
Por onde anda seu sorriso?
Leve.
Essa era a impressão de quem a via pela primeira vez. Ela era leve, suave. Se não fosse um rematado clichê alguém poderia dizer que ela era uma brisa, um vento fresco no verão ou alguma platitude boboca dessas. Mas a verdade é que a beleza e o encanto dela eram realmente gentileza pura.
E isso num corpo que era indecentemente chamativo, ou se me permitirem uma franqueza desconcertante, ela era gostosa pra caralho. Pernas firmes, bunda ousada, cintura afinando e engrossando nos lugares adequados, um par de peitos atrevidos e generosos e tudo isso encimado por um rosto lindíssimo de olhos expressivos e sorriso grande.
Mas ainda assim não se sentia como uma mulher provocante, mesmo sendo. Era leve. Era gentil, suave, delicada e isso soava ainda mais contraditório quando andava, rebolando as ancas, balançando os seios, enlouquecendo qualquer vivente. Sua leveza vinha de uma genuína pureza, ingenuidade mesmo.
Era quase besta de tão boa, de tão pueril, uma criança num corpo proibido pra menores. Não via maldade, não afastava ninguém, não repelia com grosseria e nunca entendia direito os comentários maliciosos que todos os homens do universo lhe dirigiam por causa das suas formas. Não só das formas, pois como já disse seus movimentos eram de uma harmonia demoníaca, fazendo parecer que aquele corpo todo havia sido criado para o sexo. Não havia nenhum sujeito que a visse entrando no salão de baile que não pensasse algo do genêro. Esfuziante em seus vestidos de tecidos molinho, seus saltos finos e elevados elegantemente cavalgados, suas voltas e piruetas no salão, e todos os presentes pensando em como seria cavalgar aquele corpo em uma cama, vê-la rebolando sob movimentos firmes, segurá-la pelos longos cabelos e assistir sua dança por trás… todos tinham certeza de que ela possuía a aerodinâmica perfeita para essa arte. Ah, tanta imaginação e ela aquela inocente.
Frequentava aquele salão de baile desde menininha ainda, época que ia com o avô dançar sambas, forrós e maxixes. E desde menininha havia se acostumado a dançar com todos que lhe pedissem “a próxima contradança”, pois era muito feio não aceitar os convites. Mesmo porque o salão – em sua época de infância e pré-adolescência – era frequentado pelos velhos jogadores de bocha e dominó que acompanhavam seu velho avô nas tarde enormes de aposentadoria compulsória da mina, todos antigos amigos de sucesso e infortúnio. Décadas respirando aquele pó perigoso, suor misturado com poeria de pedra e o que restava era uma aposentadoria tímida e dias que demoravam a acabar. O surgimento daquele salão de baile próximo da vila de operários foi um presente para todos, e ela como única neta daquele gentil viúvo o acompanhava todas as terças, quintas e sábados aos “pagodes”, como chamavam aquelas estudantadas festivas.
Tinha ritmo, muito. Desde cedo sempre fora uma parceira solicitada porque dançava muito bem, e era generosa parceira com os sujeitos de cadeira dura e pés enormes que massacravam seus dedões em meio aos rodopios do salão. Nunca criticava, nunca reclamava e deixava sempre a impressão de ser conduzida pelo salão, mesmo quando precisava praticamente ensinar os passos do bailado para o parceiro desajeitado. À medida que foi crescendo e seu corpo tomando formas, tornou-se parceira solicitada para outra turma, os mais novos como ela, que já viam ali a possibilidade de alguns momentos suarentos atrás da gafieira. Momentos que nunca aconteciam, primeiro por seu avô marcar cerradamente em cima e não permitir nenhum abusado que quisesse tirar a honra de sua neta. Depois da morte do velho mineiro ela já tinha consolidado um comportamento que lhe livrava de problemas, quase sempre.
Mas dançava com todos que a chamassem, e sorria linda e satisfeita, e fazia o sujeito sentir-se o mais belo dos príncipes na terra. Desdentados, suados, feios, mancos, cochos, tortos, esquisitos, todos tinham seu momento de glória ao atravessar o salão com aquela beldade nos braços. Para muitos realmente aquele era um momento de brilho único, coisa que para ela era rotineiro e comum, porque as noites na gafieira eram seus instantes de estrela. Sentia que aquelas ereções priápicas se esfregando em suas coxas firmes e sua púbis eram homenagens daqueles homens simples. Aqueles paus rijos, aquelas tentativas desajeitadas de beijar sua boca, as inevitáveis lambidas em seu pescoço e as fungadas exageradas em suas orelhas, todas homenagens. Formas que aqueles homens de todos os tipos e espécies encontravam para louvar sua deusa. Uma deusa realmente era o que se tornava naquelas noites dançantes.
No cotidiano rotineiro do dia-a-dia era uma moça normal, que chamava atenção pela sua formosura, mas que não era destaque em nada. Uma auxiliar de escritório escondida entre pilhas de análises financeiras e folhas de pagamento, com um uniforme que mutilava sua beleza e com pouco tempo para conversas e olhares. Sumia. Mas quando colocava seus vestidos de baile, amarrava sua sandália no tornozelo e se maquiava, ali era ela Marilyn segurando vestido, era Rita balançando os cabelos como Gilda, ela era brilho puro na noite pobre. E o salão da gafieira esperava sua chegada com ansiedade, a respiração cortada aguardando sua entrada, que sempre era triunfante.
Por isso não negava dança a ninguém. Sentia que lhes devia isso, por serem um público tão amantíssimo e fiel, por adorarem-na tanto, o mínimo que ela podia fazer era dividir seu brilho por alguns instantes com aqueles que nunca tinham um momento de brilho. E ela ficava assustada com esse pensamento, pessoas que levavam a vida inteira sendo sombra, escondidos em desvãos da vida, sendo levados por ondas e pancadas, sem nunca experimentar o aplauso, os olhares, a admiração e até mesmo a inveja. Como poderiam viver assim? Ela não buscava entender, era muito simplória nesse ponto. Apenas se indagava vez por outra.
Mas esse é um mundo violento, e a falta total de malícia daquela criatura ainda poderia lhe criar problemas, diziam os mais velhos e cuidadosos. Viam-na passar dançando com cada tipo de criatura pelo salão que se preocupavam, e davam-lhe conselhos. Mas conselhos quais entrariam naquela cabeça miúda? Ela não acreditava que alguém pudesse lhe desejar mal se tudo que fazia era dançar e dar atenção à todos que surgiam e pediam atenção e dança. Porque fazer mal a uma pessoa que é generosa? Em sua forma ingênua de ver o mundo, as pessoas somente lhe deveriam gratidão, afeto e carinho, talvez até uma maneira vaidosa de interpretar o mundo. Bem sabemos que a vaidade é a mãe de todos os pecados, como já disse uma bela mulher.
Um dia ela desapareceu. Não surgiu nas escadas da gafieira, não atravessou o salão com passos leves, não semeou sua suavidade pela gafieira. Acharam que poderia estar viajando, coisa inédita mas não impossível. Mas várias noites sumidas depois as pessoas começaram a se preocupar, logo depois foram se assustando, alguns chamaram a polícia, Linha Direta, Batista, deus, todos tentando de alguma forma ajudar sua diva desaparecida.
Seu corpo foi encontrado algumas semanas depois, com várias facadas, ossos quebrados e demais típicos sinais de violência pelo corpo. De forma nada original, descobriu-se que ela havia sido violentada. Bastante.
Algumas lendas surgiram depois de sua morte, uma delas dizia que sua alma doce ainda dançava no salão nas noites de chuva. Talvez a alma, já que o corpo não poderia fazer isso. Seus pés nunca foram encontrados para enterrar junto ao corpo.
Outra lenda dizia que era tão boa e generosa, que mesmo sendo agredida, ainda assim deve ter morrido com um sorriso no rosto. O sorriso lindo e vasto que tanto encantava as pessoas. Também não puderam nunca comprovar isso, sua cabeça também jamais foi encontrada.
Jazia no congelador. Não sorria, pelo contrário, seu rosto era uma mistura de dor, susto e desespero. Um ricto contraído de uma máscara que surpreendentemente estava feia. Mas para ele aquele era um troféu inestimável.
E todas as noites ele abria seu congelador, ligava seu aparelho de som, o disco escolhido, abria uma cerveja e dançava olhando para sua cabeça congelada. Finalmente ela seria somente dele. Para sempre.
Nas caixas de som o samba-canção fluía doce, leve…
“Tristeeeza, por favor vá embooora, minha alma que chooora, está vendo seu fim”
Eduardo Mesquita, O Inimigo do rei
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Sartre dizia que somos condenados à liberdade. E que a vida seria então uma centena de caminhos à nossa escolha; então escolheríamos um para seguir, e passaríamos o resto da vida nesse caminho lamentando os outros 99 caminhos que nunca iríamos sequer conhecer. A vida pode ser um lugar confortável, mas nem sempre é. Em momentos de escolha, decisão, rumos em que sentimos perder o controle (quanto tivemos controle?) alguns se embriagam, outros se revoltam e xingam, outros se lançam com brutalidade às coisas que lhes divertem, eu escrevo.
Sina ou prazer, confesso não saber, mas me tranquiliza e me aponta alguns sinais. Não tira a dor, mas aí seria querer demais de tão pouco talento em palavras. Enfim, em mais um momento de confusa disparada, eis que me lembro de um velho conto amargo. Sirvo sem gelo.
Cacos de um espelho
Só.
É estranho perceber que eu pareço sentenciado: tendo chegado ao mundo sem ninguém, devo seguir vivendo todos os meus segundos vividos sem ter ninguém. De hoje em diante, até sempre.
Sim, é claro que já me fiz acompanhar várias vezes. E não nego que muitas dessas vezes foi prazer o que eu julguei sentir, mas o sol muda de lugar e mais uma vez eu não vejo ninguém por perto. Ouço e tenho a firme convicção de que me engano, e que a multidão sempre me acompanha, mas infelizmente a convicção não é o que sinto. E o que sinto é só.
Espantoso é defender o ganha pão oferecendo colo e solução, carinho ou compreensão, e em intervalos regulares, e cada vez menos esporádicos e menores, eu não perceber que colo exista para mim.
E não entendam errado, pensando que porventura minhas companhias não fossem capazes de generosidade simples como um ombro, um toque, uma palavra terna. Nada disso. Sempre me encontrei rodeado por pessoas de imensa generosidade e ternura, sinceramente preocupadas e interessadas em mim e no meu bem viver. Não reside o mal aí, mas sim em mim próprio! Incapaz, inepto, estulto, obtuso e confuso; sempre mergulhado de forma tão intensa em meu egoísmo, que a generosidade ao meu redor termina por se perverter em insulto e ameaça a minha existência. A mão que afaga é só a que apedreja.
Eu, tão focado no íntimo do meu estômago, que toda candura e bondade humana se esfumaçam em gestos perdidos, dos quais não guardo sequer a lembrança. Perdem-se.
Tão maldita é minha sina que nada de bom a mim dirigido perpetua-se. Ao invés, se transfiguram em insinuações, maledicências, depravações e fuga.
“Sozinho, covarde, confuso e canalha.”
Fosse eu um produto, e tal seria o rótulo que se pregaria à minha fronte até quase a raiz dos ossos das têmporas, mascarando as expressões cínicas de um rosto incapaz de um olhar honestamente interessado.
E vivo meu texto bem ensaiado.
Acostumei-me a dizer não gostar do ser humano; e centenas de vezes fui ouvido afirmar minha crença de ser o ser humano um crasso erro natural ou divino, e nesses momentos reverbera sempre mais alto a fama de insano ou excêntrico, de divertido ou cruel, qualquer tarja que simplifique a convivência para as vítimas que me rodeiam. Fazem assim mais leve os seus fardos de terem que conviver com um estupor da minha laia.
Não gostar do ser humano é a mais grossa mentira, já que a verdade escondida talvez seja íntima e interior. Penso agora que realmente quem me desgosta a existência seja eu mesmo. Tenho meu demônio vivendo em minha pele, e meu maior inimigo me contempla do espelho, sorridente e sardônico. Diverte-se me vendo rodopiar qual uma cobaia roedora que nunca acha água ou saída de labirinto. E diverte-se porque seu prazer mais refinado não é minha dor, mas justamente minha completa ausência de sentires.
Sobra-me nenhum sentir no decorrer do dia do dia do dia do dia. Sem sentir dor, sem sentir amor, sem sentir frio, sem sentir desejo. Somente me permite sentir medo e fome.
Medo de ter que encarar tão temível adversário, mesmo sabendo da inevitabilidade disso; e que a toda manhã ele vai me observar, do seu anteparo de prata e vidro, vendo-me fenecer na sua frente, a pele perdendo o viço, a fronte perdendo a pelagem, o membro perdendo a rigidez… e ele me fita.
Por vezes penso que nem mesmo esse horrendo rival consegue crer numa existência tão amorfa e sem ritmo. Até para um ser crivado de ódio, feito de sombras e chamas, mesmo para ele, que já aparenta ter contemplado o que de podre pode existir em uma raça… mesmo ele não aceita a presença imunda que eu causo ao mundo.
Mas deixa-me sentir fome, o tirano. Uma necessidade nunca preenchida. Sempre esfaimado, com os dentes arreganhados num esgar desesperado, ansioso por algo que ocupe suas brechas pantagruélicas, seus vácuos silenciosos. Uma fome que já tentou ser saciada com literatura, com poesia, com rock, com sexo, com álcool, com cinismo, com maldade, mas que nada aplaca.
Uma fome que me faz sugar brilho e vitalidade de tudo quanto existe a minha volta; supernova terminal que não se contenta consigo.
Me deixa sentir só isso, e os caminhos nunca avançam, o primeiro passo não sai, a dança não começa, e tantos planos que patinam e naufragam. E espero o melhor momento para o próximo. Perpetuando essa chacina de sonhos inocentes, que por único pecado natural possuem o fato de serem sonhados por essa cabeça insone. Cabeça que espera o melhor momento para o que virá.
Só.
Espero só.
Sentado num auditório lotado de ninguéns, de espaços, conceituando uma rede como um amontoado de buracos amarrados; tentando subir aos telhados para poder urrar verdades; mas tetos não se alcançam e verdades não existem. Terminando plasmado numa calçada marcada por desejo, violência e caos.
Se até os palhaços se convertem em assassinos, e doces são sempre desculpas para o novo veneno, como acreditar no toque e no silêncio?
Vivo em barulho e rudeza, dando solavancos, arrancos e topadas nas quinas da casa. Vejo os olhares que me contemplam e não me compreendem por me julgar intenso e profundo. Pobres bestas que são! Que sequer percebem que não tenho estofo para a profundidade. Sou raso e insípido, sem cor nem sabor, um estudo num canto da folha de papel que sabe que não vai ser desenvolvido.
E fica no canto da folha.
Só.
Olhando para a poltrona na minha frente e tentando entender – sofrimento supremo – o que diabos eu deveria fazer! A velhacaria maior de querer que alguém decida e aponte o caminho, para poupar a angústia e a ansiedade de qualquer passo a ser tomado. Cansado de ser um personagem sem texto, mas sem malícia para seduzir o autor, e sem coragem para me mostrar na luz.
Escondido no canto escuro do palco, soltando leves sons de aprovação ou não, esperando que isso soe grandioso ou genial. Sendo patético como são patéticos os calhordas.
Parindo desculpas como aranhas, semeando racionalizações e esperando – desgraçadamente – que isso desperte elogios ou loas. Criando termos, movimentos, tiques e toques diferenciados, mas nunca deixando de ser o velho cavalinho de pau. Jogado num canto sujo do quarto, alimentando um sonho lisérgico de ser um puro sangue guerreiro. Um corcel fogoso em meio à batalha e aos trovões, galopando invencível em meio à chuva e aos tiros.
Tudo isso jogado num canto sujo do quarto de brinquedos.
Esquecido e só.
Tendo a convicção de ser o guia para uma elite de bárbaros, eivados de ideais e belas cores; bárbaros que não percebem que quem os guia não é um iluminado, um eleito, mas sim uma puta. Puta baixa, vulgar, com sandálias que não combinam e a maquiagem borrada pelas lágrimas. Chorando de vergonha, e ninguém vê.
Repelindo todo contato por se acreditar maravilhoso e visceral, capaz de encantar as deusas e as ninfas, a supra essência do melhor plano possível.
E na verdade repelindo a tudo isso por não ter estrutura que agüente qualquer sentimento que seja inesperado, forte ou doloroso.
Jurando-me inovador e criativo e revolucionário, sentado em minha cadeira de balanço, usando chinelos velhos.
E só.
Eduardo Mesquita, O Inimigo do rei
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Permitam-me o romantismo, o clichê e talvez até a pieguice, mas acredito que algumas histórias de amor, interrompidas por situações as mais diversas, apenas aguardam seu momento mais bonito. Nada que foi vivido pode ser apagado, tenho certeza, e muitas vezes aqueles que se amam precisam se afastar. Situações interferem, decisões que precisam ser tomadas.
E sabemos que o tempo é nosso rival, pois acaba, mas pode ser amigo, quando passa.
Aos que amam longe, paciência. Vocês ainda terão seu momento juntos.

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Uma breve história de amor
Terça feira. Dezenove horas e quinze minutos em um ônibus que sempre lotava. Ela ia embora pra casa, pensando em contas, problemas, compromissos, e mais um monte de coisas cinzas que compõem o roteiro do cotidiano. Teria muito que pensar, porque do Lago Sul até Taguatinga era uma viagem. Não que ela percebesse realmente, porque nascida e criada em Brasília, as distâncias da capital eram costumeiras para ela, e uma viagem de setenta e cinco minutos era somente mais uma volta pra casa.
Terça feira. Quente. Como essa cidade é seca e quente, especialmente nessa época do ano. Nariz que sangra, garganta que arranha, olhos que ardem, o cardápio era gigantesco para tantos sintomas advindos da sequidão do cerrado no planalto. Ela usava um vestido leve, de viscose, com listras coloridas e argolas metálicas nas alças; um vestidinho fresco, ótimo para usar nesses dias quentes. Mas de alguma forma aquele vestido aumentava muito o calor de qualquer ambiente que ela entrava porque realçava muito suas formas, suas ancas generosas, o contorno das coxas grossas e firmes transparecendo a cada feixe de luz que cruzava o tecido. Seus seios ousadamente defendidos por um decote provocante e as alças leves, finas, mostrando a alça de silicone do sutiã. E no caminho do escritório até o ponto de ônibus ela ouviu muitas cantadas, nem todas elegantes, nem todas ousadas, nem todas ouvíveis… seguiu com seu passo firme em seus altos saltos para seu ônibus pensando no tanto que estava desejável e deliciante.
Esse pensamento ainda a perseguia e volta e meia, entre os compromissos e dívidas, saltava a lembrança do tanto que era uma mulher linda, com um corpo perfeito e enlouquecedor, e ainda assim uma mulher desacompanhada. Não gostava dos namoricos tolos de fim de semana em botecos cheios e barulhentos com homens com hálito de cerveja e a preocupação irritante de mostrar as chaves do carro. Uma cidade com tantas distâncias provocava nos homens um comportamento no mínimo irritante: louvar o carro. Ela não tinha carro. “Ainda” como gostava de pensar. E por isso ainda pegava ônibus.
E era uma viagem que qualquer vivente de qualquer outra capital do país saberia ser longa e cansativa, mas para os nativos da capital federal, aquela distância era normal e aceitável. Seriam quarenta minutos até a Rodoviária, lá aguardariam alguns minutos até finalmente o ônibus estar sem espaços para nenhuma forma de vida que não pudesse se moldar a frestas; e finalmente a volta para o asfalto e a viagem final até Taguatinga.
Seria mais uma terça feira, mas depois de passar pela Ponte JK (a famosa Ponte dos Remédios) ela teve um calafrio. Pensou que fosse por causa do lago e toda a umidade daquela região, que era tão atípica naquela cidade e por isso achou tolo se arrepiar. Ela não poderia saber, mas aquilo era um presságio.
No próximo ponto ele entrou. Um normal como pode ser normal uma pessoa. Estava de terno marrom claro, usava botinas sociais – daquelas de Mr. Cat ou Mr. Foot – marrom escuras e uma pasta jogada no corpo, indo do ombro até a cintura em suas alças e fechos. A entrada dele gerou outro arrepio nela. Ele vinha também do trabalho. Um trabalho que ele odiava, cabe comentar, mas que pagava as contas e lhe mantinha vivo e com condições de convívio social, portanto aceitável. Ele ia para Samambaia, e costumeiramente desceria na Rodoviária e pegaria outro ônibus até sua casa.
Ele odiava o trabalho principalmente por saber que podia ser mais. Tanto estudo, tanta leitura, tanta perspicácia e a situação miserável de ser reduzido a mais um na hierarquia, com títulos, mas sem poder, com cargos mas sem dinheiro. E ele via tanta gente menos que ele conseguindo grandes conquistas e vitórias, e ele no dia-a-dia medíocre que era sua vida. Sofrível. Entrou no ônibus com o pensamento claro de que ia ser mais um aperto generalizado, pisões em seu pé, pessoas mal-cheirosas, empurrões, e a filial do inferno se configuraria naqueles próximos muitos minutos.
Ao entrar ele teve um sobressalto. Que mulher era aquela? Formas e contornos e tudo tão provocante, e ele tão tímido. Sempre fora um bobo tímido, com receio de se dirigir a pessoas estranhas, sem conseguir entabular uma conversa numa sala de espera ou em um elevador, e sempre ansioso por uma espontaneidade que ele não conseguia ter. E agora aquele mulherão ali. Mulherão pelas formas, porque na verdade eram os saltos que lhe davam altura, era pequenita. Ele sempre preferiu mulheres pequenas, baixinhas, achava-as mais sexy.
Ao entrar ele teve um sobressalto. Parecia que em um segundo ele tinha visto finalmente tudo que havia para ser visto e poderia ser embalsamado logo depois. Sensação esquisita. Ele avançou um pouco para dentro do ônibus. Ela estava de costas, amparada entre uma barra metálica vertical e a parede do ônibus, não viu a entrada ele, apesar do arrepio na sua coluna.
Ele entrou e por longos minutos tentou se aproximar dela, mas a multidão presente dentro do ônibus impedia a progressão e ele começou a se sentir inquieto e ansioso. Lentamente, mas de forma firme ele se aproximou dela. Era algo que ele não sabia de onde vinha, tamanha determinação e firmeza, e naquele instante ele se tornou outra criatura, presa que era daquela atração. O ar se enchia de feromônios e alguma inquietude se insinuava em todos os presentes. Ele finalmente se aproximou dela. Ela sentiu antes de ver, e olhou para trás.
Ele finalmente entendeu tudo. Aquele olhar, aqueles olhos claros, aquela expressão mezzo séria mezzo melancólica lhe deu a verdade que ele precisava. Ele se aproximou e encostou nas suas costas. Ela não se moveu, mas se assustou um pouco. Não era a primeira vez que era encochada em um ônibus, mas pela primeira vez passou pela sua cabeça a idéia de não afastar o sujeito atrás dela e sentiu um leve prazer de ser cobiçada. Se alguém lhe perguntasse, talvez não soubesse explicar o porque dessa sensação. Agora era físico também. E ela resolveu experimentar um pouco daquela fantasia tão comum em contos eróticos lidos em revistas e sites pelo mundo inteiro. Firmou o corpo e sustentou o peso do corpo masculino atrás dela.
O balanço do ônibus contribui muito para a situação. Além disso seu tamanho e seus saltos a colocavam na altura necessária para aquele esporte se desenvolver.
Ele não acreditava. Estava encochando uma mulher no ônibus, em dia claro ainda (horário de verão é terrível, não?) e ela estava deixando. Era um sonho virando realidade. Nunca tinha vivido nada tão perigoso ou ousado, e estava começando a ficar visivelmente empolgado com a situação.
Com a altura perfeitamente adaptada nos dois corpos, o balanço do ônibus acabou por gerar uma ereção quase priápica, perigosa e dolorosa. Com a altura perfeitamente adaptada e o balanço, o membro se alojou quase que delicadamente entre as nádegas dela.
Ela começava a ofegar. O louco tinha se encostado tanto nela que ela sentia perfeitamente as veias do seu pênis deliciosamente repousado em suas nádegas. Aquilo era loucura. O balanço do ônibus e a altura perfeitamente adaptada… benditos saltos altos.
A cada avanço do ônibus, a cada acelerada, a cada leve curva, a cada buraco no asfalto, quebra-mola, qualquer coisa era motivo para o suave movimento dos dois corpos, envolvidos que estavam naquela ânsia. Algumas pessoas ao redor já viam que não era somente o calor que fazia aqueles dois suarem tanto, mas sim uma aventura. Um outro sujeito se aproximou pela frente dela, talvez imaginando que poderia participar do enlace, mas o olhar furioso dela o deixou estático no lugar, e ali ele ficou admirando os dois se deliciando.
Ele já a puxava delicadamente, mas de forma firme, pela cintura, para auxiliar o que já se tornava visivelmente indecente, ofensivo à moral tacanha e aos bons costumes insuportáveis da sociedade medíocre. Eles estavam em outra dimensão.
Depois de alguns minutos onde ele puxara o corpo dela para o dele, sua mão corria na cintura dela, a outra mão apalpava seu ombro, com uma vontade maluca de mergulhar no decote, mas isso seria perder completamente o resto de compostura que tentavam manter até ali. O membro resfolegando em suas carnes, o tecido fino do terno e o tecido fino do vestido era tudo que separava tanta carne ansiosa.
O céu já escurecia lentamente, e ele não pôde se controlar. De forma gentil, ainda que com alguma brutalidade, ele correu os dedos pela costura do vestido dela, na parte de trás, correndo por toda a espinha dorsal dela. Com habilidade ele forçou alguns pontos da costura, e logo ele conseguiu romper e abrir uma fenda nas costas do vestido. Na parte baixa das costas, cabe comentar, e foi por esse buraco que ele imiscuiu sua mão ansiosa, e logo tocava o alto da renda da calcinha dela. Calcinha preta, como ele adorava e pelo pouco que ele vislumbrou ao se afastar um pouco do corpo dela, minúscula.
Ela sabia que tinha escolhido a calcinha certa naquele dia quando sentiu a mão firme dele rompendo os pontos da costura. Sabia que ele ia ficar louco com a visão que ele teria da renda no alto da calcinha, e também do diminuto tamanho da mesma. E como sua bunda ficava linda naquela calcinha!
Ele finalmente deu uma puxada na calcinha para cima, enfiando-a definitivamente na bunda mais linda que ele jamais tinha visto na sua vida. Só de saber que ele estava segurando a renda daquela calcinha pequenita ele já sentia calafrios, mas de imaginar que ela agora estava perfeitamente enterrada naquele corpo, isso era de enlouquecer.
Obviamente isso não era cena pública, pois eles estavam numa lateral do ônibus, e entre eles e a multidão espremida ainda existia uma pasta. Mas isso não dava exatamente privacidade, o que os ajudava um pouco era o fato da semi-escuridão que se pronunciava pelos céus da capital, aquele horário onde ainda não é noite, mas já não é mais dia.
A puxada na calcinha novamente a assustou. Não gostava da calcinha tão enterrada assim, mas aquele puxão a excitou definitivamente, se ainda existia algum resquício de bom senso naquele corpo, foi-se com a sensação do tecido sendo premido fortemente contra sua vulva. A umidade intensa.
Ele ousou um pouco mais, e ao ver as luzes da Rodoviária arrebentou mais alguns pontos do vestido. Ela chegou a se preocupar se teria roupas para chegar em casa, mas lembrou-se que o ponto do ônibus onde desceria era praticamente na porta da sua residência e isso a tranqüilizou. Não seria problema, e ela adorou que o agora “seu homem” tivesse feito isso. Homem ousado, o que quer ele toma. Hummmmm…
Ao chegar na Rodoviária, ele sabia que não desceria ali nem por decreto, e esperou o ônibus estacionar, mas ao invés de conversarem ou talvez se apresentarem, ficaram em silêncio, como dois animais à espreita de uma caça cobiçada. O ônibus se enchia além da capacidade que a física acharia verdadeira, e eles se apertaram ainda mais um pouco.
Nesse momento ele a surpreendeu novamente. Ela não acreditou naquilo quente que estava agora entre suas coxas. Como ele tinha coragem? Quente, muito quente, pulsava e parecia uma lâmina e ela apertava a lâmina com suas coxas firmes, ousando um tímido movimento.
Houve então uma queda de energia. Alguém poderia suspeitar de um complô universal para eles se deliciarem, mas se tratava apenas de uma sobrecarga natural na região elétrica onde estavam. O Shopping ao lado da Rodoviária estava experimentando suas luzes de natal pela primeira vez, e com isso havia derrubado todo o sistema. Junto com as luzes, foram-se as planilhas e pontos eletrônicos que os motoristas precisavam para seguir viagem, e o atraso era inevitável.
Ele se afastou e correu o dedo por dentro da calcinha, sentindo o calor daquelas nádegas e descendo o dedo com carinho e firmeza, pressionou seu corpo. Ela se assustou, ninguém nunca tinha lhe tocado daquela forma, naquele lugar!! Ele introduziu a ponta de seu dedo, e ela não pôde controlar um suspiro profundo, e inclinando-se para trás, gentilmente apoiou sua cabeça no peito de seu adorável violador.
Novamente ele se moveu e aproveitando a revolta da turba com a demora, retirou sua mão de dentro do vestido, movimentou delicadamente a fenda aberta no tecido e a pequenita calcinha, posicionou-se adequadamente e lentamente a penetrou. Ela novamente não acreditava, achando que ele a estava tomando, a possuindo, mas na verdade ela o possuía, violentamente. Ele não tinha escolha. Com a penetração eles realmente se despreocuparam em tentar disfarçar, mas o escuro da rodoviária e a multidão enfurecida os ajudavam a se manter ausentes de tudo.
Ele se movia devagar, muito carinhosamente, e já gemia de forma deliciosa e grave no ouvido dela. Ela apertava a mão dele com intensidade, mais que força.
O ônibus se moveu, eles não pararam. Foram vinte minutos até Taguatinga aparecer pelos vidros, eles evitavam o orgasmo como forma de estender aquele contato. Movendo-se lentamente, as coxas dela inevitavelmente molhadas pelo que eles criavam a cada movimento.
Ao chegar próximo do ponto onde ela deveria descer, ela gentilmente se moveu para frente, dando-lhe tempo de se recompor novamente. Em momento nenhum ela soltou a mão dele, mostrando de forma inequívoca que não o deixaria sair de perto dela.
Desceram e foram para a casa dela, rapidamente. O ônibus inteiro cheirava a sexo. Muitos se masturbavam, numa patética tentativa de discrição, e assim foi aquele coletivo até seu ponto final, provocado por um casal de insanos e apaixonados.
Eles passaram aquela noite juntos. Se amaram até o amanhecer, inicialmente com intensidade e até mesmo brutalidade em alguns momentos. Mas a cada intervalo e descanso e reinício amavam-se com mais ternura e carinho, seus corpos adquirindo intimidade, seus movimentos se harmonizando, seus corpos se misturando em suor e poros. O sol encontrou-os ainda aos beijos. Durante todo o tempo em que viveram juntos, pouco conversaram ocupados que estavam com beijos, sussurros e gemidos.
No portão ela perguntou o nome dele.
Não se viram mais.
Cinco anos se passaram.
Ela trabalha no mesmo escritório do Lago Sul. Agora é sócia-júnior. Continua bela, seu corpo ainda mais torneado, mas ainda uma mulher desacompanhada. Por estranha coincidência, novamente é uma terça feira e ela resolve ir a um shopping próximo. Precisa comprar charutos.
Ao entrar na tabacaria, novamente um arrepio. Depois de tantos anos, novamente a mesma sensação, e ela se lembra fisicamente de tudo que tinha vivido cinco anos atrás. No canto do lugar, atrás de um enorme caneca de café expresso, ele. Ela sentiu antes de ver, e viu antes de entrar na tabacaria. Ela entra, escolhe uma caixa de charutos e passa por ele.
Ele viu os saltos. Olhava pra baixo, envolvido na leitura de um mangá, e assim viu os saltos passando por ele, a lembrança física que nunca tinha o abandonado e novamente ele tem uma ereção. Ao levantar os olhos, ela.
Reconhecem-se em público, e depois de alguns segundos constrangidos riem do inusitado, comentam sobre o tanto tempo, ela senta e pede um suco. No chão do lugar existem folhas, uma decoração interessante e diferente, ela trabalhava há tanto tempo perto dali e nunca tinha entrado naquele lugar. Ele ia lá praticamente diariamente, para ler ou escrever. Riem do inusitado. Tão perto e sempre tão longe.
Ele se preocupa com os charutos e fica curioso se ela fuma, ou se é presente para algum marido ou noivo. Ela percebe nitidamente que ele se incomodou com a caixa e pergunta se aqueles eram verdadeiros Cohibas Robusto, porque ela não entendia de charutos. Ele aliviado por ela não fumar, informa que não entende nada de charutos, nunca havia fumado na vida, e ela comenta sobre o amigo secreto do escritório, vendo-o suspirar novamente. Ele pede outro café, e começa a sentir o efeito da cafeína, porque agora misturada com a adrenalina, tornara-se um composto explosivo e viciante. Os charutos não são para nenhum homem amado, só um colega de trabalho. A cafeína apresenta seus efeitos.
Conversam por horas. E saem juntos, finalmente apresentados. Ela tinha evoluído na carreira de forma brilhante, evitando concursos e se dedicando aos tribunais. Ele ainda tinha um trabalho que odiava e buscava mudar seus caminhos. Vão jantar, devoram-se antes do sol nascer novamente e descobrem que não podem ficar longe um do outro.
Os anos de descoberta, o namoro e o início da convivência, tudo muito lindo como dita o padrão, a não ser pela intensidade dos corpos que não era realmente normal, porque eles eram desesperados pelo sexo um do outro.
O primeiro livro dele é um sucesso. Narrava a história de um casal que se amava dentro de um ônibus, e isso já revelava que poderia ser um escritor menor, por não ter a criatividade suficiente para criar uma história, mas somente reportar um fato vivido. Mas ele havia conseguido transcrever aqueles poucos quarenta minutos em mais de trezentas páginas, e isso tinha sido um feito. Seu livro tinha o tanto de malícia, erotismo, ternura e tudo mais que aquele momento realmente havia tido e sido.
Tornara-se um sucesso. Viajava freqüentemente fazendo palestras e participando de conferências e feiras de livros, e algum tempo depois, novamente um outro livro seu se torna sucesso, e ele passa a assinar colunas em revistas e jornais de todo o país, se tornando uma perigosa unanimidade, não fosse seu jeito ainda um pouco arredio e sua falta de paciência com a humanidade de forma geral.
Eles se casam, finalmente e decidem se mudar para Arembepe. Compram uma casa na Barra do Jacuípe e se tornam locais, e com o tempo livre que possuem passam a conviver com a comunidade na Aldeia de Carantigui. Entre uma palestra, conferência, viagem, sempre retornam para sua casa na beira do oceano, para seus banhos intermináveis na Lagoa do Rio Capivara e logo são amigos dos habitantes da aldeia.
Ele torna-se rapidamente um ser praiano. Constantemente descalço, logo seus pés tornam-se largos e incapazes de entrar em sapato ou tênis, e pelo mundo todo o fato de usar terno com chinelos torna-se mais uma marca das suas excentricidades. Ela continua com hábitos da civilização, até porque sua convivência é maior, e constantemente se vê em seus saltos, que ele particularmente adora.
Os hippies da aldeia se acostumaram logo com aquele casal tão diferente, vivendo em dois mundos distintos, de um lado uma casa numa vila hippie, do outro o mundo das conferências e palestras. De um lado o eterno calção-semcamisa-descalço, do outro o terno. De um lado os biquinis minúsculos, do outro os terninhos e tailleurs elegantes. Numa casa cheia de vento e luz, onde ele passa a maior parte do seu dia, lendo, escrevendo e mantendo contato com o mundo via net. Finalmente ele fazia algo que amava. Os aldeões admiravam tanto amor e tanta dedicação de um para o outro, e as brincadeiras na praia, onde ela nadava com a habilidade de um tijolo, sempre correndo riscos e pulando nas ondas sem ter medo, como uma moleca travessa faria. E acostumaram-se a ver o casal durante todo o dia brincando nas ondas, correndo pelo areial entre os coqueiros. Sempre parecendo um casal de guris, recém enamorados, muito apaixonados. Ele nadava bem, e fazia isso todas as manhãs. Eram diferentes em muitas coisas e idênticos em várias outras.
Nos eventos onde ela era o centro das atenções, ele se comportava de forma tímida, como sempre havia sido. Acompanhava cuidadosamente cada passo dela, tamanho o seu ciúme, mas procurava não chamar atenção nem lhe causar embaraço. Era um tanto desastrado. Nos eventos onde ele era o centro ela fazia o mesmo. Vigiava-lhe os passos e as mulheres próximas, e tentava não chamar atenção, coisa que seu corpo não lhe permitia, posto que ainda era espetacular.
Um dia, ela iria para Holanda. Um grande evento e ela havia sido convidada a participar de uma das mesas debatedoras, mas infelizmente ele tinha suas atividades voluntárias na Aldeia e no Projeto Tamar, e dessa vez todas as datas coincidiram de forma definitiva. Ele não foi. Ela foi. E o avião caiu. Um acidente terrível, no meio do oceano, sem sobreviventes. Ele ficou arrasado.
Por muitos dias a Aldeia ficou triste, ela era muito querida por todos. Ele não saía de casa, e todos passavam por lá para tentar confortá-lo. Foi com alívio que os pescadores e artesões viram-no nadando numa manhã. Era terça feira. Ele estava voltando a viver.
Nunca mais teve outra mulher, e quando os amigos o provocavam ele dizia já ter tido tudo que era possível numa relação, e que agora já não queria mais nenhuma companhia. Sempre havia gostado de ficar sozinho, agora isso era uma determinação que não havia sido decidido por ele. Ele aceitava.
E lentamente ele voltou a suas atividades voluntárias na Aldeia e no Tamar. Lentamente ele foi voltando ao mundo. E várias tardes sentava-se na beira do mar, em uma cadeira de cordas e ficava olhando para o oceano, horas intermináveis até a maré subir e a arrebentação incomodá-lo. Então ele voltava para dentro de casa.
Nessas tardes era comum, os pescadores de volta pra casa, ou os meninos que passeavam durante o por do sol, ou mesmo os artesãos que voltavam da coleta de matéria prima, todos que passavam em frente à sua casa, sentavam-se um pouco e conversavam por muito tempo. Esses papos eram um evento diferente na Aldeia, e era comum as pessoas irem juntas encontrá-lo para bater papo.
A não ser nos dias que ele saía de casa com um abacaxi, um balde de gelo e uma garrafa de vodka. Todos sabiam que nas tardes de Waikiki ele não queria conversar. Abria o fundo do abacaxi cuidadosamente, mexia levemente com as paredes do abacaxi e colocava gelo, um pouco de açúcar e finalmente a vodka. Ficava por horas ali, esvaziava o abacaxi e preparava um novo Waikiki. Horas. E depois disso, cortava pacientemente o abacaxi encharcado de vodka e comia em pequenos pedaços. Nessas tardes e noites, ele chorava olhando para o mar. Bêbado e saudoso.
Muitos diziam que ele esperava a volta dela.
Mas ele já acreditava estar esperando a ida dele.
O Inimigo do rei - sabendo que ainda vai encontrá-la.
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só peço isso…
…só quero que digam por aí que eu não acreditava em nada. Nem ideais, nem sonhos, nem planos de dominação mundial. Nada. Contem que até escrever a palavra “crença” me era negado, por defeito genético. Façam ser verdade que nunca quis ter fé ou confiança em nada e nem em ninguém. Que passei os 90 minutos que me concederam sem entender o que estava acontecendo, e sem me esforçar por um segundo que fosse para tentar entender. Simplesmente entediado e sendo levado por tudo que nos leva.
Divulguem que eu não tinha partido político, time de futebol, prato preferido, cor da sorte, signo, RG, nada. Nenhum sinal que acuse a minha participação nessa ópera bufa, nessa comédia de erros mal ensaiada e sem platéia. Contem em cada batizado que eu não apresentava sinal de nascença, cicatriz de operação, marca de vacina, tatuagem, buraco de piercing ou de tiro, nada.
Espalhem para todos que quiserem ouvir que nunca tive prazer com o contato humano. Afirmem com veemência que a existência humana sempre foi para mim meramente tolerável. Quando muito uma resignação medíocre e cotidiana a qual me acostumei. Contem que fingia cada sorriso, cada olhar de interesse, porque nunca quis sorrir para ninguém, nem nunca tive interesse por nenhum assunto que saísse de boca humana. Repitam à exaustão que sempre pensei ser o bicho gente uma experiência mal sucedida, um erro de laboratório, uma gloriosa cagada divina.
Lembrem a todos que nunca fiz nada, não consegui nada, não alcancei pôrra nenhuma. Mas deixem claro que não foi sob o signo da derrota que atravessei a existência, mas sim sob o sinal inegável da nulidade, do cinza, do apático, do esquecível. Porque a derrota ainda inspira piedade, comiseração, dó, e nem assim quero ser guardado. Nem por pena.
Apaguem quaisquer lembranças de fato ocorrido, momento vivido, beijo dado, porrada sofrida, qualquer coisa que se assemelhe a uma expressão de emoção humana. Deletem da memória universal qualquer coisa que possa ser distinguível, extraordinário, pois que a ordinariedade seja a última poesia.
Não deixem nenhuma foto inteira, nenhuma fita de vídeo, nenhum registro ou evidência. Permitam que eu me torne uma vaga lembrança em algum canto pouco explorado e vagamente usado da memória de um velho que todos chamam de louco, mentiroso e que inventa histórias que ninguém acredita. Deixem que me desvaneça.
Peço que tenham a educação, a decência, a generosidade, o respeito de fazer somente isso no segundo seguinte à minha morte. Nenhuma elegia, nenhuma homenagem, nenhuma placa de bronze nem flores plásticas. Nada de coroas com letras soltas, com mensagens ilegíveis, com flores mal combinadas, de gente que nunca deu um telefonema para dizer se estava vivo – não que isso realmente importasse. Tenham a gentileza de evitar discursos ou aplausos, que seja um momento discreto, apagado, nulo… de preferência com chuva fina, cheiro de terra molhada e dois coveiros. Mais ninguém.
Peço isso porque estou cansado de responsabilidades. Estou enfarado da facilidade humana de me condenar a atitudes, ações, comportamentos, gestos, reações. Me desespera como é fácil, para cada um desses que atravessam a rua na faixa de pedestres, ditar normas e regras – desde que não seja dele a obrigação de seguir e cumprir as malditas normas.
Diz o ditado que a responsabilidade, o dever, isso é, certamente, a única coisa que nunca nos livramos, pois até mesmo no leito de morte, prestes a dar o último passo, ainda dizem ao moribundo que ele deve lutar pela vida… deve!!! E depois de perdida a luta obrigatória, as lembranças. A necessidade podre de que se guardem boas coisas, que se enevoem as brigas, as desavenças, as canalhices, a putaria que possa ter sido a vida daquela criatura que teve o bom senso e a elegância de desaparecer. O finado passa então, a ter o dever de ser bom, correto, probo, honesto e cheiroso.
E pro resto da vida do resto de vivos, permanecer puro e imaculado. Sem nódoas, sem manchas amarelas, sem cantos quebrados. Morto e condenado ao esforço perpétuo de se manter virgem.
Peço aos inimigos, me deixem ser um morto. Só isso… morto! Não me amarrem comentários ao pescoço para que eu não precise seguir a eternidade me comportando. Deixem-me ser o morto torto no caixão. Aquele que não passou pela porta e precisaram colocá-lo de pé. O nariz ainda sangra, as mãos rígidas, e ele de pé, cambaleante, amparado pela parentada, passando pela porta onde seu caixão não fez curva. Me deixem ser o morto que se gargalha de prazer pela ausência. Me deixem ser um morto realizado, completo, saciado. Que tudo tenha sido feito, realizado, alcançado, e que por isso mesmo, tudo possa ser esquecido. Esquecido, portanto livre.
Não me condenem a ser um fantasma opressor que não deixa os outros seguirem em frente. O fantasma amaldiçoado que pesa nos ombros, que dá um gosto ruim nas bocas, que assombra sem aparecer à noite. Que limita…
Só quero, então, que vocês digam que eu fui um calhorda, como eu realmente sou. Não a suprema expressão, mas a mais sincera tentativa fracassada de um rematado canalha. Que eu fui um covarde, como eu realmente sou. Que fui medíocre, invejoso, fedorento, preguiçoso, careca, feio, desarrumado e bêbado. Contem nos jardins de infância que eu comia de boca aberta e arrotava até com copo de água. Não permitam que criança nenhuma no mundo queira ser como eu “quando crescer”. Publiquem em letras coloridas por todos os jornais e muros do mundo que eu fui a pior versão de um show que nunca devia ter entrado em cartaz – a humanidade. Deixem claro que isso eu acreditava: que a humanidade não devia ter acontecido, que o mundo deveria ter sido entregue aos platelmintos, às formigas cabeçudas ou mesmo às moscas de banana, qualquer coisa, menos esse troço errado que é gente. Esse tipinho idiotizado que não consegue tomar sua sopa sem jogar sal no prato ao lado. Que não consegue olhar somente para o seu umbigo sujo e inflamado. Esse bichinho que não sabe se virar sozinho, que não consegue falar o que pensa, que não consegue ser honesto com o que sente, que não faz sem esperar retorno, que não é capaz de ser o que vive cuspindo que é, nos discursos e nas salas de espera – gente. Não consegue ser gente.
Ser humano. Essa comprovação definitiva e verdadeira de que Deus não tinha a menor noção do que estava fazendo, e que Einstein estava errado; ele joga dados com o universo SIM!! E algumas vezes…. snake eyes!
Quando eu estiver morto, joguem terra por cima e vão pra festa. Qualquer festa. Se insistirem em fazer algo meramente próximo de uma reverência (porque homenagem não merecemos e não permitirei), bebam um último chopp em meu nome e me deixem em paz.
Perdoem-me somente a arrogância, e me deixem em paz. Eu tenho certeza que vou deixar vocês em paz.
Só isso que eu peço.
Eduardo Mesquita, O Inimigo do rei
eduardoinimigo@gmail.com
.
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Divulguem que eu não tinha partido político, time de futebol, prato preferido, cor da sorte, signo, RG, nada. Nenhum sinal que acuse a minha participação nessa ópera bufa, nessa comédia de erros mal ensaiada e sem platéia. Contem em cada batizado que eu não apresentava sinal de nascença, cicatriz de operação, marca de vacina, tatuagem, buraco de piercing ou de tiro, nada.
Espalhem para todos que quiserem ouvir que nunca tive prazer com o contato humano. Afirmem com veemência que a existência humana sempre foi para mim meramente tolerável. Quando muito uma resignação medíocre e cotidiana a qual me acostumei. Contem que fingia cada sorriso, cada olhar de interesse, porque nunca quis sorrir para ninguém, nem nunca tive interesse por nenhum assunto que saísse de boca humana. Repitam à exaustão que sempre pensei ser o bicho gente uma experiência mal sucedida, um erro de laboratório, uma gloriosa cagada divina.
Lembrem a todos que nunca fiz nada, não consegui nada, não alcancei pôrra nenhuma. Mas deixem claro que não foi sob o signo da derrota que atravessei a existência, mas sim sob o sinal inegável da nulidade, do cinza, do apático, do esquecível. Porque a derrota ainda inspira piedade, comiseração, dó, e nem assim quero ser guardado. Nem por pena.
Apaguem quaisquer lembranças de fato ocorrido, momento vivido, beijo dado, porrada sofrida, qualquer coisa que se assemelhe a uma expressão de emoção humana. Deletem da memória universal qualquer coisa que possa ser distinguível, extraordinário, pois que a ordinariedade seja a última poesia.
Não deixem nenhuma foto inteira, nenhuma fita de vídeo, nenhum registro ou evidência. Permitam que eu me torne uma vaga lembrança em algum canto pouco explorado e vagamente usado da memória de um velho que todos chamam de louco, mentiroso e que inventa histórias que ninguém acredita. Deixem que me desvaneça.
Peço que tenham a educação, a decência, a generosidade, o respeito de fazer somente isso no segundo seguinte à minha morte. Nenhuma elegia, nenhuma homenagem, nenhuma placa de bronze nem flores plásticas. Nada de coroas com letras soltas, com mensagens ilegíveis, com flores mal combinadas, de gente que nunca deu um telefonema para dizer se estava vivo – não que isso realmente importasse. Tenham a gentileza de evitar discursos ou aplausos, que seja um momento discreto, apagado, nulo… de preferência com chuva fina, cheiro de terra molhada e dois coveiros. Mais ninguém.
Peço isso porque estou cansado de responsabilidades. Estou enfarado da facilidade humana de me condenar a atitudes, ações, comportamentos, gestos, reações. Me desespera como é fácil, para cada um desses que atravessam a rua na faixa de pedestres, ditar normas e regras – desde que não seja dele a obrigação de seguir e cumprir as malditas normas.
Diz o ditado que a responsabilidade, o dever, isso é, certamente, a única coisa que nunca nos livramos, pois até mesmo no leito de morte, prestes a dar o último passo, ainda dizem ao moribundo que ele deve lutar pela vida… deve!!! E depois de perdida a luta obrigatória, as lembranças. A necessidade podre de que se guardem boas coisas, que se enevoem as brigas, as desavenças, as canalhices, a putaria que possa ter sido a vida daquela criatura que teve o bom senso e a elegância de desaparecer. O finado passa então, a ter o dever de ser bom, correto, probo, honesto e cheiroso.
E pro resto da vida do resto de vivos, permanecer puro e imaculado. Sem nódoas, sem manchas amarelas, sem cantos quebrados. Morto e condenado ao esforço perpétuo de se manter virgem.
Peço aos inimigos, me deixem ser um morto. Só isso… morto! Não me amarrem comentários ao pescoço para que eu não precise seguir a eternidade me comportando. Deixem-me ser o morto torto no caixão. Aquele que não passou pela porta e precisaram colocá-lo de pé. O nariz ainda sangra, as mãos rígidas, e ele de pé, cambaleante, amparado pela parentada, passando pela porta onde seu caixão não fez curva. Me deixem ser o morto que se gargalha de prazer pela ausência. Me deixem ser um morto realizado, completo, saciado. Que tudo tenha sido feito, realizado, alcançado, e que por isso mesmo, tudo possa ser esquecido. Esquecido, portanto livre.
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Quando eu estiver morto, joguem terra por cima e vão pra festa. Qualquer festa. Se insistirem em fazer algo meramente próximo de uma reverência (porque homenagem não merecemos e não permitirei), bebam um último chopp em meu nome e me deixem em paz.
Perdoem-me somente a arrogância, e me deixem em paz. Eu tenho certeza que vou deixar vocês em paz.
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Eduardo Mesquita, O Inimigo do rei
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Zé do cão
Zé do cão.
José Apolinário Feitosa Batista de Jesus.
Ou Zé do cão.
Era matador, assassino profissional, pistoleiro, correu o Nordeste matando político, empresário, fazendeiro, padre, criança e qualquer um que tivesse sido encomendado para morrer. José Batista de Jesus virou Zé do cão. Não escolhia vítima nem contratante, e uma vez assumido um compromisso ele não parava por nada. Não fazia perguntas, não tinha dúvidas, não vacilava, somente seguia os passos (os últimos) dos encomendados e fazia o que tinha que fazer.
Quantas pessoas foram? Zé não sabe. Ninguém sabe. Foram muitas.
Virou lenda e os pais usavam seu nome pra espantar as crianças mal-criadas: “Obedece tua mãe, senão o Zé do cão vem pra te pegar!”
Zé do cão hoje vive no escuro. Sentado em um tamborete de vaqueiro, no canto do seu barraco na favela de Brasília Teimosa, no Recife. Não abre janela, não liga a luz, não ouve o rádio.
Zé sumiu das histórias há uns vinte anos. A policia perdeu-lhe o rastro e perdeu o interesse. Ninguém mais caçou Zé do cão, a não ser os fantasmas. Quantos fantasmas? Zé não sabe. Ninguém sabe. São muitos.
Zé vive no seu barraco e vive doente.
Sentado no seu tamborete de vaqueiro, no canto do seu barraco escuro, Zé do cão sempre tem um lenço encardido na mão esquerda e um velho 22 na mão direita. Usa o lenço pra esconder o “resolve” da outra mão. Nunca larga o 22.
A catarata come seus olhos. Quase cego de um olho e com muita dificuldade de visão no outro. Zé vive no escuro. Não liga a luz, não abre a janela e a catarata come seus olhos.
Uma convulsão que se repete come seu corpo. Em intervalos regulares, seu corpo treme com violência, seus membros crispam, seus olhos arregalam e Zé coloca a coronha do 22 na boca. Morde, com sua boca sem dentes. Morde, com suas gengivas, a coronha do 22. Parece sugar a coronha, como se buscasse algum resto de vida ou vitalidade na velha arma que findou tantas vidas. Como se na arma estivessem aprisionadas as almas dos muitos que matou. Os olhos arregalados.
A cena é triste. A coronha na boca desdentada, o corpo pequeno e magro crispado de dor sentado no tamborete de vaqueiro, os olhos sem brilho arregalados, naquele canto escuro de Brasília Teimosa.
A catarata come seus olhos. A convulsão come seu corpo. O medo come sua alma.
Zé vive com medo. Zé não larga o 22 porque está sempre pronto para um último e glorioso tiroteio. Um tiroteio que Zé sabe que não pode ganhar. Zé sabe que vai morrer.
Conta que vieram atrás dele pra um último contrato. Não sabe há quanto tempo foi, não tem memória pra isso. A pessoa lhe informou que era serviço fácil, matar e sair andando. Mas Zé já passou por isso vezes demais pra não saber que a polícia não tardaria a chegar. O contratante lhe informa que estava tudo arranjado com a polícia, que em caso de prisão ele deveria assinar no caderno amarelo para ser liberado. Que os guardas saberiam o que fazer quando ele assinasse no caderno amarelo. Que ele devia pedir para assinar seu nome no caderno amarelo. Zé fala isso com revolta, e grita nervoso “AMARELO!!!AMARELO!!!”, como se repetir a cor do caderno do arranjo lhe desse alguma satisfação ou lhe aliviasse alguma mazela.
Zé não lê nem escreve. A catarata já não deixava Zé ver nenhuma cor. Ele não poderia assinar no caderno amarelo. Zé não assinava. Zé não via amarelo.
Esboça um sorriso ao se lembrar das suas correrias pelos interiores e pelas fazendas. Comenta sobre a história de uma filha que nunca viu. Não sabe quem é ela, mas sente saudades. Saudades da filha que ele não conhece.
Zé ainda fala com alguma firmeza. Alguma coisa da velha pose do pistoleiro ainda sobrevive. Mas aí vem outra convulsão, e Zé arregala os olhos, crispa o corpo, chupa ansioso a coronha do velho 22, e a pose se vai.
Como José Batista de Jesus virou Zé do cão? Ele não conta a ninguém e ninguém sabe. Alguns dizem que ele matou toda a própria família, outros diziam que ele tinha feito um pacto ruim, com o tinhoso, o homem da cuia, o caboteiro. Mas a maioria não diz mais nada. Não se lembram de Zé do cão. Ele sumiu há muitos anos.
Zé está cercado. Ninguém se lembra dele e ele vive com medo, agarrado no seu velho 22. Zé sabe que 22 costuma “lencar”, mas é o que ele tem.
Não tem mais a pose, não tem mais o respeito, não tem mais a coragem. Só tem a catarata, as convulsões e o medo.
Zé tem muito medo.
E lá fora, os fantasmas fazem festa…
Eduardo Mesquita, O Inimigo do rei
eduardoinimigo@gmail.com
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Edimar Filho é o nome da criatura, mas talvez pelo nome você não o identifique tão facilmente. Edimar é um dos roadies, gerentes de palco, ou chame como quiser, mais rodados de GoiâniaTown. Além disso, é músico e o Rollin Chamas tem sido sua aventura mais recente por muito tempo. Edimar é um cara que entende muito de música, de equipamentos, de instrumentos, de palco, mas também entende muito de outra coisa: literatura.
O cara escreve, e escreve bem. Eu recebi um post dele no orkut falando sobre o blog que ele mantém já por um tempão, mas tanto por medo de ser vírus, quanto por enrolações típicas da minha pessoa, eu demorei uma vida e meia para visitar o blog do sujeito. Mas hoje eu finalmente resolvi me aventurar no link e fui até lá, e gostei bastante do que vi. Crônicas, contos, fantasia e realidade, provocações e inquietudes, coisas que nem parecem que passam pela alma desse sujeito bom.
Isso porque Edimar é sempre alto-astral, tranquilo, boa prosa, um cara muito do bem, e aí você lê uns textos dele que são melancólicos (pobre trompetista-ruim-de-solo. Sofri a solidão que ele parece sofrer), outros que são angustiados (cegos numa sala escura) e outros que são cínicos ao extremo. Como esse que eu vou colocar aqui abaixo, de um cinismo cortante, mas extremamente lúcido, como convém ao olhar afiado do jovem blogueiro.
Edimar, te agradeço por me apresentar o “uma mão suja a outra” - http://www.umamaosujaaoutra.blogspot.com/ - e vou me tornar um visitante regular. Então trata de ir produzindo outros textos dessa mesma linhagem nobre, eu vou consumir.
Divirtam-se com o que vem por aí, com vocês “O Cadastro” de Edimar Filho:
O numero do CPF não batia com o do cadastro.
- Tudo confere senhor, menos o numero do CPF.
- Então qual o problema? Está claro que foi apenas um erro de digitação. Olhe só! São apenas os últimos dois números invertidos. Trocaram o 5 e o 8 de lugar.
- Não posso fazer nada. Na verdade os outros dados conferidos não servem para nada. Tudo depende do numero do CPF.
- O que devo fazer então? Cancele esse cadastro e fazemos outro agora mesmo. Eis ai a solução!
- Infelizmente o funcionário que cancela os cadastros está de férias, e sua substituta está de licença maternidade. O que podemos fazer é abrir uma sindicância para apurar o seu caso. É só o que podemos fazer por agora.
- E como vou fazer sem o dinheiro da minha aposentadoria até que essa sindicância de resultado ou os funcionários voltarem ao trabalho?
- O que o senhor deve fazer não tenho como lhe informar, não é minha função.
- E quem pode me ajudar a resolver isso então?
- Infelizmente não sei. Mas o senhor pode pegar a fila do balcão de informações e pedir ajuda.
Após uma hora na fila…
- Boa tarde. Queria uma informação.
- Pois não. Qual o seu nome?
- José. José de Souza.
- Já tem cadastro em nosso sistema?
- Sim. É justamente sobre isso que quero saber. Estou tendo problemas com meu cadastro. A senhora pode conferir, por favor?
- Claro. Qual o seu numero de CPF?
Há braços!
Eduardo Mesquita, O Inimigo do rei
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Já estávamos cercados há três dias. Exatamente três dias e três noites sob fogo cerrado, chuva e desespero. Minha divisão ainda contava com aproximadamente 40 homens, mas com cada vez menos comida, menos esperança e munição. A água que bebíamos era a que vinha na chuva, e os cantis sujos ou capacetes suados que usávamos para coletar a água só aumentavam nossa situação lamentável, com o tanto de germes, vírus e bactérias que a situação podia gerar. A comida estragava, a pouca comida que ainda tínhamos e além da malária vinda com a água, a insolação dos inúmeros dias de marcha, agora também lidávamos com o botulismo da alimentação podre que nos restara.
Problemas de comunicação nos trouxeram até aquela posição vulnerável, nos fazendo entrar em território sitiado sem nos apercebermos disso. E o inimigo foi frio e cruel o suficiente para permitir nossa marcha por quase um dia inteiro, incomunicáveis, antes de nos apresentar a primeira saraivada de balas. Estávamos cercados, tínhamos entrado muito no território inimigo e pra piorar não conhecíamos a região, o que nos levou a entrar num vale muito largo e profundo.
Eles se encontravam numa posição superior, nos altos das ravinas, e nós éramos presas fáceis, sem poder avançar nem recuar, nos tornamos um amontoado de desesperados no meio de um campo de tiro. Éramos alvos.
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