conquista da cidade. Resultado apurado no Capim? 100% de sucesso.

E como teria sido no Santo Agostinho com o Hermetão e na Fiction com Vamoz, Soundscapes e Motherfish, além de “top dj’s” (hehehe) do mundo todo?

Hoje tem Siba e Roberto Correa, além de Cega Machado no Goiânia Ouro. Tem também Ricardo Koctus (baixo do PatoFu), Detetives e Johnny Suxxx no Bolshoi. E tem ainda The Name, Sapatos Bicolores e Bang Bang Babies na Metropólis. O Noise continua sua invasão, quem viver verá.

Como disse Bey “a ideia não é mudar a consciência, mas mudar o mundo”. Em noites como essa de quarta-feira, eu posso acreditar nisso. Caramba, é verdade! Tudo isso foi numa noite de quarta-feira!! Loki, né?

Há braços!

Eduardo Mesquita, O Inimigo do rei

eduardoinimigo@gmail.com

@eduardoinimigo - twitter

 

 

 

 

Compare Preços de: MP3, iPod, celulares, notebooks, câmeras no JáCotei.

Customize um Converse no Goiânia Noise

converse-red-the-edge-c3c37A Converse vai te dar a chance de botar a mão na massa, ou melhor, na lona, e fazer um tênis exclusivo durante o Goiânia Noise Festival.

Sua criatividade vale um Converse feito por você, somente pra você. Acesse www.converseallstar.com.br/handsonconverse e saiba o que fazer para customizar seu Converse no espaço Hands On.

O espaço Hands On Converse é o ponto de encontro para os adoradores do nosso bom e velho amigo de lona. Um verdadeiro atelier em meio ao Goiânia Noise Festival (www.goianianoisefestival.com.br), onde os vencedores da promoção estarão customizando seus modelos de tênis ao vivo. E onde todo mundo vai poder descolar brindes especiais feitos à mão.

Compare Preços de: MP3, iPod, celulares, notebooks, câmeras no JáCotei.

XV Goiânia Noise - lá evem o trem!!

xv-noise-trem

Está chegando, semana que vem “evem” mais um Goiânia Noise, e esse é o Décimo Quinto. Chorem as Madalenas, mas esse é o evento que toda a cidade envolvida com rock fica esperando para saber das novidades, para detonar e criticar, para ganhar grana, para chapar e guardar boas lembranças. Tanto pelo tamanho, mas também pela credibilidade que adquiriu nesse tempo todo, desde o dia em que jovens Márcio Jr. e Léo Bigode resolveram colocar a ideia em marcha.

Para lançar a programação e demais informes foi organizada uma entrevista coletiva bem charmosa na Pop House, no Setor Marista, no dia 27 de outubro, para imprensa em geral, oficial, oficiosa e informal em geral. Jornalistas, repórteres, âncoras de telejornal, estrelas de programas da tarde e até blogueiros foram chamados para estar presentes e pegar as informações em primeiríssima mão direto com os monstros.

Munido de muita curiosidade lá fui eu tentar achar a Pop House. Bar com menos de dois anos de idade na cidade eu desconheço, então tive que procurar até encontrar a casa. Um local bem legal e lá estávamos eu e mais uns quinze viventes curiosos. Até a imprensa local tem preguiça de comparecer, impressionante!

Mas como em todo evento de rock independente lá encontrei inúmeras criaturas de altíssima qualidade e logo a conversa andava entre filhos recém nascidos, vasectomias e oportunidades de negócio (roqueiros Dinos têm contas pra pagar e famílias pra criar, pequeno buana!) e entre arrepios medrosos e risadas sinceras, aguardamos o início do colóquio coletivo. Afonsim, Razuk, Bigode, NoNô e uma recém apresentada Carla (sorriso com os dentes, gosto disso) dentre outros envolvidos e curiosos.

Não atrasou tanto, esperamos até umas 10:15 e então os Monstros se sentaram à mesa. O silêncio que se instalou foi então muito engraçado, ou curioso para ser mais provocador. A sensação que tive era que algo sagrado estava prestes a começar, como uma missa ou culto ou coisa semelhante. E ali estavam sentados os quatro grandes (entenda “grande” como “largo” ou “amplo” ou “gordo” mesmo) sacerdotes do rock independente da cidade de GoiâniaTown (ou sacerdotes do business? Ou sacerdotes do mal? Escolha quem lê, eu não me importo). Com aquele silêncio todo instalado, as pessoas se posicionando de forma organizada e tranqüila, e um vivente com poucos quilos se instala na minha frente para fazer a filmagem. Começamos bem…

 

xv-noise-arte

 

Razuk deu início aos trabalhos, talvez por sua cabeleira grisalha impor mais respeito, e logo sentimos que a conversa seria descontraída o suficiente e cheia de novidades bem legais. O novo formato do Goiânia Noise não é uma novidade criada debaixo de um pé de pequi, mas um formato que já vem sendo usado em outros festivais pelo mundo afora, e que funciona muito bem; por isso dá o tom do Noise desse ano seguindo um processo de crescimento natural do festival que um dia começou exclusivamente para o rock alternativo. Lá se vão uma adolescência de trabalhos e perrengues.

Como já é público e notório a essa altura da prosa, dessa vez teremos shows em várias locais da cidade durante vários dias, numa estratégia que foi apelidada carinhosamente de “Noise ocupa Goiânia” (vi ontem um puta frontlight divulgando o festival. Loki!). Serão diferentes pontos para divulgar diferentes casas e quem sabe atrair diferentes “gentes”, dando a oportunidade de muitos conhecerem casas que normalmente não iriam freqüentar, gerando movimento e renda. O festival vai mostrar para todos que a cidade possui vários lugares de rock, e isso vai ser uma novidade não só para pessoas de vários cantos do mundo que vem para tocar, cobrir e conhecer o festival, mas também para muita gente de GoiâniaTown mesmo que ainda não conhece o CapimPub ou o Bolshoi, por exemplo. Eu mesmo nunca fui na Fiction, pode ser a chance.

Teatro do Colégio Santo Agostinho (onde estudei do maternal até a oitava série, vai ser bom voltar lá para um festival), Fiction, CapimPub, Bolshoi, Goiânia Ouro, Metrópolis, C.C. Goiânia Viva e Martim Serelepe, esses são os cantos onde o Noise vai se esparramar, já que agora não cabe mais em um lugar apenas. Ousado? Eu penso que sim, mas ousadia maior é do magrelo que não saía da minha frente e filmava para uma transmissão ao vivo no Fora do Eixo. Fora do eixo estava eu na minha cadeira tentando ver alguma coisa além do derriere do jovem filmante.

Um dos nomes participantes da iniciativa é o Brasil Central Music que reúne inúmeras entidades – Fósforo, PUC GO (antiga UCG), UFG dentre tantos outros – e que junto ao SEBRAE terá as palestras como foco de atuação, e serão muitas e bem interessantes.

A abertura da festa vai ser no dia 23 de novembro com uma exposição de arte na galeria de Marcos Caiado. A ideia é bem legal, como são quinze anos de festival quinze artistas foram convidados a mostrar sua ideia de imagem do festival, e a exposição “Goiânia Noise – 15 anos – 15 visões” vai contar com gente como MzK (que faz a arte do Noise desse ano), Siron Franco, Pitágoras (meu antigo colega das épocas de professor de inglês), Marcelo Solá (ex-Marcelo Anarquista, ex-Badaró, ex-….), Galvão “Vida Besta”, os Bicicletas sem freio, Zimbres e mais outros nomes que vão apresentar suas ideias transformadas em arte. O tema já está dito. A ideia é ótima. E a entrada é “di grátis”.

Nesse novo conceito o festival não se resume a três dias de música, mas uma semana de arte, o que é bastante mais interessante. Isso porque agora finalmente se revela a importância da cadeia produtiva que vive do rock independente e das artes de forma geral. Estúdios de ensaio, artistas gráficos, prestadores de serviço e um time de gente que vive e ganha dinheiro dos eventos do rock, movimentando o “maldito capital” e alimentando bocas por aí e por aqui. O magrelo não saía da frente, muito pelo contrário ele se escorava de vez no pilar e ficava de vez na minha frente. Bermuda cinza, camiseta branca, tênis bicolor sem meia, machucado na canela, boné, trancinha na nuca e cabeça raspada. Estranhou eu prestar tanta atenção no cara? Não foi por interesse, garanto, mas eu não tinha mais nada pra olhar, ele tampava minha visão!!!

Enquanto o microfone era jogado daqui pra lá na mesa, sob olhares espantados dos monstros (pareciam ter medo do troço. Hahahahahah) eles informam sobre o Martim Cererê. A casa do rock independente, para desespero dos Fayads do mundo, vai ser ocupado de uma forma inédita e muito, mas muito mais ampla. Dessa vez não teremos aquela famosa parede entre os dois teatros, limitando o acesso do público ao backstage, mas teremos uma feira e a praça de alimentação no teatro de arena!! Loki ou não? Stands da Petrobras, Ambiente, Novo Mundo e Converse (All Star para os íntimos) serão esparramados pelo terreno do Cererê e teremos uma capacidade total de quase 2000 pessoas no local. Achou que os teatros vão explodir? Calma, a lenda conta que teremos belíssimas TVs de plasma espalhadas pelo centro cultural, transmitindo os shows, permitindo que os mais calorentos vejam o espetáculo sentados no bar degustando uma cervejota. E que deus permita que a cerveja não acabe nem esteja quente.

Eu fico pensando no esforço logístico dessa empreita. Esse tanto de casas envolvidas, a programação que se colide e se conforma em inúmeros momentos, tudo isso revela não só o pesadelo logístico, mas também contábil, financeiro, de auditoria de tantos números (todos monstruosos – hehehe) e do gerenciamento de tantas pessoas. Claro que vamos ter problemas. Espera, deixa eu dizer isso de novo: claro que vamos ter problemas. Não estou rogando praga, mas vaticinando uma certeza óbvia e confirmando um comentário de F. Nobre “papai novo de novo” que já tem ciência de que para uma primeira vez, os riscos estão esperando na esquina. E os caras não perdem o sorriso por isso.

Aconteceu dias atrás um comentário na comuna orkutiana GoiâniaRockCity de um festival que chamou algumas bandas para tocar e não tinha ninguém para cuidar do som. Quando um membro da banda surgiu reclamando e se explicando por não ter tocado, uma guria que ajudou no festival surgiu defendendo. O festival/festa tinha sido desorganizado por algumas amigas e frente ao problema surgido ela disse que os problemas eram de “terceirizados” e que a desorganização do evento não tinha culpa. Uai, se contratou os terceirizados tinha que cuidar para não ter um serviço de terceira. E é visível a diferença de postura quando vejo os monstros explicando o apoio de inúmeras entidades e produtores para fazer acontecer essa ocupação municipal. Sim, existem terceirizados, mas responsabilidade não se divide e mesmo sabendo disso – de novo – eles não perdem o sorriso. Estarão bêbados? Provavelmente não, dado o horário, mas passam a tranqüilidade necessária de gente que se mete por inteiro no trabalho, como temos mais outros tantos na cidade, casos de Fósforo, Remanescentes, Natal, Richard e mais alguns amalucados.

O perturbado que estava filmando entra definitivamente na frente de um monte de gente que tenta assistir a coletiva. Ele não se importa. Ele não liga. Ele quer que eu morra. E isso já é um toque para os organizadores e trabalhadores do festival, quem faz cobertura não pode cobrir a vista da platéia pagante, o que me fez lembrar de um show do Tequila Baby (organizado pela Monstro) em que os seguranças tamparam o palco inteiro com suas caras feias. Organização é cuidar dos detalhes, e esse maluco se coçando na minha frente não entendeu isso ainda. Devo cutucá-lo? Medo de atrapalhar a transmissão me mantém quieto. Diabo de educação britânica que meus pais se esmeraram em me proporcionar.

Mas se tudo já parece bom, espere para ver mais. O show de abertura de tudo isso vai ser do Hermeto Pascoal. Só isso já servia para empolgar. Mas o show vai ser DI GRÁTIS!!! Sim, é isso mesmo! Grátis! As pessoas vão retirar seus ingressos duas horas antes do evento e isso vai garantir o limite de pessoas no local, que será o – assim acredito – charmoso Teatro do Colégio Santo Agostinho, de tantas boas lembranças para mim. Além disso, a produção do festival vai dar uma força para as casas envolvidas, proporcionando – junto ao povo do Studio K – melhores condições de sonorização para as casas que precisarem do upgrade. Além de “maquiar” o Cererê e algumas outras localidades, tudo para proporcionar um momento único na vida dos viventes roquísticos que por aqui deambularem.

 

xv-noise-mama_rosin_press01

 

As palestras serão novamente um momento valioso. Lá embaixo você vai ver a programação COMPLETA, mas cabe comentar que um dos palestrantes será Mark Atkins, ex-batera do PIL (se você não ouviu falar dessa banda, se mexe. O vocalista dessa tal banda era um ruivo de dente podre que tinha cantado numa pistola sexual inglesa), produtor do Ministry, Nine Inch Nails e tantas outras. Então, o cara lançou um livro falando sobre turnês, desmistificando um monte de ideias lindas e idílicas que a molecada alimenta sobre viagens com bandas. No South By Southwest ele fez uma palestra que lotou 1500 lugares, com fila de gente na porta sem conseguir entrar. E esse cara vem fazer uma palestra aqui, com alguns músicos convidados entrevistando e a platéia se deleitando com tanta experiência.

Aleluia!!! O demente cinegrafista saiu da minha frente.

Dando sequência no fest…

O cara voltou pra minha frente.

Tá de sacanagem. Fiquei menos de um minuto sem ver esse corpo destratado na minha frente.

Mas pensa no festival. Empolgante?? Para alguns não está tanto, e outros tantos realmente estão achando bastante brochante pela falta do Oscar Niemeyer, ou pela falta de atrações de peso como Sepultura, por exemplo. Mas eu achei muito empolgante. Muitos shows, muitas oportunidades, gente do mundo inteiro, uma semana falando e vivendo de rock, esquecido de escritório, contas e afazeres, circulando de lá pra cá, em lugares distintos e legais, conhecendo casas e pessoas.

Se isso começou como uma missa, eu digo Amém!! Sabendo que “Amém” quer dizer “Ouço e acredito”, eu digo amém quase em voz alta. Pergunto se vai ter acarajé, mas parece que a única baiana do planeta que faz acarajé não se acerta com a Monstro. Enfim, se tiver temaki eu já fico satisfeito. Começo a acreditar que acarajé não vinga em terra de pequi mesmo.

Para quem quer saber, os passaportes vão valer em todas as casas. Isso mesmo, Zé doido, todas as casas. Mas sujeitos à lotação das casas, então se você resolver mudar de local meia noite pode dar com a cara na porta, porque se estiver lotado nem sua pulseira-passaporte vai te fazer ficar intangível para ocupar o mesmo lugar que outro corpo que já estiver lá dentro, como bem lembrou o professor de Física Léo Razuk. Os passaportes, a essa altura do campeonato já devem estar à venda (apenas 200) na Hocus Pocus, na Ambiente, na Tribo do Açaí e na Monstro ao preço de R$ 50,00 pra ver tudo que você conseguir. Ainda vai ter uma mostra de cinema que o passaporte vai te permitir ver todos os filmes possíveis!! Esse preço é com carteirinha de estudante ou entregando um kilo de alimento não perecível na entrada do local que você escolher, porque é o valor da meia. O preço do ingresso individual vai variar entre as diferentes casas e locais.

Eu – enquanto não enxergava nada além do magro maldito na minha frente – me indagava se o Oscar Niemeyer não estava disponível, porque constava antigamente no MySpace do festival como sendo um dos locais. Feliz ou infelizmente as obras serão retomadas no ON, segundo os informes recebidos, e por isso não poderá ser usado. Será que dessa vez terminam o troço? Hoje já é dia 16 de novembro, e segundo alguns comentários ouvidos em órgãos oficiais, nada começou ainda. Torço para ser só fofoca.

Em um próximo ano poderemos ter todas as casas usadas esse ano e o Oscar Niemeyer também, pensa nisso? O Noise cresceu, apareceu e agora esparramou. Artes plásticas, cinema, palestras, temakis, acarajés (vou falar, vai que cola!), música, música, música.

O magrelo sai da minha frente, claro, acabou a coletiva. Eu me levanto pra ir embora e cumprimento os Monstros. É bom ver o povo se superando a cada ano, crescendo, aparecendo e mostrando bons serviços. Mas o trabalho está só começando, agora que começa a correria de verdade e a torcida para tudo funcionar a muito contento.

Separar o sapato confortável, preparar o ritmo, animar o espírito e redescobrir Goiânia. Graças ao Goiânia Noise Festival.

Gracias, muchachos.

 

P.S. – eu falei que um dia do festival no Martim Cererê vai ser gratuito? Sim, é isso mesmo, de graça!! Di Grátis!! Confere abaixo a programação completa e mais abaixo ainda o release oficial do evento. Isso se você ainda não viu no blog do Hígor (http://goianiarocknews.blogspot.com/), no site do festival (www.goianianoisefestival.com.br), e em outros cantos que já anunciaram tudo isso aqui. E agora você se pergunta: então porque eu fiquei lendo essa trolha aqui? E eu sei lá!!!

 

 

Há braços!

 

 

Eduardo Mesquita, O Inimigo do rei

eduardoinimigo@gmail.com

twitter - @eduardoinimigo

www.ogritodoinimigo.com

 

 

 

 

 

 xv-noise-hermetopascoal

 (Hermeto Pascoal - mas precisava mesmo dessa legenda?)

 

 

 

 

 

Ø     PROGRAMAÇÃO MUSICAL

 

 

25 / NOV (QUARTA-FEIRA)

 

Local: Teatro Madre Esperança Garrido (Colégio Santo Agostinho)

22h00 - Hermeto Pascoal e Grupo (SP) – o grande bruxo albino debulhando criatividade! Imperdível.

21h15 - Vida Seca (GO) – foyer do teatro

20h30 - Juraildez da Cruz (GO) - um dos mais antigos representantes da música popular mesclada com músicas de raiz daqui da terra. Além de ser um sujeito do bem!

 

·         Realização em parceria com Conferencia Brasil Central Music

·         Valor do Ingresso: Entrada Franca, com retirada 2h antes no local

 

 

Local: Fiction Club

01h00 - Vamoz (PE)

00h15 - The Soundscapes (SP/USA)

23h30 - Motherfish (GO) – em nova formação, a banda classuda volta pra assombrar seus sonhos.

 

DJ Sets:

01h40 - MzK (SP)

00h20 - Paul Jones – Rough Trade (UK) – Conhece o nome do selo aí? Rough Trade? Só para começar o currículo foram eles que lançaram os Smiths. Precisa mais nada.

23h00 - Miranda (SP) - o gordo grisalho boca-suja do “Astros”, ou será “Ídolos”, ou “Pop Stars”, sei lá.

 

·         Valor do Ingresso: antecipado até 20/11 – R$ 10,00 nos pontos de venda

 

xv-noise-senores (Señores - punk rock Goiano de altíssima qualidade)

 

 

 

Local: Capim Pub - não falo nada, esse vai ser o evento mais histórico de toda a programação na minha opinião. E não é pelas bandas, que são todas fantásticas, mas pela casa que estará abrindo as portas e recebendo o Noise em seu leito underground. Afonsim merece. A dúvida que permanecia era sobre a acústica para o horário anunciado, já que a vizinha doida dona da marreta ainda não foi abduzida pelos Incas Venusianos. Mas algo alertou os viventes envolvidos, e o horário foi atualizado para esse aí. É esperar pra ver.

22h30 - Os Cabeloduro (DF)

21h45 – HC 137 (GO)

21h00 - Leptospirose (SP)

20h15 - Ressonância Mórfica (GO)

19h30 - Señores (GO)

 

·         Valor do Ingresso: antecipado até 20/11 – R$ 10,00 nos pontos de venda

 

 

 xv-noise-siba-e-roberto-corraa-34-foto-de-ricardo-labastier1

(Siba e Roberto Correa - foto de Ricardo Labastier)

 

26 / NOV (QUINTA-FEIRA)

 

Local: Teatro do Centro Cultural Goiânia Ouro

22h00 - Siba (PE) + Roberto Corrêa (DF)

21h00 - Cega Machado (GO) – bom pra caralho!!!!

 

·         Realização em parceria com Conferencia Brasil Central Music

·         Valor do Ingresso: Entrada Franca, com retirada 2h antes no local

 

 

 

Local: Bolshoi Pub

01h00 - Ricardo Koctus (MG) - do Pato Fu.

00h15 - Detetives (SP)

23h30 - Johnny Suxxx and Fucking Boys (GO) – do Joãozinho Lucas, meninos safadinhos.

·         Valor do Ingresso: antecipado até 20/11 – R$ 10,00 nos pontos de venda

 

 

Local: Metrópolis

01h00 - The Name (SP)

00h15 - Sapatos  Bicolores (DF)

23h00 - Bang Bang Babies (GO)

 

·         Valor do Ingresso: antecipado até 20/11 – R$ 10,00 nos pontos de venda

 

 

 

xv-noise-supersuckers02 

(Supersuckers)

Dia 27 / NOV (SEXTA-FEIRA)

 

Local: Centro Cultural Martim Cererê

 

Palco Pyguá

01h10 - Supersuckers (USA)

00h00 - MQN (GO) + Walverdes (RS)

23h00 - Guizo (Chile)

22h00 - Punch (GO)

21h00 - Volver (PE)

20h00 - Seletiva Petrobras nas Ondas do Rock

19h00 - Sattva (GO)

 

===

 

Palco Yguá

00h30 - Móveis Coloniais de Acaju (DF) + Bocato (SP)

23h30 - Think About Life (CAN)

22h30 - Devotos (PE)

21h30 - Vivendo do Ócio (BA)

20h30 - Rinoceronte (RS)

19h30 - O Melda (MG)

18h30 - Hellbenders (GO)

 

·         Valor do Ingresso: antecipado até 20/11 – R$ 20,00 nos pontos de venda 

 

 

 

Dia 28/NOV (SÁBADO)

 

Local: Centro Cultural Martim Cererê

 

Palco Pyguá

01h10 - Dirty Projectors (USA)

00h00 - Black Drawing Chalks (GO) + Chuck Hipholito (SP)

23h00 - Mama Rosin (Suíça)

22h00 - Porcas Borboletas (MG) + Paulo Patife (SP)

21h00 - Los Lótus (ARG)

20h00 - Mugo (GO)

19h00 - The Backbiters (GO)

 

Palco Yguá

00h30 - As Mercenárias (SP) – vai ser o melhor show do festival. É o show que eu estou mais esperando, para matar minhas saudades de uma adolescência vivida com um disco de 45 rotações que durava 18 minutos. Maravilha!!!

23h30 - Mechanics (GO)

22h30 - Confronto

21h30 - GrimSkunk (Canadá)

20h30 - Cassin & Barbaria (SC)

19h30 - Mini Box Lunar (AP)

18h30 - Evening  (GO)

 

·         Valor do Ingresso: antecipado até 20/11 – R$ 20,00 nos pontos de venda

 

 

 

 

Dia 29/NOV (DOMINGO)

 

Local: Centro Cultural Martim Cererê

 

Palco Pyguá

00h10 - Diego de Moraes e o Sindicato (GO) + Astronauta Pingüim (RS)

23h00 - Violins (GO)

22h00 - Domá da Conceição (GO)

21h00 - Barfly (GO)

20h00 - Naquele Tempo (GO)

19h00 - Torre de Jamel (GO)

18h00 - Seletiva Brasil Central Music

 

Palco Yguá

23h30 - Terrorista da Palavra (GO) + Jorge Mautner (SP)

22h30 - Umbando (GO)

21h30 - Grace Carvalho (GO)

20h30 - Gloom (GO)

19h30 - Cine Capri (GO)

18h30 - Hot and Hard Co. (GO)

17h30 - Seletiva Brasil Central Music

 

·         Realização em parceria com Conferencia Brasil Central Music

·         Valor do Ingresso: Entrada Franca – sim, isso mesmo DI GRÁTIS!!!

 

 

Goiânia Noise Festival – Palco Hip Hop

Local: Centro Comunitário do Goiânia Viva

 

21h00 - Face a Face (GO)

20h30 - Ivo Mamona (GO)

20h00 - Soldados Urbanos (GO)

19h30 - Reverso da Moeda (GO)

19h00 - Linha Dura (MT)

18h30 - U Plano (GO)

18h00 - Eko (GO)

 

·         Realização em parceria com CUFA

·         Valor do Ingresso: R$ 5,00 – vendas no local

 

 

 

 

 

*** PROGRAMAÇÃO SUJEITA A ALTERAÇÕES ***

 

 

 

 

 Release oficial

 

15º Goiânia Noise Festival

2ª Conferência Brasil Central Music

 

Invadindo a cidade!

De 23 a 29 de novembro

 

        

Introdução

         15 anos não são 15 dias. Quantos eventos em Goiás existem há 15 anos ininterruptos? Quantos eventos no Brasil atravessaram 15 carnavais? O Goiânia Noise Festival pode se orgulhar desta marca. Mas para além de sua impressionante longevidade, o Goiânia Noise traz conquistas absolutamente inimagináveis quando da sua primeira e modesta edição em 1995.

         Muita coisa mudou de lá pra cá. Goiânia, que sempre carregou a pecha de berço da famigerada música country, encontra-se hoje consolidada como a capital do rock alternativo brasileiro. Se antes as possibilidades de se viver de música em Goiás estavam praticamente resumidas em se atrelar comensalmente ao Estado ou ocupar as praças de alimentação dos shopping centers com um teclado de churrascaria a tiracolo, agora vemos toda uma cadeia produtiva (que envolve produtoras, estúdios, equipes de sonorização, casas noturnas e artistas) em funcionamento. E não deixa de ser sintomático o fato do Goiânia Noise – epicentro e catalisador maior de todas estas transformações – ter se tornado o principal evento cultural de Goiás. Ninguém duvida: nos últimos anos, é o Noise que tem levado mais longe o nome da terra de Cora Coralina.

         A premissa dylanesca continua mais válida que nunca: “pedra que rola não cria limo”. Daí que o Goiânia Noise, “o maior festival de música independente do país” nas palavras do Ministro da Cultura Juca Ferreira, comemora seu 15º aniversário fazendo o que sempre fez: inovando. Se a tradição apresentava três noites de rock puro e concentrado, agora teremos uma semana inteira onde o Noise se espalhará por toda Goiânia. Em conjunto com a 2ª Conferência Brasil Central Music, promovida por nove entidades culturais que fazem parte do GEOR de Música do SEBRAE-GO, o Goiânia Noise tomará de “assalto” galeria de arte, cinema, casas noturnas e teatros. Espaços estes que serão ocupados por uma incrível programação para comprovar a vocação ampla e vanguardista do festival, onde as mais diversas linguagens artísticas se interseccionam. A riqueza (material e simbólica) da atual produção cultural goiana virá à tona, explicitando de uma vez por todas que o Noise não é somente uma festa passageira, que acontece uma vez por ano. Muito mais que isso, ele é uma ação perene que impacta diversos setores da cultura e economia locais, estabelecendo o diálogo de igual para igual com outros grandes eventos mundiais. Afinal de contas, 15 anos não são 15 dias.

 

 

Edição 2009

         Neste conceito de invadir a cidade e se estender a diversas manifestações artísticas, o 15º Gioiânia Noise Festival irá começar na segunda-feira, 23 de novembro, e irá até o domingo, dia 29.

         Patrocinado pela Petrobras, via Lei Rouanet, e pelo Novo Mundo, através da Lei Goyazes, o festival começa com uma exposição de artes plásticas na Galeria Marcos Caiado. A mostra 15 Anos, 15 Visões reúne 15 artistas e cartunistas que produziram obras especiais para retratar o festival. Entre os nomes selecionados para a mostra estão Siron Franco, Pitágoras, Marcelo Solá, MzK, Oscar F e Galvão, entre outros.

         O artista gráfico MzK é também quem assina toda a identidade visual desta 15ª edição do Noise. DJ e quadrinista, o paulista MzK é um artista que busca no rock, na pop arte e no surrealismo a inspiração para seus trabalhos. Fanzineiro, é fonte de inspiração para muitos quadrinistas brasileiros com seu estilo ao mesmo tempo obscuro e claríssimo.

        

        

Palestras e cinema

         Na seqüência da invasão do Noise, a próxima linguagem a ser contemplada é o cinema. Na terça-feira, dia 24, às 20 horas, será aberta no Goiânia Ouro uma mostra de cinema com os melhores (ou piores?) filmes já exibidos na Trash e ainda documentários sobre música e shows de bandas consagradas no meio independente.

         Antes disso, no Sebrae-GO, terão início as palestras e debates que compões a 2ª Conferência Brasil Central Music. Ao todo serão 11 mesas de palestras e debates e 4 Grupos de Trabalho integrados à Rede Música Brasil, ação promovida pela Funarte e MinC. São mais de 50 convidados, entre políticos, produtores, artistas, patrocinadores e ainda 10 agentes estrangeiros que discutirão até a sexta-feira, dia 27/11, temas como as leis de incentivo à cultura, inovações e novas possibilidades de acesso ao mercado de fonogramas, programas políticos e ações legislativas para a cultura e até mesmo a formação de um fórum global de jovens empreendedores em música.

 

         Shows

         E ainda tem, claro, a programação musical do Noise, que este ano também está completamente diferente e inovadora. Se antes a tradição apresentava três dias de música e shows intercalados em dois palcos no mesmo local, esta 15ª edição apresenta nada menos do que cinco dias de shows espalhados por vários cantos da cidade. Serão mais de 60 apresentações!

         A programação musical do 15º Goiânia Noise Festival começa na quarta-feira, 25/11, invadindo a cidade em três palcos diferentes e simultâneos. O Teatro Madre Esperança Garrido, do Colégio Santo Agostinho, recebe ninguém menos que o bruxo Hermeto Pascoal! E ainda os goianos Vida Seca e Juraíldes da Cruz, com entrada gratuita!! Ao mesmo tempo, será realizado no Fiction Club um show com as bandas Vamoz (PE), The Soundscapes (USA) e Motherfish (GO) e discotecagem com MzK, Carlos Eduardo Miranda e o inglês Paul Jones, da lendária gravadora Rough Trade. Já no Capim Pub, a onda é o punk-hardcore com as bandas Os Cabeloduro (DF), Leptospirose (SP), Ressonância Mórfica (GO), HC 137 (GO) e Señores (GO).

         Na quinta-feira, a rodada de shows em três palcos diferentes continua. O Bolshoi Pub recebe o baixista do Pato Fu, Ricardo Koctus, além de Detetives (SP) e Johnny Suxxx and the Fucking Boys (GO). No Metrópolis as atrações serão os paulistas do The Name, os candangos do Spatos Bicolores e os goianos do Bang Bang Babies. Enquanto no teatro do Goiânia Ouro os shows ficam por conta do sensacional encontro do rabequeiro pernambucano Siba com o violeiro Roberto Corrêa e ainda a banda goiana Cega Machado.

 

         Martim Cererê

         De sexta a domingo, o 15º Goiânia Noise Festival se instalará na verdadeira casa do rock de Goiânia. O Centro Cultural Martim Cererê receberá uma nova e inovadora estrutura com a Feira Brasil Central Music, praça de alimentação diferenciada e estandes interativos para abrigar as tradicionais três noitadas de música sem parar.

         Na programação, nomes como os norte-americanos do Supersuckers e do Dirty Projectors, os chilenos do Guizo, os argentinos do Los Lotus e os canadenses do GrimSkunk e Think About Life. Na seleção brasileira, Mercenárias (SP), Volver (PE), Cassim e Barbária (SC), Vivendo do Ócio (BA), Devotos (PE), Mini Box Lunar (AP), além dos sensacionais encontros do Móveis Coloniais de Acaju com o trombonista Bocato, do Porcas Borboletas com Paulo Patife Barnabé, Black Drawing Chalks com Chuck Hipólito (ex-Forgotten Boys) e do MQN com os Walverdes.

         Para completar a invasão, o domingo ganha ainda um palco extra no Centro Comunitário Goiânia Viva para uma programação totalmente voltada para o rap e o hip hop. Por lá passarão nomes como Linha Dura (MT), Face a Face (GO), Ivo Mamona (GO) e Eko (GO).

 

Compare Preços de: games, PS2, PS3, Nintendo, Wii, iPod no JáCotei.

Olha quem vem pra jantar…

rockefellers

Compare Preços de: games, PS2, PS3, Nintendo, Wii, iPod no JáCotei.

Oitavo VACA AMARELA – In a colorful haze…

Oitavo VACA AMARELA – In a colorful haze…

 

(melhor redigir agora, enquanto as lembranças ainda estão quentes e frescas na cabeça. Cadê as anotações? Êita, agora é entender essa letra trôpega e atravessada. Bão, vambora fazer logo esse texto. Solta um som, inspira e expira, the haze…)

purple_haze_2009_rezo_kaishauri

 

E chegou mais um Vaca Amarela, o festival da Fósforo Cultural que agita esse época quente do ano (esse ano tá mais quente que o normal) e dessa vez eles resolveram resolver de fazer a parte dos debates pré-festival associada com o SEBRAE e a Feira do Empreendedor. Uma iniciativa louvável, que levou novas pessoas às palestras (palestras estas que mais uma vez foram porcamente prestigiadas pelos roqueiros de atitude da cidade) e que me proporcionou a alegria de unir meus dois universos: o profissional e o rock. Isso porque a consultoria estava com um stand na Feira do Empreendedor, onde rolavam as palestras. Isso me gerou uma cena no mínimo engraçada: a cara do Marcelo “Demosul” quando nos encontramos na Feira. Eu todo empertigado em roupas profissionais e sérias, e ele todo…. normal. “Que diabo tu tá fazendo com essa roupa?” foi a pergunta que o Benigni de Londrina me presenteou, e até eu explicar o trabalho que me levava ali foram alguns segundos de estranhamento genuíno. E eu achando tudo lindo porque pela primeira vez estava num ambiente em que se encontravam dois dos meus vários universos paralelos, saía do stand driblando um cliente ou visitante e ia assistir uma palestra ou mesa de debates. Voltava e continuava os atendimentos. Muito loki!! Agora pensa se os dois dessem dinheiro! Hahahahahahahahah

 

(é verdade, encontrei o Marcelo! O que foi que ele disse sobre o show do Trilöbit de sexta? Putz, não anotei isso! Mas eu falei que para mim eles eram os headliners da noite, gosto mais que Canastra. Diacho, tenho que anotar tudo, depois não lembro. As coisas realmente não parecem mais as mesmas…)

 

Novamente o festival, como todo bom festival, nos presenteou com um monte de gente boa do país inteiro reunidos na terra pequizenta. Bom demais! Encontrar o Marcelo foi só o começo de uma jornada impiedosa pela diversão.

Isso porque eu só pude começar a participar de tudo no sábado, sendo que as coisas já estavam se agitando bem antes disso. Mas na quinta e na sexta do festival eu estava no meio do cerrado, a uns 400 km de Goiânia, com uma turma de uns 60 executivas e executivos de uma multi-nacional, fazendo-os sofrer numa trilha de trekking pelo meio do mato, num calor impiedoso e com pessoas que haviam acabado de aprender a olhar para uma bússola. Imagina o tanto que esse caminho foi maltratado pelas orientações desastrosas e desastradas, e a tudo isso eu observando, me divertindo e sendo pago. Cheguei no sábado, conferi o stand, chequei recados e clientes e fui para as palestras do Vaca. Estavam Márcio Jr. e José Flávio Jr. finalizando seu debate. Reconheci a sala da palestra porque quando estava subindo as escadas ouvi a voz de Pablo Capilé, fala forte, firme e articulada e a voz inconfundível. A sala estava bastante vazia, o que foi uma pena porque o assunto era interessante, as pessoas eram interessantes e a participação de quem estava de corpo presente também enriquecia bastante aquela matinê.

Uma coisa que eu não entendi quando cheguei lá foi a presença – novamente – do Zé Flávio, porque me lembro dele sempre macaqueando e detonando os festivais independentes, mas agora ele sempre está presente e participa com boas palestras e idéias interessantes. Descobri depois que ele usa Orkut igual o WanderSegundo, para ser um sujeito incômodo, para pentelhar e criar caso com suas opiniões contraditórias, mas que no mundo real é super tranqüilo e de boa. E o José Flávio já se integrou aos esforços independentes de corpo e alma, se tornando uma voz no meio entre o mundo real e a matrix, o que é sempre bastante contribuição.

 

(cara, a voz do Capilé ainda ressoa nos meus tímpanos. Essa névoa púrpura na minha cabeça…)

 

Quando entrei Capilé falava da importância dos músicos e artistas se organizar em associações cooperativas como os festivais já fizeram (ABRAFIN) e como as casas de shows estão se organizando pelo país. Isso porque enquanto “os festivais negociam no atacado, os músicos negociam no varejo” (sic) e isso gera óbvios prejuízos. Ao mencionar esse tema do associativismo, despertado foi Márcio Jr. lembrando que a ABRAFIN tem uma obrigação valiosa, que é a da fiscalização das condições dos festivais associados, tanto no que diz respeito às condições dos músicos, mas também com o respeito ao público. Sempre buscando evitar se tornar um pastiche do mainstream e suas regras excludentes, o que é uma preocupação genuína que até eu comentei uma vez no blog, num texto em que eu falava de “não perguntar sobre água pra peixe, porque ele está dentro dela” ou coisa parecida. Se eu achar aqui nos arquivos eu posto o link.

 

(não achei. Estou feliz ou triste?…)

 

Bem legal foi a colocação do José Flávio de que os festivais não são espaços democráticos. Concordo. Não são mesmo! Isso porque os festivais normalmente surgem porque o cara quer colocar a banda dele pra tocar ou as bandas que ele gosta, então em que momento do jogo a curadoria de algum festival precisaria se tornar algo que abrace a representatividade ou igualdade entre os artistas do país? Não, os festivais precisam manter seu aspecto de proximidade e contato com estilos e pessoas afins, isso mantém o romantismo do Kossa, por exemplo, que criou o Vaca Amarela para colocar a banda dele pra tocar. Se os festivais começam a querer ser “justos” então o troço desanda e vira reunião do PT.

E isso era sábado, né? Era. Então logo depois de bater papo bastante e terminar minhas atividades profissas no stand tinha rock pra acontecer no Martim Serelepe, e lá fui eu com meu cantil (90% de Logan e 8% de conhaque. 2% vazio, porque a mistura precisa respirar, infiel!!) e muita vontade de assistir bons shows. Cheguei no show do Fígado Killer. Frustrado porque tinha perdido as Girlie Hells (que não vi até hoje ao vivo. Ainda curioso sobre “Hot Lips” no palco) e meus chapas pantaneiros e malucos do Dimitri Pellz, além disso, não havia mais as prometidas e deliciantes cervejas Heineken, e tentaram me convencer que Bavária Premium fosse a mesma coisa. Esse amadorismo no assunto cerveja fode a paciência de quem comparece. Dei dois longos goles no cantil amigo, comprei minha dúzia de fichas de cerveja e fui ver os bêbados. Ai, meu fígado killer…

 

(ê cantilzinho companheiro…tudo fica meio engraçado, não sei o motivo…)

 

Olha, pra um monte de bebuns geriátricos, os caras são super ensaiados, o show é profissional. Mas a platéia estava vazia e os poucos que estavam lá prestigiando estavam frios, distantes, parados, apáticos, e nem as poses violentas e as provocações do Armando fizeram o povo reagir. Ao meu lado Pedro “Beborrível” Reator pergunta em alto e bom som pela japa dos peitinhos que tinha participado do show no Bar do Kuka, mas a guria não estava lá. Como não estava também a alma do Babu. Sim, porque eu sempre achei o Flávio um baixista quieto no Sangue Seco, e ele se movimenta. Babu está morto, abduzido, seus pés não se movem e o desgraçado ainda segura o rock sem sequer olhar pra baixo. Ou pro baixo. Interessante que sempre pensamos no Babu como um menino perturbado e feio (hahahahahahahahhaa), mas ele é um puta baixista.

O som do Fígado Killer é pobre? É batido e velhusco? As letras são machistas e burras? Armando dá a resposta pra tudo isso descarregando dois tiros de 12 nos joelhos dos inertes e chatos de plantão. Enfiam o já famoso cover do Motorhead e aí a casa agita. Mas fazer versão de Motorhead é foda. A banda vira “aquela que toca Motorhead”, porque o troço é gigantesco, maior que a existência, quase. Só que o Fígado Killer é tão safado que nem liga pra isso, e pra apimentar o caldo ainda faz música com o nome da banda mesmo, anunciando que tão foda quanto eles, só mesmo o Motorhead. Um sarro, velhinho!! Gole curto, anunciando outra cerveja.

 

(névoa se infiltrando, por todos os lados…)

 

vaca-snorks

Depois tinha Snorks (na foto), do Mato Grosso, com o inquieto Mikhail Favalessa nas guitarras. Um hardcore rápido, preciso, muito bem tocado e criativo. Aí fica parecendo que eu gosto desse tipo de som, o que não é verdade, acho muito anos 90 pra minha cabeça valvulada, mas já vi muita coisa ruim nesse estilo, e reconheço o trabalho bem feito dos Snorks. Além de reconhecer também o puta trabalho que Felipe está conduzindo de buscar uma maior integração na cena HC do país inteiro, nos moldes do Fora do Eixo, o que é uma ideia fantástica para fomentar a circulação das bandas no país. Um upgrade na brodagem de sempre! O show tava muito bom, mas o teatro estava insuportavelmente quente, uma coisa desumana mesmo, eu não tenho idade pra isso. Não agüentei muito tempo e precisei sair, já sentia que eu estava respirando o mesmo ar umas seis vezes e isso gera alguma tontura na minha cabeça grande. Ao vento, portanto. Diabo de lugar quente, sêo! Mais dois goles longos e um curto.

 

(um minuto enquanto eu beijo o céu… essa leveza na cabeça, a lembrança do sorriso… que diabo tá escrito aqui, jisuis?)

 

vaca-ressonacncia

Aí vinha o Ressonância Mórfica (na foto), a máquina de moer miolo da cidade. E não falhou no tiro. Além da destruição que eles conseguem fazer no palco, Marcão é um dos vocalistas mais carismáticos e enfezados que eu já vi, ele dá bronca no povo mesmo e o povo responde. E num esporro desses o povo saiu do chão e começou a abrir roda, timidamente no começo, mas logo pedaços de corpo já voejavam pelo salão, e como em todo show deles, logo tínhamos poças de sangue pelo chão. Gustavo, o homem que ama ser odiado no Orkut, assumiu as baquetas da locomotiva e faz um belo trabalho. Toca muito o meliante! Impressionante, porque quem o conhece não dá nada pelo sujeito, ele realmente parece ser um merda (hahahahahahaha), mas olha ele lá em cima moendo os couros e nem mudando a cara. Prometi que não ia elogiar muito porque ele pode ficar ainda mais insuportável, mas precisei ser justo, o cara é muito bom e encaixou direitinho na banda. Tentei fazer algumas fotos dele tocando enquanto entornava o cantil, mas algo não funcionou bem; a máquina, a fumaça nevoenta ou o fotógrafo? Mas coloquei aí como prova de atrevimento.

vaca-ressonacncia-2

 

(eu já tinha bebido no dia? Parece que sim, a letra tá uma miséria e a memória não acompanha)

 

Mas falar de velharia é falar do Anesthesia Brain (na foto), do fóssil Luiz Eduardo “Bacural”. A banda tem 15 anos ou mais de existência, mas se formos contar os dias úteis (que a banda realmente estava na ativa) esse tempo deve cair para uns quinze dias. Hahahahahahahahahhaha

vaca-anesthesia-2

Sem sacanagem, a banda é antigona, e muita gente foi ver porque não acreditava que o Bacural terminasse o show em pé, e ele realmente não conseguiu. Caiu no fim do show, tonto de calor e falta de ar. Coisa da idade, é dureza, eu sei como é. Mas com um som bruto daqueles, não dava pra esperar diferente. Eles estavam gravando um documentário no show, um registro histórico que é uma puta boa ideia, mas com uma platéia pequena daquelas e um pouco desanimada, o editor vai ter trabalho para equilibrar a pilha da banda com a da platéia. O mais curioso é que com mais de 15 anos de banda, Bacural ainda consegue errar o tempo das músicas. Mas depois conserta, emenda um pulo, grita com o povo e tudo vai em trilhos normais. Normais para uma banda como o Anesthesia, claro. Cara, vendo o show não dá pra fugir do pensamento “Jisuis, Bacural vai morrer!”, mas enfim, todo mundo vai (ele vai antes). Com essa tranqüilidade fui em busca de mais uma cerveja

 

(diacho, já tomei todas as fichas?? Não sei se subo ou se desço, se aproximo ou me afasto)

 

Meu cantil secava rapidamente minha mistura herética de bebidas inamistosas, que naquele calor faziam miséria nos meus poucos neurônios. Névoa…

Passei voando pelo bar e toquei os rumos para ver o show do Boddah Diciro. Sou fã. Nem devia mais falar desse povo. Sou suspeitíssimo, imparcial, paga-pau e nem gosto de grunge! Pensa! E estava lá secando uma lata (que calor desgraçado faz nesse lugar!) e pensando “O que eu ainda não falei do Boddah?”.

Fico olhando e o povo parece hipnotizado. A interação da banda com a platéia é comedida, quieta, pouca, mas o povo não nota a falta de comunicação, porque ela acontece direto nas emoções e nos neurônios (os meus em franco declínio a essa altura). O som é hipnótico mesmo, envolve, prende, algumas pessoas não respiravam.

A cena me vem à mente: Roma deserta, todos mortos, somente Boddah permanece. Caminhando embriagado pelos pesadelos, o povo morto. A trilha sonora do fim do mundo já está pronta, chama-se “Strange”.

 

(caraca, algo não funciona aqui. Onde eu anotei isso? O que quer que seja, aquela garota pôs um feitiço em mim…)

 

“Strange”. Esse é o Cd que quero guardar e mostrar para meus tubarõezinhos quando eles estiverem fuçando os discos, CDs e Mp3 do papaizão, procurando referências. E como bom Dino-punk vou dizer sincero: “Nos anos 90, uma época que eu já estava com preguiça de novidade, tinha um troço chamado grunge, sem ideologias, uma porcaria mesmo, vastíssima extensão de merda, mas que curiosa e estranhamente gerou um monte de banda boa. Vocês dois tem que ouvir isso aqui. Senta aí!” e enquanto eles arregalam os olhos eu dou mais um gole. Ou será que eu estava dando esse gole ali no teatro? Algo já começa a se misturar na cabeça. O olhar turva e eu escuto ao meu lado “Cara, eu caso com essa baterista!”, vindo de um Dino do rock e que estava tentando me dizer isso discretamente, já que a namorada estava ao lado dele. Outro senhor roqueiro respeitável responde rápido “Isso se eu não casar com ela antes” parecendo dois adolescentes priápicos e sedentos. Didia (na foto) de novo enlouquecendo os machos da área com sua dança percussiva entre baquetas e ritmos.

vaca-boddah

Samia grita “I see fire in your eeeeeeeeeeeeyes!” e eu sinto uma puta pancada na cabeça, e outra e mais um monte e quando entendo o porquê da surra é a insana Didia novamente. Por um segundo eu penso “Cara, esse é o som que eu queria fazer”, mas logo depois eu recupero o senso e vejo que definitivamente esse não é o som que eu quero fazer mesmo, mas fico muito feliz em ver que alguém está fazendo, e muito bem feito.

 

(saio do teatro, olho pela janela, não sei se é dia ou noite…)

 

Outra cerveja, dois goles compridos no cantil, já quase seco. Alguém precisa tomar alguma providência, estou ficando sem destilado. Diacho, já estou até delirando. Nessa andança em busca de algum rumo na vida eu encontro o Veget, do Mersault e a Máquina de escrever, uma das bandas mais inusitadas e legais que eu já tive o gosto de conhecer. Veget me conta que o Mersault está terminando de gravar um Cd no Loop do Pafúncio. Mas o que parece ser algo divertido pode se tornar burocrático num som com tantas camadas e texturas e dificuldades, e Veget já se mostra cansado com o processo, horários, compromissos, e isso tudo de algo que deveria ser só lazer. Veget me diz que o sintoma da pós-modernidade é não aceitar um rótulo e sofrer por isso. Eu fico olhando para a cara dele sentindo o conteúdo do cantil correndo pelos meus olhos embaçados e tentando entender, a anotação fica uma desgraça porque minha letra já está anormal e de alguma forma o que o Veget me diz parece fazer sentido. Não sei como, muito tempo se passou, mas na hora fez super sentido pra mim. Veget, se estiver lendo isso, me faz dois favores? Raspa essa merda desse bigodinho de gigolô de padaria e me explica esse troço da pós-modernidade, porque eu destilei tudo e não encontrei mais nada. Vamos de volta pro rock!

 

(eu anotei mesmo isso? Então eu sabia que a letra tava ruim… estou ofegante…)

 

Woolloonnggaabbaas. Sei que não se escreve assim, mas eu já estava vendo tudo assim meio leeeeentttttooooo e o nome gigantesco dessa banda com esse tanto de letra repetida é um desafio que eu já me rendi. Entro no teatro e aquilo era a coisa mais próxima da filial do inferno que eu já tinha visto. Alguém ao meu lado fala que o teatro está mais quente e abafado que “bunda de baterista de death”, a imagem é assustadora, porém precisa. Quente, quente pra diabo e quando eu finalmente consigo chegar atrás do palco o show já ia pros finalmentes.

Os fãs do SANGUE SECO são sempre suarentos, parecendo torcedores de hóquei que faltam dentes, mas no show do Wolongabas fica cheio de meninas lindas e cheirosas (acho que são cheirosas, sei lá se são mesmo, num calor daqueles!). E aí eles colocam 05 beldades no microfone para cometer “Justa causa”, uma música que eu acho das mais divertidas do set deles. 05 beldades, é para quem pode, não para quem quer, buana!

E aí, como se satanás conspirasse os Walla Boys chamam Pablo Kossa para o palco para cantar “Highway to hell” de vocês-sabem-quem. Quandefé (como dizem os goianos) eu me percebo no meio do palco, sendo empurrado pelo Lucas (parece que eu ia desligando a guitarra com minhas pernas ou coisa parecida, não sei, já estava definitivamente bêbado), abraçado ao Totonho, depois ao Luciano e urrando o refrão da música em meio a umas trezentas pessoas. Pode parecer exagero, mas naquela hora me senti no eixão no fim do dia, empurrado pra todo lado e gritando hard rock no talo. Se bem que no eixão eu não grito hard rock, mas… enfim, você entendeu. O final do show com AC/DC foi o fim apoteótico do festival! E olha que o festival não tinha acabado ainda.

 

(algo está sabotando minha cabeça… névoa colorida dos meus ódios)

 

E aí eu tentava achar o teatro do outro lado da rua quando o Pedro “Beborrível” Reator passa com o Aurélio (batera do Sangue Seco) debaixo do braço e me puxa também. Fomos dar uma entrevista na Rádio Fora do Eixo que estava fazendo cobertura ao vivo do festival. Mas enquanto falávamos empolgadíssimos, Pedro sai correndo com meu cantil. Não seria a primeira vez que ele entraria de sócio no conteúdo, mas pela primeira vez na vida ele levou o cantil vazio e trouxe cheio!! Pensa num sujeito feliz! Confesso que reconheci um Johnny Walker oito anos ali, mas não posso dar garantia porque eu já estava torto, então depois de uma provada de segurança eu entornei o troço com o Aurélio ajudando. Devo ter falado um monte de asneiras naquele microfone, porque só me lembro de rir pra diabo, e o Pedro sai e volta com o cantil cheio de novo!!! Eu tinha morrido e estava a caminho do céu etílico, só podia.

 

(um minuto enquanto beijo o céu novamente…)

 

Com essa trela toda não vi o Atomic Winter, o que foi uma droga porque estava curioso pra ver ao vivo.

E aí era MQN. Era pra ser a mesma coisa de sempre. Mas na hora que eu entrei no teatro eu ouvi o “Vamos mexer o rabo, pôrra” e achei falso; ou frio. Parecia forçado, como se fosse o texto obrigatório do show. Alguém joga cerveja no rotundo vocalista e ele faz beicinho, ué? Algo não estava indo bem. Na minha cabeça muita coisa não ia bem, porque eu estava em pandarecos, mas consegui chegar ao fundo do palco e me aboletar para consumir o cantil recém preenchido.

Mestre Gustavo continua com a mania porca de cuspir pra cima. Ô mania nojenta do cacete! Agora pensa, o teatro já tava parecendo a bunda de baterista que o sujeito tinha falado lá atrás, então imagina o que aconteceu com o MQN na casa? Eles foram engrenando, pegando gosto, o povo foi endoidando e estávamos novamente da ante-sala do Hades. Não rolou fogo no balcão, mas a platéia incendiou.

 

(afinal esse é o amanhã ou apenas o fim dos tempos? Me indago zêbado…)

 

Fabrício fala “ainda tem duas bandas boas hoje”, eu num esforço inumano faço as contas e imagino quem é a banda ruim então. Denis batendo cabeça com Gustavo é cênico, feérico, plástico, uma cena rock mesmo. Minha cabeça tenta pensar “Será isso um ritual de baixistas? Ou de quem tem muito cabelo?”, não me enquadro em nenhuma situação, me mantenho quieto. Outro golão.

O final do show com MQN sempre é para se lembrar até a velhice, e não foi diferente. Como eu disse, a mesma coisa de sempre.

E aí eu confesso que não tenho a menor ideia do porque não ter assistido Johnny Suxx (que perdeu as calças durante o show, arrancadas por Nobre) e Mugo. Lembro de ter conversado longamente com Jean e Mayra, do Dimitri Pellz, e ficar impressionado com os braços em sangue do doido baterista que sempre se arrebenta nos shows. Não a toa só chamo ele de Wolverine, é o próprio, e o sangue pingando. Aurélio também foi outro que conversei demais. Lembro de trocas generosas de elogios sobre inteligência e educação, lembro de alguém me perguntar sobre camisetas, lembro de alguém me contando que vivia uma crise naquele momento em seu relacionamento por achar que estava grávida (mas essa eu me lembro nitidamente quem é. E estou torcendo para tudo dar certo contigo, guria!), lembro de uma outra amiga falando de um lance antigo da vida dela, e depois eu lembro de estar no teatro suarento vendo Dead Fish.

 

(Agora não dá pra segurar, purple haaaaaze in my brain!!!! Ufa!)

 

A passagem de som foi uma viadagem. Me perdoem os fãs da banda, me perdoe o Hélio dos Anjos (usar um termo que ele registrou), mas foi uma viadagem só. E não era a banda, mas os roadies e quetais que estavam numa frescura desgraçada passando o som, cada milésimo de volta no volume, ponto no astral e olhar no futuro, tá entendendo? Não? Eu também não entendi nada, só achei viadinho pra caramba.

E aí para entrar no teatro foi um inferno, e não estou falando da porta onde o povo aglomerava e gritava antes do show do outro lado ter terminado (uma coisa meio irracional, né? Se o outro show não tinha acabado ia abrir a porta porque mesmo, jovem gafanhoto?), mas da entrada pelos fundos do teatro. Quase pensei que ia ver o show do Rod Stewart ou Tony Bennet, porque o troço tava tão enjoado pra entrar que eu imaginei que devia ter ido com meu terno preto. Mas sei lá, pode ser isso o verdadeiro profissionalismo, e se for então eu finalmente estou do lado dos anti-profissionalismo porque não é sensato querer muito de alguém nas condições porcas que eu já estava. E porque aquilo foi uma chatura sem fim para ver uma banda de rock.

Enfim, sabe a diferença entre uma banda ruim e uma banda que eu não gosto? Eu não sei a diferença e acho que ninguém sabe quando se trata da própria opinião. Eu conheci pouco de Dead Fish, não havia empolgado, mas a babaquice antes do show foi tão grande que eu entrei de má vontade. A impressão que me deu foi de uma banda mainstream se aproveitando dos festivais independentes, e isso não caiu bem pra mim. E lá vai outra lata pra dentro.

 

(tem um troço aqui nas anotações que eu realmente não estou entendendo, então faz de conta que eu disse algo que importa. Quando escrevi isso só eu e deus podíamos entender, agora só ele consegue. Então vai que é sua, Jeová!)

 

O Dead Fish devia ter visto o show do MQN ou do Wolongabas para ver como funciona a maluquice goiana. E não pensem que o show foi mal feito, porque não foi. As notas certas, o tempo preciso, os caras são profissionais pra caralho, isso é inegável, mas a platéia tem que se comportar como em visita de museu, não tem interação, e isso num show de HC é estranho. Não tem mosh, não tem moleque no palco, é um HC muito higiênico, certinho e abstêmio.

Fiquei encucado, é essa banda limpinha que os guris ouviram nos últimos anos? Eu devo estar do lado errado da mesa mesmo. Fui embora antes do fim, não gostei, achei sem graça.

 

(lembro dessa hora, eu na escada, o céu lá no céu e… putz, estou perdendo o senso)

 

Encontrei com a bela Noêmia, Pam, Maldonalle, Itarlan e rumamos para o Bar do Kuka para sorver mais algumas cervejas. Agora em ambiente respirável e sossegados ouvindo um som tranqüilo do Venom. Eu devia ter ido direto pra cama, pois ainda consegui a façanha ébria de perder meus documentos todos no bar só pra ficar doido no outro dia. Justiça seja feita, segunda-feira mesmo sem ter funcionamento no bar, Kuka abriu as portas para mim e me entregou os documentos até melhores do que quando eu havia perdido. Sujeito gente fina esse bigodudo.

 

(algo começa a fazer sentido, olho em volta perturbado)

 

Mas eu estou adiantando, ainda teve palestra no domingo e eu queria muito ir, pois estariam presentes meus amigos Daniel Zen, do Acre, e Claudão Pilha, da Obra de BH. Se não para assistir, ao menos para prosear e reencontrar essas figuras ímpares. Cheguei já no final da primeira mesa, quando consegui passar no stand e driblar alguns atendimentos que me esperavam. E eu lá estava em condição de dar conselho para alguém com o tanto que eu tinha bebido no dia anterior? Coerência, né?!

Daniel Zen falando me dá aquela sensação de “quando crescer quero ser igual esse cara”. Uma tranqüilidade, segurança, domínio do assunto, que torna um assunto árido como leis e quetais bastante interessante. Eu sempre me indago se o crescimento vai se tornar uma armadilha para o independente, mas é bom ver que tem gente muito melhor pensando nisso a sério.

Na hora do Claudão tudo vira aula. Ele fala sobre o estabelecimento dele “A Obra” que é uma lenda em Belo Horizonte. Didático, com slides, ensinando o monte de gente interessada em abrir casa de shows que compareceu. Acho que foi uma das mais cheias salas que aconteceram. Muito legal. Junto dele Rafael Bandeira, da Hey Ho Rock Bar, de Fortaleza. Enquanto Claudão faz um testemunho, apaixonado, quase fanático e engraçadíssimo, Rafael é ponderado, fala de marketing, aponta caminhos perigosos e armadilhas. Foi excelente como final de evento.

 

(foi só na manhã de segunda-feira que me lembrei do que conversei com Noêmia no Kuka. E aí me lembrei dos documentos!!! Prosa riquíssima, Nonô. Conte comigo sempre!)

 

Rock, consultoria, destilado, cerveja, rock, gentes boas do país todo, uma receita intensa de um fim de semana inesquecível. Foi assim que dessa vez um festival de rock me proporcionou a alegria de ver que minhas escolhas, mesmo que pareçam incoerentes para muitos, são extremamente felizes e me fazem muito bem. Que venham mais iniciativas do estilo, pois a Fósforo acertou muito dessa vez.

 

Agora Hendrix pode solar à vontade, minha cabeça já está de volta no lugar.

 

 

 

 

 

Há braços!

 

 

Eduardo Mesquita, O Inimigo do rei

eduardoinimigo@gmail.com

twitter - @eduardoinimigo

www.ogritodoinimigo.com

 

..

..

.

Compare Preços de: MP3, iPod, celulares, notebooks, câmeras no JáCotei.

Vaca Amarela - serviço de divulgação

E gratuito! Sim, é isso mesmo, com o Valter me acusando de requentar texto, com tanta viagem de trabalho, com correria da Feira do Empreendedor (vou estar lá no final de semana como expositor - a consultoria vai ter um stand lá!) e mais a prole que não pára, que tempo existe para criar texto novo, Vartão!?? Vai requentando e criando polêmica, vai divulgando texto pronto, e esse aqui foi enviado como divulgação pela ALine Mil, a voz soprana da Fósforo Cultural.

O festival tá muito bom, o sábado promete muito rock e as palestras vão ser interessantíssimas - mesmo eu só podendo ir no sábado e domingo - o que já confere ao Vaca um status diferenciado entre os festivais da cidade. Curioso achar que parecia que já tínhamos visto tudo que havia para ser visto, e aí surgem esses amalucados e conseguem inovar. Loki!

Segue o texto, serviço, foto, tudo mandado prontinho pra blogueiro sem tempo e preguiçoso. Jornalismo Google é isso aí!

 

há braços!

vaca_amarela_peq

Rock pelo meio ambiente

Edição 2009 do Festival Vaca Amarela traz discussão ambiental como principal tema

 

A 8ª edição do Festival Vaca Amarela acontece entre os dias 10 e 13 de setembro de 2009, sendo os shows realizados nos dias 11 e 12, no Centro Cultural Martim Cererê. Das atrações, estão como headliners as bandas Canastra (RJ) e Dead Fish (ES), além de outras bandas de peso como Mugo, Umbando, Johnny Suxxx ‘n the Fucking Boys e Trilöbit (PR). As já tradicionais palestras do Vaca Amarela este ano estão inseridas na Feira do Empreendedor, realizada pelo SEBRAE, no Centro de Cultura e Convenções de Goiânia, de 10 a 13 de setembro. Os temas variam entre produção cultural, cidadania, arte e comunicação. (Veja programação completa em anexo)

 

O dia 11 de setembro é o dia Nacional do Cerrado, sendo esse um dos motivos pelos quais a Fósforo escolheu tematizar o Vaca Amarela 2009, festival de música sempre pautado pela multiculturalidade e diversidade de sons. O debate sobre o meio ambiente e a sustentabilidade é o carro chefe desta edição. No dia 8 de agosto, no Aterro Sanitário de Goiânia, foi feito o plantio de 200 mudas, cedidas pela Comurg, no ato público de lançamento do festival. Nos dias 11 e 12 de setembro, a Agência Municipal do Meio Ambiente (Amma) irá fornecer aos visitantes cerca de 2 mil mudas durante os shows e também irá disponibilizar um caminhão de lixo reciclável, no Centro Cultural Martim Cererê, para auxiliar no processo de coleta seletiva no decorrer de todo o evento.

 

Serviço:

Vaca Amarela 2009

10 a 13 de setembro

Palestras de 10 a 13/09 no Centro de Cultura e Convenções (entrada franca)

Shows de 11 a 12/09 no Centro Cultural Martim Cererê (R$15 preço único)

Canastra, Dead Fish + 28 bandas

 

Fonte/Produtor:   Pablo Kossa – Fósforo Cultural – (62) 8445 7426

                           João Lucas – Fósforo Cultural – (62) 3626 1203

                  

Assessoria de Comunicação Fósforo Cultural

Aline Mil – (62) 9972 6396

alinemil@gmail.com

www.fosforocultural.com.br

dead-fish-foto-de-luringa-143-1_1(Dead Fish) 

 

PROGRAMAÇÃO COMPLETA - 8º VACA AMARELA – 2009

Palestras Brasil Central Music / Feira do Empreendedor
Local – Centro de Convenções
Entrada franca

10/09 – quinta – 14 horas
Artistas e imprensa – Relação, necessidade recíproca e interesse público

Sérgio Martins (SP) – está na Veja desde junho de 1999. Formado em Jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero (São Paulo), trabalhou na redação do jornal Notícias Populares, nas revistas BIZZ e Época e colaborou com os jornais Folha de S. Paulo, Estado de S. Paulo e Jornal da Tarde, além da revista americana Time.

Carlos Brandão (GO) – trabalha com cultura (música, composição, produção e administração de espaços culturais), há 42 anos. Começou em 1967, num espetáculo no Teatro Inacabado. Como letrista, tem mais de 200 músicas gravadas em Goiás, Minas Gerais, São Paulo, Brasília, Rio de Janeiro, Bruxelas e Paris. Participou ativamente do boom do rock em Goiás, quando dirigiu o Centro Cultural Martim Cererê, entre 1999 e 2006. Dirige o Centro Municipal de Cultura Goiânia Ouro e produz, desde 2008, 10 semanas de shows com o melhor da MPB em Goiás, o Canto de Ouro. Nas horas vagas, é jornalista, desde 1978.

 

10/09 – quinta – 17 horas
Comunicação independente: gerando negócios e promovendo a cidadania

Rodrigo Lariú (RJ) – comanda a gravadora independente midsummer madness desde 1989. Já lançou 25 CDs, 101 EPs de bandas brasileiras e estrangeiras. Produtor e diretor de TV há 10 anos, com várias colaborações para Rolling Stone, Folha de SP e O Globo, Lariú também é sócio fundador da Abrafin e coordenador de ações no coletivo Rede Rio Música.

Marielle Ramires (MT) – comunicóloga graduada em jornalismo pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), e atualmente é gestora do setor Negócios do instituto cultural Espaço Cubo. É também diretora de comunicação da Abrafin e Primeira Secretária da Associação de Produtores e Gestores Independentes de Cubo Card (Asprogic).
johnny_suxxx_por-lavia-ramirez(Johnny Suxxx)

11/09 – sexta – 14 horas
Música e quadrinhos – Interações, interdependência e contribuições mútuas

Galvão (SC/GO) –trabalha com quadrinhos e ilustrações desde 1995, já tendo
publicado em algumas das principais revistas e jornais do pais. Ganhou duas vezes o troféu HQMIX por melhor site de autor (2003 e 2004). Cartunista, chargista e quadrinista d’O Popular e Folha de S. Paulo

Pedro de Luna (RJ) – formado em Comunicação Social pela UFF com MBA em Gestão Cultural pela UCAM, trabalhou nas rádios Fluminense FM e Venenosa FM, foi editor do Jornal do Rock e do site SK8.com.br, além de colunista dos jornais International Magazine e Rock Press, do site da MTV, Punknet e revista OutraCoisa. Publicou tiras na revista Laboratório Pop e no Jornal do Brasil, do qual é editor do blog Quadrinhos. Coordena o coletivo Araribóia Rock e realiza o projeto Bandas Desenhadas, levando para as HQs o que acontece no mundo real da cultura independente.

12/09 – sábado – 14 horas
Festivais independentes – Erros de ontem, acertos de hoje, melhorias para amanhã

José Flávio Jr. (SP) –é jornalista e crítico musical. Atualmente ocupa o cargo de editor contribuinte de música da revista Bravo!. Também escreve para o caderno Ilustrada, da Folha de São Paulo, e assina a coluna LoveSounds, na revista LoveTeen, da Editora Abril. Integra o conselho artístico da Oi FM e produz o programa diário Guia Oi Sampa. Divide o podcast Qualquer Coisa com o jornalista Paulo Terron e o músico Max de Castro. Já trabalhou nas revistas BIZZ, Veja São Paulo e no site Usina do Som. Também publicou textos nas revistas Vip, Playboy, Rolling Stone, Capricho, Isto É Gente, Jungle Drums e para os cadernos Folhateen (Folha de São Paulo) e Caderno 2 (Estado de São Paulo).

Márcio Jr. (GO) – Produtor cultural, mestre em Comunicação pela UnB, criador da Monstro Discos e dos festivais Goiânia Noise e TRASH – Mostra Goiana de Filmes Independentes, vocalista da banda Mechanics.

13/09 – domingo – 14 horas
Cultura cidadã – Arte e protagonismo para um mundo melhor

Daniel Zen (AC) – bacharel em Direito pela UFAC e mestre em Relações Internacionais pela UFSC. Preside a Fundação de Cultura e Comunicação Elias Mansour, do Acre, os Conselhos Estaduais de Cultura e de Patrimônio Histórico e Cultural e o Fórum Nacional de Secretários e Dirigentes Estaduais de Cultura. Integra a rede de gestores do Circuito Fora do Eixo de Música Independente e é o atual Coordenador de Ação Política da Associação Brasileira de Festivais Independentes (Abrafin). Toca contrabaixo na banda Filomedusa.

Léo Pereira (GO) –jornalista, publicitário, poeta e dramaturgo. Autor de três peças teatrais: Poética Bancária, Traga-me Bombons Coloridos e A Doença do Acúmulo. Ativista cultural do movimento de poesia falada e teatro amador de Goiás nos anos 70 e 80. Autor e letrista do projeto poético-cênico-musical Terrorista da Palavra, gravado ao vivo no dia 11 de setembro de 2003, no Tearo Inacabado.

13/09 – domingo – 17 horas
Como abrir e gerir uma casa de shows

Rafael Bandeira (CE) – proprietário do Hey Ho Rock Bar-casa de shows com mais de 6 anos de existência. Um dos realizadores do Ponto.CE,um dos maiores festivais independentes do Ceará.Vice-presidente da Casas Associadas - Associação Brasileira de Casas de Shows Independentes. Produtor executivo das bandas Fossil e Encarne. Membro da RedeCEM - Rede Ceará de Música - coletivo que integra o Circuito Fora do Eixo.

Cláudio Pilha (MG) – proprietário da casa de shows A Obra em Belo Horizonte, organizador do festival Campeonato Mineiro de Surf e presidente da Casas Associadas - Associação Brasileira de Casas de Shows Independentes.

mugo-foto-150-fim(Mugo)

*Shows:
Centro Cultural Martim Cererê – Goiânia/GO
Ingressos– R$ 15 para cada dia

Sexta – 11/09

01:00 Canastra (RJ)

00:30 Umbando

00:00 Trilöbit (PR)

23:30 Gloom

23:00 Los Cociñeros (ARG)

22:30 Gilbertos Come Bacon (DF)

22:00 Technicolor

21:30 Pato com Laranja

21:00 Black Sonora (MG)

20:30 Madame Butterfly e os Burlescos

20:00 Dom Capaz (MG)

19:30 Chimpanzés de Gaveta

19:00 MC Dyskreto

18:30 Kabiotó

18:00 Novos Ébanos

17:30 ABERTURA DOS PORTÕES

 

 

Sábado – 12/09

01:00 Dead Fish (ES)

00:30 Mugo

00:00 Johnny Suxxx and the Fucking Boys

23:30 MQN

23:00 Atomic Winter

22:30 Woolloongabbas

22:00 Boddah Diciro (TO)

21:30 Anesthesia Brain

21:00 Ressonância Mórfica

20:30 Snorks (MT)

20:00 Fígado Killer

19:30 Dimitri Pellz (MS)

19:00 Girlie Hell

18:30 Novos Vinis (Anápolis-GO)

18:00 Just Another Fuck

17:30 ABERTURA DOS PORTÕES

 

APOIO:

 

Novo Mundo

Adress Hotel

Amma

Comurg

Agepel

Sebrae/GO

Lei Municipal de Incentivo à Cultura

Lei Goyazes

Governo de Minas Gerais

Prefeitura de Goiânia

Música Minas

República – A casa do rock

 

 

CERVEJA OFICIAL:

Cerveja Sol

 

FESTIVAL FILIADO À

Abrafin

 

MEMBRO DO:

Circuito Fora do Eixo

 

POSTOS DE VENDA:

Hocus Pocus

Ambiente Skate Shop

 

PROMOÇÃO:

Interativa

Reator

 


Fósforo Cultural
www.fosforocultural.com.br
contato@fosforocultural.com.br
fosforo.imprensa@gmail.com
(62) 9972 6396

 

 

 

Compare Preços de: MP3, iPod, celulares, notebooks, câmeras no JáCotei.

Aniversário do Bar do Kuka. Mais um ano de festa.

kuka016E mais uma vez o famoso Bar do Kuka (tão famoso que o nome verdadeiro do bar não é esse, mas todo mundo sabe de quem falamos) organiza seu aniversário com muito rock no meio da rua. Um mini-festival de altíssima qualidade que não cobra ingresso e traz bandas excelentes para celebrar mais um ano de existência desse canto rock´n roll do centro oeste.

Um bar como esse que não é comum na nossa cidade, na verdade é único mesmo. Um bar que tem a cara de quem gosta de rock e de sua cultura. Um bar que tem estilo, tradição e charme, a começar dos gente-boa que ficam node trás do balcão. Todo mundo que anda nesse ambiente rock aqui na cidade uma hora ou outra acaba tomando um cerva gelada por lá ou comendo um dos seus famosos e gigantescos pastéis, portanto a relação das pessoas com o bar é muito mais que clientes de um estabelecimento, existe uma relação de carinho. Todo mundo quer ser íntimo do Kuka (esse manequim de Halloween aí da foto. Figura finíssima!) ou do Ervilha, todo mundo quer ter uma história de embriaguez em seu balcão, todo mundo quer tocar nos eventos que rolam por lá, mas isso – naturalmente – não é para todo mundo. Agora o aniversário na rua, com as bandas e o montão de gente bacana, isso é para quem quer.

kukaOu melhor, isso também não é para quem quer, porque existia uma entrada esse ano, com algumas pessoas não conseguindo entrar, menores de idade eu presumo. A molecada tá pagando caro por não ter idade para ser preso ainda, e não podia ser diferente num evento que precisava da venda de cerveja para gerar algum numerário que cobrisse as despesas. Se cobriu, não sei, mas vendeu cerveja pra diabo e eu cumpri minha cota com galhardia.

Isso porque já tinha passado o dia inteiro bebendo rum com familiares, além de várias cervejas de marcas e temperaturas distintas, o que me fez chegar no Kuka levemente alcoolizado. Mas apenas levemente, o suficiente para rir de qualquer piada, mas sem perder de vista tudo que acontecia e todo mundo que chegava. E ainda poder contribuir com meu consumo etílico.

Cheguei e o Fígado Killer finalizava seu show, e depois o Luciano quis me matar porque eu tinha perdido o show, mas eu precisava colocar os tubarões na cama antes de sair, e só depois de cumprir meu papel de auxiliar do sono é que pude ir. Então cheguei e o show já agonizava seus últimos acordes. Não vi a mulher tirar a blusa e exibir belíssimos (segundo me contaram depois) seios durante o show, não vi a moto no palco, não vi o balcão cheio de canecas de cerveja, mas vi a empolgação da massa suarenta na frente do palco, vi a alegria no olhar do Japão (mostrando que tudo corria bem, apesar da falta de algumas documentações importantes. Hehe) e vi que novamente o Fígado tinha feito um show ducaralho. A banda se mostra cada vez mais respeitada não só pelas músicas ou pelo histórico dos dinos que a compõem, mas principalmente – ao meu ver – pelo cuidado com que faz seus shows. Não sobem simplesmente ao palco e tocam, eles pensam o show e fazem ser um evento legal para cada participante e a cada gig eles inovam e mostram mais safadeza e cinismo, ingredientes básicos da receita do FK.

Em busca de mais um cerveja encontro com centenas de pessoas de altíssimo quilate, que me seria leviano tentar lembrar aqui os nomes, já que me encontrava in purple haze naquele momento. Mas a velha boa sensação de estar em um lugar cheio de iguais, pessoas que gostam das mesmas tranqueiras que você, e de novo sentir-se em casa. E boas notícias chegando no vento, como a volta de uma banda referência na cidade, que retorna aos ensaios agora na quarta-feira próxima, com muita vontade de novos sons, mas o compromisso de registrar as músicas que fizeram história na cidade (Eduardo e Léo, eu agradeço por essa volta! E muita gente ainda vai agradecer. Sucesso!), trazendo a esperança de novos e excelentes shows. E outra coisa que vem se repetindo ultimamente nos shows da cidade: milhares de mulheres belíssimas! Como tem mulher bonita indo para show de rock nessa terra, caramba! Anima bastante e melhora o ambiente, saibam disso.

O Deceivers toca um som maldoso, todo mundo sabe, e com extremíssima competência, todo mundo sabe também. Não fizeram diferente, subiram e moeram a consciência das pessoas, no meu caso bem pouquinha ainda restando. Não prestei atenção ao show, confesso, estava entretido em prosas inesquecíveis e risadas gratificantes. Bons amigos, bons papos.

mandatory-suicide1A grande expectativa da noite era o “novo” show de revival do Mandatory Suicide, a velhusca banda dos anos 80/90 que ensinou metal de qualidade para muita gente. Ouvi muitos dizendo na hora do show “montei banda depois que vi esses caras tocando” e isso era fácil entender. Mesmo com um ensaio apenas – banda de velhos preguiçosos! – eles fizeram o show extremamente competente de sempre, e eu e mais alguns veteranos (como Mestre Gustavo descabelando-se ao meu lado) nos sentimos de novo na adolescência. Me vi na praça Universitária tentando entender de onde vinha aquele rock tão bom, com pegadas de Anthrax e um vocal poderoso.

É a mesma sensação. Mesmo o Baiocchi da guitarra (Leo) tocando com os filhos batendo cabeça ao lado do palco, ou quando vemos que o batera é um guri novinho que destrói de forma indecente os couros. É a mesma sensação. Mesmo não reconhecendo o Baiocchi do baixo (Rodrigo) por causa da sua aparente conversão à máfia, com barba aparada e cabelo cuidadosamente desorganizado. É a mesma sensação. O tempo passou, a idade chegou, mas o som da banda é o mesmo.

HxHx (também conhecido por Homero) é famoso por ser um sujeito difícil e complicado, mas eu mesmo nunca tive nenhum problema com o cara. Acho-o inclusive um dos bons sujeitos da terrinha, gosto mesmo dele, talvez porque eu também tenha a habilidade de despertar repulsa nas pessoas, vai saber! O fato é que o filhadaputa canta demais e a voz dele é o mais marcante no som do Mandatory, e mesmo com a velhice chegando, mesmo com o monte de cigarros que o idiota fumou antes e durante o show (não sabia que fumava tanto aquele nanico!), mesmo com a voz já sentindo todo esse peso, ainda assim soava como boa cachaça, macia, melíflua e agressiva.

O show é um escola de hinos, e infelizmente novamente eles assumem o sacrilégio de enfiar “Pain Forest” num medley, a música mais linda que eles já cometeram – ao lado de “Shout to the crowd”, o hino máximo da banda – que fica espremidinha e sumida junto de outras nem tão boas assim. Mesmo Hx explicando para mim lá do palco que novamente fariam aquilo, a sensação de frustração permaneceu. Pena. E aí anunciam um cover do Sabbath, momento em que fui buscar uma cerveja, porque não fui ali para ouvir Sabbath, faço isso em casa. Fui para ouvir Mandatory Suicide. E Hx aproveita para dar uma cagada geral nas mãozinhas felizes que se ergueram com o anúncio do cover, coisa que nós todos detestamos mesmo. Ainda que sabendo que um cover no show não cria problema, mas temos reservas.

O povo enlouquecido, a banda precisa e exata, o som perfeito e o show caminha para seu final. Engraçado é ver Hx com aquela carinha de HarryPotter, aquele bigodinho de festa junina (juro que deu vontade de subir com um algodão embebido em acetona e limpar a cara daquele menino. Bigode? Humpf!) mandando todo mundo no final tomar “nos meios dos cus”. E logo depois dessa fúria malévola, pegar sua mochilinha dos escoteiros e descer do palco. Escoteirozinho da boca suja, né? Vai pagar prenda no próximo acampamento, menino!

Boatos alimentam a lenda de que o Mandatory vai voltar de verdade, mas isso é aguardar para ver. Os caras da banda dizem que isso não vai acontecer, mas houve uma vez um verão em que disseram que não iam mais tocar também, e já se foram dois shows de comeback. Então quem sabe o que o tempo reserva?

Depois foi juntar os cacos, ouvir tudo que queria e não queria e ir embora. A noite tinha sido marcante, o evento de novo foi épico e mais um ano nós celebramos a honra de ter um bar desses na cidade. Que venham muitos ainda.

Parabéns aos freqüentadores do Bar do Kuka!

 

 

Há braços!

 

Eduardo Mesquita, O Inimigo do rei

eduardoinimigo@gmail.com

twitter - @eduardoinimigo (é assim que divulga isso?)

Compare Preços de: DVD, MP3, LCD, Plasma, HDTV, Home Theater no JáCotei.

1° Rock Churras/verdurada - obrigado Sedel

amigos-1211Sabe o que é melhor? É escrever sem ter condições. Sim, é isso mesmo. Eu saí para encontrar uma pessoa e quando vi já estava em casa, ligando para explicar coisas para quem não queria explicações. E nas veias um monte de cerveja, caipirinha e minha receita clássica de 90% de Logan e duas colheres de bom conhaque. Chapado, chapado…

Deixando claro para os meus contemporâneos: sabe aquelas festas que você ia em tempos de faculdade, nos anos 80,  em que nada estava estabelecido e tudo ia acontecendo ao ritmo do acontecido? Pois foi isso a churras/verdurada de hoje no Estúdio Sonoro. Um monte de bandas legais, um monte de pessoas legais, prosas animadas, ideias alimentadas e tudo isso fomentado através do orkut.

Então tem jeito de reunir gente do bem através do orkut? Tem demais, e o povo do Estúdio Sonoro, do Lucas Cão, tem parte importante em propiciar esse momento para todo mundo.

Claro que algumas bandas foram tontas de esquecer detalhes como pagar o ensaio, mas isso não inviabiliza a idéia fantástica alimentada pelo Sedel e estimulada pelo Estúdio Sonoro.

Olha que tem coisa acontecendo por aí, abram os olhos, porque hoje Pedro Orc, Gustavo, Guga, Segundo, O Inimigo do rei, Sedel, João Punk, Danny e um monte de gente de bem se reuniram e trocaram idéias, pensa se isso for freqüente!

Nenhum babaca filhadaputa virtual poderá criar intrigas acadêmicas entre quem faz e quem participa de verdade.

 

Loki!

 

 

 

Há braços!

 

Eduardo Mesquita, O Inimigo do rei

eduardoinimigo@gmail.com

 

Compare Preços de: MP3, iPod, celulares, notebooks, câmeras no JáCotei.

Republicando - Nouvelle Cuisine ou pastel de feira?

cuisineAlimentando essa chama de prosear sobre a “CENA” eu me toquei de que precisava dar um revival em um texto láááá de 2005 ou pouco mais que isso. Isso porque na época surgiu o equívoco de que eu - por defender organização e por defender o público - desmerecia ou desrespeitava outros momentos e locais de rock independente.

Sabemos que os dois elementos mais presentes na natureza são hidrogênio e burrice, então não era surpresa ver gente detonando o que eu dizia (ou “me detonando”, não sei) por não aceitar meus pontos de vista, ainda que não divergentes em sua totalidade. E para ilustrar essa dualidade, que é uma marca típica minha, eu escrevi sobre comida comparando um acepipe popular ao extremo com as delicadezas e refinamentos de uma escola francesa de gastronomia. Não sou um connoisseur com profundidade suficiente para discorrer sobre as particularidades de uma espuma de camarão ou coisa parecida, nem sequer do pastelzão de feira, mas me atrevi. Hoje temos o André Alemão escrevendo bem pra burro sobre comida, botecos e detalhes da vida udigrudi, então essa lacuna está devidamente preenchida. Curioso perceber que o texto antecipava algumas coisas que vieram a acontecer, como o crescimento da “CENA” no interior do estado, por exemplo.

Mas o motivo principal para trazer esse texto de volta está no assunto do próximo texto, a terceira parte do “Que Pôrra é CENA afinal de contas” que já vem sendo lançado ao longo da semana. Então esse texto antigo aqui tem algumas coisas que hoje estão datadas, claro, por ter sido escrito quatro anos atrás, mas o conceito era forte e permanece. Depois desse aqui vem a terceira e última (tenho quase certeza) parte das minhas digressões sobre a CENA.

Então sirvam-se dos velhos sabores…

P.S. - sim, eu de vez em quando tenho comportamentos stalinistas. hehe

pastel

Nouvelle Cuisine ou Pastel de Feira?

Comer!

Tive uma namorada na época de faculdade que dizia que “melhor que comer, só ser comida”, o que não deixava dúvidas sobre seu prazer tanto com o sexo, quanto com os prazeres da mesa. Comer realmente é uma experiência que merece tempo, dedicação e que sempre se define por escolhas, hábitos, prazeres, costumes, e muito de tudo isso por experimentações. Até porque “a fome é humilhante”, já disse o poeta. Mas se formos avançar no tema da comida, vamos ver que esses hábitos e prazeres por vezes colocam pessoas em flancos distintos. Não que precise ser assim.

A cozinha francesa, por exemplo, que na década de 70 gerou a “nouvelle cuisine” como contraponto aos banquetes e cardápios intermináveis, pantagruélicos e exagerados. Esse movimento, com seus defensores apaixonados, durou por uma década aproximadamente, quando no final dos anos 80 a cozinha francesa buscou um retorno às tradições, sem, no entanto, renunciar a alguns detalhes pertencentes a nouvelle cuisine. Facções diferentes que aprenderam uma com a outra. Integração.

 Em outro extremo temos o pastel, um lanche tipicamente brasileiro, que tem sua origem no “rolinho primavera” da culinária chinesa. Cabe comentar que o surgimento do pastel se deve aos imigrantes que precisavam se adaptar ao que existia de matéria prima no Brasil, e sua popularização se deve aos japoneses que aqui chegaram depois da Segunda Guerra Mundial. Precisando se passar por chineses, para driblar o preconceito e a discriminação, os japoneses em sua maioria foram responsáveis pelo surgimento de inúmeras pastelarias nas cidades onde aportaram. Daí para ocupar as pontas saborosas das feiras, foi um pulo.

Conheço pouco de cozinha francesa,  e certamente conheço com maior familiaridade as maravilhas de um pastel quente, sequinho e bem recheado, e guardo boas lembranças de tantas vezes que eu e Maurício Mota (vocal do HTS) pulamos o muro do Colégio Ateneu para comer pastel na feira logo pela manhã, com um farto copo de caldo de cana na banca da japonesa. Sem falar nas madrugadas terminadas ao redor do pastel inesquecível do Bar do Kuka, do tamanho de um travesseiro e regiamente recheado.

Isso tudo dito por que se existem públicos para tipos tão distintos de comida, acredito piamente que existem públicos para todos os tipos de eventos que surgem em qualquer cidade. Gente que quer um evento sem filas, com lugar para sentar, temperatura adequada e som de qualidade; e gente que quer um evento sem nenhuma preocupação com o ambiente, porque o que interessa é a dedicação, a entrega, a ideologia e o som cru, sujo e na estratosfera, por exemplo. Já falei isso em outros momentos, mas acredito que muitas vezes ainda vemos equívocos por justamente se acreditar que alguém que goste do prato francês não vai gostar do pastelzão de carne apimentado. Mas se o grande contribuinte do processo de crescimento é justamente o contato entre situações aparentemente contraditórias e antagônicas! Se é justamente quando nos confrontamos com o novo que podemos perceber oportunidades novas, novas situações, sabores, amores, quereres e gostares, porque proibir-se de conhecer algo ainda alheio à sua realidade?

Quando eu freqüentava o rock na cidade, muito tempo antes do Cantoria, muitos aqui ainda viviam longe de GoiâniaTown ou ainda usavam calções com personagens da Disney. Sou do tempo de ver Choque Cultural tocando na Praça Tamandaré, eu vi o Frenesi Precoce (que digievoluiu para o The Not Yet Famous Blues Band) tocando em “bar de burguês”, assisti show do Quarto Mundo no Clube Itanhangá com as famílias sentadas na grama fazendo piquenique, briguei para conseguir K7 pirata do 17º Sexo do finado Mário Martins, e estava no Teatro Goiânia quando o Restos da Cultura Proibida tocou e no meio do show a máquina de fumaça pegou fogo e o Lenine urinou em cima, para apagar as chamas. Eu sou desse tempo, como disse o cabeleira (ou trepadeira, quaresmeira, sei lá) sou um “Velho”, e nessas priscas eras não havia isso de “esse tipo de show” e “aquele tipo de show”. Eram poucas as oportunidades de se ver uma banda tocando, então sempre que havia era uma oportunidade imperdível, e todo mundo se conhecia e todo mundo ia no show de todas as bandas. Eu posso estar romantizando minhas lembranças, mas é assim que eu me lembro.

Semana passada eu fui a um show no CapimPub, do Afonsim (que era vocalista do Restos da Cultura Proibida), tido e reconhecido e valorizado como um lugar tosco e de shows toscos. Fantástico. Além das bandas que tocaram (Kundaline, Against, Ímpeto), aquele tanto de gente legal, conhecida, positiva, compõe a festa, faz a noite valer a pena. Isso porque valorizar esse ou aquele evento é só uma questão do foco que dirigimos nossa atenção, ou como diria a Gestalt-terapia, uma questão de “figura/fundo”.

A tosquice de um show desses é só no ambiente, ou seja, no exterior, na aparência. A garra e dedicação dos caras, a felicidade de estar junto de gente boa, a alegria de estar ali fazendo o seu som sem pretensão nenhuma, só alegria e tesão, tudo isso é o que compõe o evento tosco. Tem público para ele? Aos montes! Domingo é dia de CapimRock, e sempre tem público, mas existe ainda desinformação e preconceito. E convencionou-se acreditar que o preconceito existe por parte daqueles que acham que o evento tosco é porcaria, e por isso não vão, não apóiam e se limitam a falar mal. Mas surpreendentemente existe muito preconceito de muitos que são do ambiente, porque vêem o evento como algo para “iniciados”, e aqueles que não são “das antigas” são tratados como estranhos no ninho, com reserva, cautela e até distância. Nesse ponto um evento maior e um evento tosco são idênticos, porque quem não é da turma, fica de lado, no canto, sem espaço. Claro que isso não é comportamento padrão, mas de alguns destacados tacanhos que freqüentam e que existem em todas as tribos, que buscam preservar seus grupos porque tem medo do novo.

A grande maioria das pessoas envolvidas em rock independente ainda possui, felizmente, a coisa adolescida de querer contato, conversar, trocar idéias, rir junto, e isso faz os eventos, shows e festivais uma celebração muitas vezes maior do lado de fora dos portões do que dentro dos shows.

Por isso não existe o dilema entre o roquefort e o pastel de pequi (se bem que eu detesto pequi), porque existem públicos para todos os eventos. Se a questão principal é o foco dirigido ao evento podemos perceber que os shows toscos querem diversão, integração, uma ideologia que valoriza o ser humano acima de qualquer coisa. Os eventos maiores visam além ou acima disso tudo a remuneração dos envolvidos, lucratividade, contas pagas e profissionalismo. Não são antagônicos, mas complementares.

Como exemplo, vamos usar alguns itens de “Os dez mandamentos da nouvelle cuisine”, elaborados em 1973 por Henri Gault e Christian Millau, e aplicá-los aos eventos rock independente.

 nouvelle

1.  Não cozerás demais – muitas vezes manter cru, direto, básico é o que basta para garantir a integridade.

2.  Utilizarás produtos de qualidade – isso sempre, porque para o público que quer a banda barulhenta e destruidora tragam o HC-137, para os que querem técnica e poder de fogo usem o Macaco Bong, para quem quer alegria e dançar até cair coloquem o Shakemakers! Adequem-se ao seu público!

3.  Não serás sistematicamente modernista – inventar moda por inventar moda não se justifica. O simples é o mais certo, então “algumas tradições precisam ser mantidas” (Manifesto Antropofágico da Semana da Arte Moderna).

4.  Não usarás truques para melhorar tuas apresentações – seja verdadeiro com o que você pretende. Se pretende ganhar dinheiro, não existe motivo para sentir-se embaraçado com isso, afinal de contas as contas não deixam de chegar.

5.  Serás inventivo – criativo para buscar parcerias, novas formas de satisfazer seu público, maneiras de trazer bandas de cada vez mais longe, multiplicar seu nome e credibilidade por todos os cantos.

Se temos o interesse de que o rock perdure e tenha longevidade nas nossas cidades, precisamos parar de picuinhas entre grupos e igrejas dentro da cena rock, e ao invés disso buscar formas de fortalecer ainda mais o movimento, buscando novos públicos, reforçando a imagem de eventos seguros e divertidos, desenvolvendo uma imagem forte. Sexta feira, dia 10, conversava com o Léo Bigode no lançamento do CD do Rockefellers justamente sobre a necessidade de se levar o rock para as escolas, para o interior dos estados, realizar oficinas de formação de produtores de shows, oficinas de fanzines, porque existe uma multidão de adultos, jovens, adolescentes e pré-adolescentes que não sabem que existe rock independente, e que iam adorar saber isso. E passariam a freqüentar, montar bandas, criar fanzines, fazer shows, e o tsunami não pára!

No fim de tudo uma coisa tenho certeza, domingo 19 de março eu vou ao CapimPub, tem show do Sangue Seco, Rótula e Explícitos, com catuaba no palco e muitos amigos na platéia.

É dia de pastelzão quente e cheio!!

E tá todo mundo convidado.

 

 

 

 

Há braços!

Eduardo, O Inimigo do rei

eduardoinimigo@gmail.com

 

 

P.S. - lembre-se que esse texto é de 2005, então esse show foi dia 19 de março de 2005, maluco!

 

Compare Preços de: MP3, iPod, celulares, notebooks, câmeras no JáCotei.

Next Page →