Grito Inimigo - “Por onde anda seu sorriso?”

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Por onde anda seu sorriso?

 

 

 

 

Leve.

Essa era a impressão de quem a via pela primeira vez. Ela era leve, suave. Se não fosse um rematado clichê alguém poderia dizer que ela era uma brisa, um vento fresco no verão ou alguma platitude boboca dessas. Mas a verdade é que a beleza e o encanto dela eram realmente gentileza pura.

E isso num corpo que era indecentemente chamativo, ou se me permitirem uma franqueza desconcertante, ela era gostosa pra caralho. Pernas firmes, bunda ousada, cintura afinando e engrossando nos lugares adequados, um par de peitos atrevidos e generosos e tudo isso encimado por um rosto lindíssimo de olhos expressivos e sorriso grande.

Mas ainda assim não se sentia como uma mulher provocante, mesmo sendo. Era leve. Era gentil, suave, delicada e isso soava ainda mais contraditório quando andava, rebolando as ancas, balançando os seios, enlouquecendo qualquer vivente. Sua leveza vinha de uma genuína pureza, ingenuidade mesmo.

Era quase besta de tão boa, de tão pueril, uma criança num corpo proibido pra menores. Não via maldade, não afastava ninguém, não repelia com grosseria e nunca entendia direito os comentários maliciosos que todos os homens do universo lhe dirigiam por causa das suas formas. Não só das formas, pois como já disse seus movimentos eram de uma harmonia demoníaca, fazendo parecer que aquele corpo todo havia sido criado para o sexo. Não havia nenhum sujeito que a visse entrando no salão de baile que não pensasse algo do genêro. Esfuziante em seus vestidos de tecidos molinho, seus saltos finos e elevados elegantemente cavalgados, suas voltas e piruetas no salão, e todos os presentes pensando em como seria cavalgar aquele corpo em uma cama, vê-la rebolando sob movimentos firmes, segurá-la pelos longos cabelos e assistir sua dança por trás… todos tinham certeza de que ela possuía a aerodinâmica perfeita para essa arte. Ah, tanta imaginação e ela aquela inocente.

Frequentava aquele salão de baile desde menininha ainda, época que ia com o avô dançar sambas, forrós e maxixes. E desde menininha havia se acostumado a dançar com todos que lhe pedissem “a próxima contradança”, pois era muito feio não aceitar os convites. Mesmo porque o salão – em sua época de infância e pré-adolescência – era frequentado pelos velhos jogadores de bocha e dominó que acompanhavam seu velho avô nas tarde enormes de aposentadoria compulsória da mina, todos antigos amigos de sucesso e infortúnio. Décadas respirando aquele pó perigoso, suor misturado com poeria de pedra e o que restava era uma aposentadoria tímida e dias que demoravam a acabar. O surgimento daquele salão de baile próximo da vila de operários foi um presente para todos, e ela como única neta daquele gentil viúvo o acompanhava todas as terças, quintas e sábados aos “pagodes”, como chamavam aquelas estudantadas festivas.

Tinha ritmo, muito. Desde cedo sempre fora uma parceira solicitada porque dançava muito bem, e era generosa parceira com os sujeitos de cadeira dura e pés enormes que massacravam seus dedões em meio aos rodopios do salão. Nunca criticava, nunca reclamava e deixava sempre a impressão de ser conduzida pelo salão, mesmo quando precisava praticamente ensinar os passos do bailado para o parceiro desajeitado. À medida que foi crescendo e seu corpo tomando formas, tornou-se parceira solicitada para outra turma, os mais novos como ela, que já viam ali a possibilidade de alguns momentos suarentos atrás da gafieira. Momentos que nunca aconteciam, primeiro por seu avô marcar cerradamente em cima e não permitir nenhum abusado que quisesse tirar a honra de sua neta. Depois da morte do velho mineiro ela já tinha consolidado um comportamento que lhe livrava de problemas, quase sempre.

Mas dançava com todos que a chamassem, e sorria linda e satisfeita, e fazia o sujeito sentir-se o mais belo dos príncipes na terra. Desdentados, suados, feios, mancos, cochos, tortos, esquisitos, todos tinham seu momento de glória ao atravessar o salão com aquela beldade nos braços. Para muitos realmente aquele era um momento de brilho único, coisa que para ela era rotineiro e comum, porque as noites na gafieira eram seus instantes de estrela. Sentia que aquelas ereções priápicas se esfregando em suas coxas firmes e sua púbis eram homenagens daqueles homens simples. Aqueles paus rijos, aquelas tentativas desajeitadas de beijar sua boca, as inevitáveis lambidas em seu pescoço e as fungadas exageradas em suas orelhas, todas homenagens. Formas que aqueles homens de todos os tipos e espécies encontravam para louvar sua deusa. Uma deusa realmente era o que se tornava naquelas noites dançantes.

No cotidiano rotineiro do dia-a-dia era uma moça normal, que chamava atenção pela sua formosura, mas que não era destaque em nada. Uma auxiliar de escritório escondida entre pilhas de análises financeiras e folhas de pagamento, com um uniforme que mutilava sua beleza e com pouco tempo para conversas e olhares. Sumia. Mas quando colocava seus vestidos de baile, amarrava sua sandália no tornozelo e se maquiava, ali era ela Marilyn segurando vestido, era Rita balançando os cabelos como Gilda, ela era brilho puro na noite pobre. E o salão da gafieira esperava sua chegada com ansiedade, a respiração cortada aguardando sua entrada, que sempre era triunfante.

Por isso não negava dança a ninguém. Sentia que lhes devia isso, por serem um público tão amantíssimo e fiel, por adorarem-na tanto, o mínimo que ela podia fazer era dividir seu brilho por alguns instantes com aqueles que nunca tinham um momento de brilho. E ela ficava assustada com esse pensamento, pessoas que levavam a vida inteira sendo sombra, escondidos em desvãos da vida, sendo levados por ondas e pancadas, sem nunca experimentar o aplauso, os olhares, a admiração e até mesmo a inveja. Como poderiam viver assim? Ela não buscava entender, era muito simplória nesse ponto. Apenas se indagava vez por outra.

Mas esse é um mundo violento, e a falta total de malícia daquela criatura ainda poderia lhe criar problemas, diziam os mais velhos e cuidadosos. Viam-na passar dançando com cada tipo de criatura pelo salão que se preocupavam, e davam-lhe conselhos. Mas conselhos quais entrariam naquela cabeça miúda? Ela não acreditava que alguém pudesse lhe desejar mal se tudo que fazia era dançar e dar atenção à todos que surgiam e pediam atenção e dança. Porque fazer mal a uma pessoa que é generosa? Em sua forma ingênua de ver o mundo, as pessoas somente lhe deveriam gratidão, afeto e carinho, talvez até uma maneira vaidosa de interpretar o mundo. Bem sabemos que a vaidade é a mãe de todos os pecados, como já disse uma bela mulher.

Um dia ela desapareceu. Não surgiu nas escadas da gafieira, não atravessou o salão com passos leves, não semeou sua suavidade pela gafieira. Acharam que poderia estar viajando, coisa inédita mas não impossível. Mas várias noites sumidas depois as pessoas começaram a se preocupar, logo depois foram se assustando, alguns chamaram a polícia, Linha Direta, Batista, deus, todos tentando de alguma forma ajudar sua diva desaparecida.

Seu corpo foi encontrado algumas semanas depois, com várias facadas, ossos quebrados e demais típicos sinais de violência pelo corpo. De forma nada original, descobriu-se que ela havia sido violentada. Bastante.

Algumas lendas surgiram depois de sua morte, uma delas dizia que sua alma doce ainda dançava no salão nas noites de chuva. Talvez a alma, já que o corpo não poderia fazer isso. Seus pés nunca foram encontrados para enterrar junto ao corpo.

Outra lenda dizia que era tão boa e generosa, que mesmo sendo agredida, ainda assim deve ter morrido com um sorriso no rosto. O sorriso lindo e vasto que tanto encantava as pessoas. Também não puderam nunca comprovar isso, sua cabeça também jamais foi encontrada.

Jazia no congelador. Não sorria, pelo contrário, seu rosto era uma mistura de dor, susto e desespero. Um ricto contraído de uma máscara que surpreendentemente estava feia. Mas para ele aquele era um troféu inestimável.

E todas as noites ele abria seu congelador, ligava seu aparelho de som, o disco escolhido, abria uma cerveja e dançava olhando para sua cabeça congelada. Finalmente ela seria somente dele. Para sempre.

Nas caixas de som o samba-canção fluía doce, leve…

 

“Tristeeeza, por favor vá embooora, minha alma que chooora, está vendo seu fim”

 

 

 

 

Eduardo Mesquita, O Inimigo do rei

eduardoinimigo@gmail.com

www.ogritodoinimigo.com

 

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Vexame diplomático, político, histórico… escolha quem se interessar.

zelayaSim, é isso mesmo, estou falando de política externa. Não, eu não sou expert no assunto, mas qualquer babum de dois neurônios percebe que o país se meteu numa enrascada sem tamanho, principalmente por causa de sua política externa ideologizada, aparelhada e equivocada.

Sabe aquela frase velha que diz “Dize-me com quem tu andas, que eu te direi se quero ir com você”? Bom, não é bem assim, mas serve muito bem pra história em questão. O Itamaraty vem se metendo em sucessivas trapalhadas por causa de sua ideologia de criar um novo eixo político no mundo, de tentar conseguir de forma desesperada um assento definitivo no Conselho de Segurança da ONU, e por causa disso tudo vem se aliando a gente como o nanico doido Mahmoud Ahmadinejad que governa o Irã, a múmia eterna Kadhafi, ao velho Coma-andante Fidel Castro, aos ditadores africanos responsáveis por inúmeras chacinas e conflitos étnicos, ou seja, gente da pior espécie. Tudo isso orientado por uma visão passadista de mundo, em que ainda existam duelos ideológicos que justifiquem a falta de pragmatismo e foco.

A última pérola de nossa diplomacia foi abrigar essa besta completa que é Manuel Zelaya, um caudilho fracassado que sequer teve competência pra fazer do jeito certo as coisas erradas que pretendia. Sim, é isso mesmo! Porque o que o atarantado molusco chama de “governo golpista hondurenho” na verdade tem apoio do exército, da igreja, do supremo tribunal federal e da maioria da população. Que diabo de golpe é isso que todas as instituições apóiam, que o povo apóia e que tenta corrigir um desvio de conduta que tem jurisprudência e teria consequências nefastas e longevas.

O que estou dizendo, pra quem não seguiu o raciocínio, é que o governo do nervoso Micheletti não é o golpista. O que aconteceu em Honduras, tirando Zelaya da sua cama e expulsando-o do país não foi golpe. Pasmem!! O golpe foi tentado antes por Zelaya, ao tentar mudar a constituição para permitir eleições sucessivas e plebiscitos eternos para manutenção de seu plano de poder. Não “plano de governo”, porque isso parece não existir, mas sim “plano de poder” mesmo. Zelaya tentou rasgar a constituição e fazer o seu governo ser entronizado, mas houve resistência das instituições democráticas hondurenhas que o chutaram para fora do país. Agora o néscio cria essa situação toda e nossos embaixadores embarcam sorridentes por causa do desespero lulista de fazer história no mundo.

Êita desejo besta sêo! Agora temos um abacaxi do tamanho do chapéu do Zelaya pra descascar. O sujeito aboletou-se na nossa embaixada, incita a população à desobediência civil, conclama rebeliões popularescas (não populares! popularescas. é diferente!) e MANDA NA EMBAIXADA DO BRASIL. O sujeito virou dono da casa! Sua turma de quase uma centena de pessoas não-identificadas organiza a rotina da embaixada, define horários, gerencia o boteco. Quer prova boa do tamanho da lambança? Olha a foto! O cara tá dando entrevista com a bandeira brasileira ao fundo e ao lado, usando o brasão brazuca pra legitimar suas sandices.

E ele não está inaugurando nada, porque o que ele pretendia fazer em Honduras foi feito por Chavez na Venezuela, Evo na Bolívia e mais um monte de tiranetes na África. Usando eleições e plebiscitos manipulados por iniciativas demagógicas e populistas vão fraudando o sistema democrático de forma repetida e teimosa, conquistando espaço enquanto a intelligentzia do país torce o nariz para o cheiro do povo reunido nas praças. Tudo errado.

Nessas ondas Zelaya tentou e se deu mal. O país convulsionou e nossa política externa enfiou o pé na jaca na alta! Agora estamos entalados numa situação patética que não parece que vai melhorar. Dentro de alguns dias o governo hondurenho - golpista na visão do molusco, legítimo na visão de Honduras - vai cumprir o ultimato feito, romper relações com o Brasil transformando a embaixada em ex-embaixada e os diplomatas em ex-diplomatas. Esses serão expulsos do país ou poderão pedir licença para permanecer em Honduras, uma licença que pode ser facilmente negada e aí eles teriam que voltar pro Brasil. E Zelaya? Picaresco, farsante, cênico, teatral, vai se fazer de vítima e criar algum outro factóide que gere apoio incondicional à sua causa injusta.

Se até o ministro da defesa - Jobim, não o Tom, infelizmente, e sim o Nelson - precisou explicar que não vai mandar o exército brasileiro para invadir Honduras (olha o nível da besteirada que tem se dito esses dias!!!), avalie como esse passo foi desastrado.

Senhoras e senhores, os malucos tomaram conta do hospício. E sabe quem são os responsáveis? Gente acomodada como eu e você.

 

 

 

Há braços!

 

Eduardo Mesquita, O Inimigo do rei

eduardoinimigo@gmail.com

twitter - @eduardoinimigo

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Grito do Inimigo - só peço isso…

só peço isso…

 

    …só quero que digam por aí que eu não acreditava em nada. Nem ideais, nem sonhos, nem planos de dominação mundial. Nada. Contem que até escrever a palavra “crença” me era negado, por defeito genético. Façam ser verdade que nunca quis ter fé ou confiança em nada e nem em ninguém. Que passei os 90 minutos que me concederam sem entender o que estava acontecendo, e sem me esforçar por um segundo que fosse para tentar entender. Simplesmente entediado e sendo levado por tudo que nos leva.

    Divulguem que eu não tinha partido político, time de futebol, prato preferido, cor da sorte, signo, RG, nada. Nenhum sinal que acuse a minha participação nessa ópera bufa, nessa comédia de erros mal ensaiada e sem platéia. Contem em cada batizado que eu não apresentava sinal de nascença, cicatriz de operação, marca de vacina, tatuagem, buraco de piercing ou de tiro, nada.

    Espalhem para todos que quiserem ouvir que nunca tive prazer com o contato humano. Afirmem com veemência que a existência humana sempre foi para mim meramente tolerável. Quando muito uma resignação medíocre e cotidiana a qual me acostumei. Contem que fingia cada sorriso, cada olhar de interesse, porque nunca quis sorrir para ninguém, nem nunca tive interesse por nenhum assunto que saísse de boca humana. Repitam à exaustão que sempre pensei ser o bicho gente uma experiência mal sucedida, um erro de laboratório, uma gloriosa cagada divina.

    Lembrem a todos que nunca fiz nada, não consegui nada, não alcancei pôrra nenhuma. Mas deixem claro que não foi sob o signo da derrota que atravessei a existência, mas sim sob o sinal inegável da nulidade, do cinza, do apático, do esquecível. Porque a derrota ainda inspira piedade, comiseração, dó, e nem assim quero ser guardado. Nem por pena.

    Apaguem quaisquer lembranças de fato ocorrido, momento vivido, beijo dado, porrada sofrida, qualquer coisa que se assemelhe a uma expressão de emoção humana. Deletem da memória universal qualquer coisa que possa ser distinguível, extraordinário, pois que a ordinariedade seja a última poesia.

    Não deixem nenhuma foto inteira, nenhuma fita de vídeo, nenhum registro ou evidência. Permitam que eu me torne uma vaga lembrança em algum canto pouco explorado e vagamente usado da memória de um velho que todos chamam de louco, mentiroso e que inventa histórias que ninguém acredita. Deixem que me desvaneça.

    Peço que tenham a educação, a decência, a generosidade, o respeito de fazer somente isso no segundo seguinte à minha morte. Nenhuma elegia, nenhuma homenagem, nenhuma placa de bronze nem flores plásticas. Nada de coroas com letras soltas, com mensagens ilegíveis, com flores mal combinadas, de gente que nunca deu um telefonema para dizer se estava vivo – não que isso realmente importasse. Tenham a gentileza de evitar discursos ou aplausos, que seja um momento discreto, apagado, nulo… de preferência com chuva fina, cheiro de terra molhada e dois coveiros. Mais ninguém.

    Peço isso porque estou cansado de responsabilidades. Estou enfarado da facilidade humana de me condenar a atitudes, ações, comportamentos, gestos, reações. Me desespera como é fácil, para cada um desses que atravessam a rua na faixa de pedestres, ditar normas e regras – desde que não seja dele a obrigação de seguir e cumprir as malditas normas.

    Diz o ditado que a responsabilidade, o dever, isso é, certamente, a única coisa que nunca nos livramos, pois até mesmo no leito de morte, prestes a dar o último passo, ainda dizem ao moribundo que ele deve lutar pela vida… deve!!! E depois de perdida a luta obrigatória, as lembranças. A necessidade podre de que se guardem boas coisas, que se enevoem as brigas, as desavenças, as canalhices, a putaria que possa ter sido a vida daquela criatura que teve o bom senso e a elegância de desaparecer. O finado passa então, a ter o dever de ser bom, correto, probo, honesto e cheiroso.

    E pro resto da vida do resto de vivos, permanecer puro e imaculado. Sem nódoas, sem manchas amarelas, sem cantos quebrados. Morto e condenado ao esforço perpétuo de se manter virgem.

    Peço aos inimigos, me deixem ser um morto. Só isso… morto! Não me amarrem comentários ao pescoço para que eu não precise seguir a eternidade me comportando. Deixem-me ser o morto torto no caixão. Aquele que não passou pela porta e precisaram colocá-lo de pé. O nariz ainda sangra, as mãos rígidas, e ele de pé, cambaleante, amparado pela parentada, passando pela porta onde seu caixão não fez curva. Me deixem ser o morto que se gargalha de prazer pela ausência. Me deixem ser um morto realizado, completo, saciado. Que tudo tenha sido feito, realizado, alcançado, e que por isso mesmo, tudo possa ser esquecido. Esquecido, portanto livre.

    Não me condenem a ser um fantasma opressor que não deixa os outros seguirem em frente. O fantasma amaldiçoado que pesa nos ombros, que dá um gosto ruim nas bocas, que assombra sem aparecer à noite. Que limita…

    Só quero, então, que vocês digam que eu fui um calhorda, como eu realmente sou. Não a suprema expressão, mas a mais sincera tentativa fracassada de um rematado canalha. Que eu fui um covarde, como eu realmente sou. Que fui medíocre, invejoso, fedorento, preguiçoso, careca, feio, desarrumado e bêbado. Contem nos jardins de infância que eu comia de boca aberta e arrotava até com copo de água. Não permitam que criança nenhuma no mundo queira ser como eu “quando crescer”. Publiquem em letras coloridas por todos os jornais e muros do mundo que eu fui a pior versão de um show que nunca devia ter entrado em cartaz – a humanidade. Deixem claro que isso eu acreditava: que a humanidade não devia ter acontecido, que o mundo deveria ter sido entregue aos platelmintos, às formigas cabeçudas ou mesmo às moscas de banana, qualquer coisa, menos esse troço errado que é gente. Esse tipinho idiotizado que não consegue tomar sua sopa sem jogar sal no prato ao lado. Que não consegue olhar somente para o seu umbigo sujo e inflamado. Esse bichinho que não sabe se virar sozinho, que não consegue falar o que pensa, que não consegue ser honesto com o que sente, que não faz sem esperar retorno, que não é capaz de ser o que vive cuspindo que é, nos discursos e nas salas de espera – gente. Não consegue ser gente.

    Ser humano. Essa comprovação definitiva e verdadeira de que Deus não tinha a menor noção do que estava fazendo, e que Einstein estava errado; ele joga dados com o universo SIM!! E algumas vezes…. snake eyes!

Quando eu estiver morto, joguem terra por cima e vão pra festa. Qualquer festa. Se insistirem em fazer algo meramente próximo de uma reverência (porque homenagem não merecemos e não permitirei), bebam um último chopp em meu nome e me deixem em paz.

Perdoem-me somente a arrogância, e me deixem em paz. Eu tenho certeza que vou deixar vocês em paz.

Só isso que eu peço.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Eduardo Mesquita, O Inimigo do rei

eduardoinimigo@gmail.com

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o grito do inimigo

Oi. Eu sou o Inimigo. O Inimigo do rei.

Cansado de mazelas e reclamações, de saco cheio de inatividade e covardia. Feito inimigo pelo furacão, pela onda, pelo vento seco, com ódio nos olhos e sangue na boca. O Inimigo que respeita e teme, mas que ainda assim quer destruir. Tenho fúria e folia no sorriso.

Sou Inimigo.

Com fome de poesia, olhando por uma janela suja, “vendo deuses queimando nuvens no deserto” (obrigado Ginsberg e Kerouack). Sinto o cheiro dos corpos enquanto corro os dedos por informações de silício. Inimigo em multidão, correndo pelo asfalto em um banco macio de ônibus, sentindo o cheiro do choro das crianças que nunca se calam.

Sou o Inimigo.

Grito minhas verdades bárbaras e ébrias por sobre telhados sujos de crimes e lembranças desagradáveis. Provoco seu sono com verdades, perguntas, curiosidade e desejo. Correndo com a chama nas mãos e o silêncio da ferida na memória, uma visão de futuro onde amigos e irmãos se juntaram em trincheiras com raios laser e propostas.

Inimigo de tédios e reuniões modorrentas que não terminam, sem nunca entender direito que diabos estou fazendo. E esse gosto na boca que nunca passa.

Sou Inimigo. E o que eu grito é revolta, insubordinação, anarquia. O Inimigo que quer sair do lugar, que quer movimento e dança, que quer gritar no meio do velório e cantar na escada rolante.

O Inimigo do rei. Que quer circo, pão, vinho e prazer. Sou Inimigo, sou incômodo. O rei nunca mais vai dormir em paz.

E eu te achei.

Eu sou o Inimigo. Meu nome não importa, o que ou quem eu sou não importam. Só importa que eu vou invadir seu espaço. Regularmente. E vou te obrigar à poesia, novidade, informação, curiosidade, palavras, fúria e tempestade. De agora em diante você não se livra mais do Inimigo.

Eu sou o Inimigo. E eu te achei.

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o primeiro grito

Precisava de um lugar para deixar essas coisas registradas, minha memória não ajuda em nada e tanta coisa que se perde em cada mudança feita. Além dos lugares em que os Gritos ecoam e reverberam, agora tem esse canto escuro e esquecido. Aqui os Gritos vão se esconder em paz.

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